Com cerca de meio milhão de visitantes por ano e mais de três mil empregos gerados, a região reúne potencial econômico, demandas comunitárias e perspectivas de expansão

Reconhecido como o principal destino enoturístico do Brasil, o Vale dos Vinhedos tem ampliado sua estrutura turística nos últimos anos, atraindo novos empreendimentos, diversificando experiências oferecidas aos visitantes e recebendo investimentos em infraestrutura. Ao mesmo tempo, moradores e empresários apontam desafios que acompanham esse crescimento, especialmente nas áreas de transporte, mão de obra, pavimentação e serviços.

Localizado entre os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, o distrito reúne vinícolas, restaurantes, hospedagens, lojas e empreendimentos voltados ao turismo.

Segundo o presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), André Larentis, o território recebe cerca de meio milhão de visitantes por ano e consolidou-se como uma das principais referências de enoturismo da América Latina. A entidade atua na promoção do destino e na valorização da Indicação Geográfica Vale dos Vinhedos, instrumento que protege a origem dos produtos vinculados ao território e fortalece a identidade regional.

Para Larentis, o momento vivido pela região é positivo e resultado de um trabalho construído ao longo de décadas por empreendedores, produtores e pela comunidade local. Ao mesmo tempo, ele destaca que o crescimento do turismo exige planejamento e investimentos para que o desenvolvimento ocorra sem comprometer as características rurais, a paisagem e a qualidade de vida dos moradores.

Turismo em expansão e novas experiências

Morador da Linha Ceará da Graciema e empreendedor desde 2017, Lucas Valduga considera que o Vale possui capacidade para crescer ainda mais. “É uma região turística com muito potencial, mas percebo que faltam investimentos em atrações que vão além do vinho e do espumante. Os clientes comentam bastante sobre a necessidade de atrações voltadas para famílias e crianças, como parques e espaços de lazer”, afirma.

Funcionária de uma vinícola instalada na região desde 2008 e atuando no local há cerca de um ano, Eliziane Fernandes do Carmo destaca que o movimento turístico permanece forte e continua atraindo visitantes de diversas partes do país. “O vinho brasileiro está sendo muito reconhecido. Hoje recebemos turistas de praticamente todo o país e a tendência é que isso continue crescendo”, observa.

Para Leonardo Giordani, morador da Linha Leopoldina e administrador de empreendimentos familiares na região, onde sua família atua desde 2008, uma das principais características atuais do Vale é a diversidade de experiências disponíveis. “Além das vinícolas, existem muitas outras opções. O turista consegue passar vários dias aqui e ainda não conhecer tudo. Também há muitas hospedagens, então a pessoa consegue se instalar na região e aproveitar diferentes atrações”, relata.

Empreendedor e morador do Vale e diretor de infraestrutura da Aprovale, Marcos Giordani avalia que a última década foi marcada por avanços significativos. “Nos últimos dez anos tivemos uma evolução muito grande, principalmente em infraestrutura, iluminação e passeios públicos. O Vale mudou bastante, tanto para quem mora quanto para quem visita”, destaca.

Crescimento do fluxo de visitantes

Nos últimos anos, novos empreendimentos foram instalados no distrito e muitos negócios ampliaram seus serviços para atender às demandas dos visitantes. A pandemia de Covid-19 é apontada por alguns entrevistados como um período que contribuiu para aumentar a visibilidade do destino. Com as restrições às viagens internacionais, muitos brasileiros passaram a buscar experiências dentro do país.
Segundo Eliziane, foi nesse contexto que o enoturismo regional ganhou ainda mais destaque. “De 2020 para cá houve um crescimento muito grande. Muitas pessoas passaram a viajar dentro do Brasil, conheceram a região e também aumentaram o consumo de vinho brasileiro”, afirma.

Ela relata que o movimento registrado nos anos seguintes à pandemia se manteve, embora em patamares menores do que os observados em 2021 e 2022. Atualmente, os visitantes oriundos da região Sudeste representam a maior parcela do público recebido pela vinícola. “Recebemos muitos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também temos visitantes daqui do estado, Santa Catarina e Paraná, mas o Sudeste ainda se destaca”, explica.

A gerente comercial Magda Radmann, que atua há quatro anos em uma loja instalada no distrito, também identifica um público formado por visitantes de diferentes locais do país. “O Vale dos Vinhedos atrai pessoas que gostam de experiências diferenciadas. Muitos relatam que encontram aqui uma atmosfera semelhante à europeia e valorizam bastante a segurança e a tranquilidade da região”, comenta.

Segundo ela, grande parte dos turistas chega ao destino por recomendação de outras pessoas que já visitaram o local. “Normalmente eles vêm porque alguém indicou. Escutaram falar bem da região, das vinícolas e da experiência que encontram aqui”, relata.

Magda observa ainda que o período pós-pandemia estimulou a criação de novos espaços ao ar livre nos empreendimentos da região. “Muitos restaurantes e vinícolas abriram áreas externas naquele período. As pessoas queriam sair e esses ambientes acabaram sendo uma solução que funcionou muito bem”, afirma.

Falta de transporte impacta a rotina do distrito

Entre todos os temas abordados pelos entrevistados, a ausência de transporte público aparece como uma das principais demandas do distrito. Atualmente, as opções de deslocamento coletivo citadas se resumem ao Ciao Bus, que opera em dias específicos, e à linha de Monte Belo do Sul, apontada como insuficiente para atender as necessidades do distrito.

Para Lucas Valduga, a situação afeta diretamente a rotina dos moradores. “A única opção aqui é ter carro. Minha mãe não dirige e depende de carona ou táxi. Isso acaba limitando a independência dela e acredito que aconteça com muitas outras pessoas”, afirma.

Além dos impactos na mobilidade cotidiana, ele acredita que essa falta interfere no desenvolvimento econômico local. “Tendo transporte público, você teria mais mão de obra disponível. As pessoas poderiam trabalhar aqui com mais facilidade e isso geraria desenvolvimento”, avalia.

Leonardo Giordani relata que a dificuldade é sentida diariamente pelos empreendimentos que dependem de funcionários para atender. “Muitas pessoas mandam currículo, mas não conseguem trabalhar porque não existe um meio adequado. Nosso movimento principal acontece justamente nos finais de semana, quando praticamente não há opções”, explica.

A situação também preocupa Marcos Giordani. “Tem pessoas que deixam de ter um emprego porque não conseguem chegar ao distrito. É um desafio muito grande para quem empreende e também para quem busca uma oportunidade de trabalho”, destaca.

Eliziane relata que os turistas costumam enfrentar dificuldades para chamar transporte por aplicativo. “Muitas vezes a pessoa quer se deslocar entre uma vinícola e outra, mas encontra dificuldade para conseguir Uber. Como os motoristas normalmente estão na cidade, o custo acaba ficando alto e a espera pode ser longa”, afirma.

Segundo ela, essa situação afeta especialmente visitantes que participam de degustações e preferem não dirigir. “É uma questão que poderia ser facilitada tanto para os moradores quanto para os turistas”, acrescenta.

Magda confirma que as reclamações são frequentes. Em algumas ocasiões, a gerente comercial precisou levar visitantes até pontos mais próximos da área urbana para ajudá-los a concluir o deslocamento. “Já fiz isso várias vezes. Os clientes pedem ajuda porque ficam esperando transporte e não conseguem. Quando possível, acabo levando eles como uma gentileza”, conta.

Mão de obra segue como desafio para os empreendimentos

Embora a dificuldade de contratação seja apontada como uma realidade enfrentada por diferentes setores, os entrevistados relacionam parte desse cenário à falta de transporte público, especialmente em períodos de maior fluxo de pessoas na região.

Valduga afirma que o maior impasse está relacionado às vagas de finais de semana. “Existe muita dificuldade para encontrar colaboradores disponíveis para trabalhar nesses períodos. Muitas vezes a pessoa trabalha uma ou duas vezes e depois não retorna”, comenta.

Marcos Giordani associa diretamente essa dificuldade à questão do transporte. “Além da falta de mão de obra, muitas pessoas não conseguem chegar até o Vale porque não possuem veículo próprio. Isso acaba reduzindo ainda mais a disponibilidade de trabalhadores”, observa.

Já Eliziane relata que, no caso da vinícola onde atua, a equipe tem conseguido atender a demanda atual, embora reconheça que podem ocorrer dificuldades em determinados períodos. “Às vezes acontece de a equipe ficar desfalcada, mas atualmente estamos conseguindo manter um grupo que atende bem a nossa necessidade”, explica.

Segundo ela, a maior parte dos funcionários utiliza veículo próprio para chegar ao trabalho. A colaboradora, por sua vez, utiliza a linha de ônibus de Monte Belo do Sul. Nos períodos em que esse transporte não está disponível, especialmente aos finais de semana, os trabalhadores costumam recorrer a caronas entre colegas ou ao uso de transporte por aplicativo, alternativa que também é disponibilizada pela empresa quando necessário.

Infraestrutura ainda demanda investimentos

As obras executadas nos últimos anos são reconhecidas pelos entrevistados, mas ainda existem reivindicações relacionadas às condições das vias e aos acessos dos empreendimentos.

Para a Aprovale, a ciclovia, inaugurada em maio deste ano, representa uma conquista histórica para o território. “A recepção tem sido amplamente positiva. A ciclovia era uma demanda histórica do Vale dos Vinhedos e representa um importante avanço para a mobilidade, a segurança e a qualificação da experiência turística”, afirma Larentis.

Eliziane avalia a obra de forma positiva. “A ciclovia valorizou a região. Houve transtornos durante a execução, mas hoje acredito que o resultado foi muito bom”, afirma.

Valduga considera que a estrutura trouxe benefícios para a região, mas avalia que algumas intervenções ficaram incompletas. “Ficou bonita, mas percebi falta de acabamento nas áreas paralelas. Em alguns pontos ficou com aspecto inacabado”, afirma.

Ele também sugere a instalação de redutores de velocidade em determinados trechos da rodovia. “Na frente do empreendimento acontecem acidentes com frequência porque os veículos precisam reduzir para fazer conversões. Redutores poderiam ajudar”, comenta.

Magda aponta preocupações relacionadas à segurança viária e à falta de acostamentos. “As pessoas reclamam bastante da ausência de espaços adequados para parar os veículos. Isso acaba gerando situações de risco, especialmente em locais com grande movimentação”, relata.

De acordo com ela, acidentes já foram registrados em frente ao estabelecimento em que trabalha. Apesar de normalmente não provocarem feridos, as ocorrências geram danos materiais e prejuízos aos condutores.

Marcos Giordani destaca que a principal reivindicação atual da comunidade está relacionada à pavimentação e à iluminação. “Hoje nossas principais demandas são asfalto e iluminação. Existem trechos em que o calçamento já não suporta mais o fluxo de veículos e caminhões”, afirma.

Na Linha Leopoldina, Leonardo Giordani afirma que o abastecimento de água também é uma preocupação para parte da comunidade. “Existem algumas questões relacionadas à falta de água. O pessoal está buscando soluções, mas ainda é um ponto negativo que nos afeta”, relata.

Segundo Larentis, a Aprovale defende novos investimentos voltados à mobilidade, segurança e conectividade da região. Recentemente, a entidade apresentou à bancada gaúcha, em Brasília, o projeto “Qualificação Regional: Vale dos Vinhedos”, que contempla obras de pavimentação, melhorias viárias e a ampliação da ciclovia.

Inaugurada recentemente, a ciclovia é vista como um avanço para a mobilidade e a segurança no Vale dos Vinhedos (Foto: Eduarda Medina/Jornal Semanário)

Enchentes afetaram atividade econômica

Embora o Vale dos Vinhedos não tenha sofrido os mesmos impactos observados em outras regiões, as enchentes de 2024 provocaram consequências para moradores e empreendimentos.

Valduga relata que o principal prejuízo foi econômico. “Ficamos praticamente um ano sem aeroporto. Como a maior parte do nosso público é formada por turistas, houve uma redução muito grande no faturamento”, afirma.

Para atravessar o período, o empreendimento precisou adotar medidas para garantir a continuidade das atividades. Segundo ele, embora a situação tenha melhorado, os reflexos financeiros daquele momento ainda não foram totalmente superados.

Segundo ele, a empresa precisou buscar alternativas para manter as atividades. “Foi necessário investir em vendas online e outras estratégias para atravessar aquele período”, relata.

Marcos Giordani afirma que as principais dificuldades foram superadas ao longo dos últimos meses. “As estradas foram recuperadas e hoje já não sentimos tantos reflexos das enchentes quanto anteriormente”, avalia.

Juventude encontra novas oportunidades na região

O fortalecimento do turismo também tem influenciado a permanência dos jovens no Vale dos Vinhedos.
Valduga observa que muitos moradores das novas gerações deixaram a região ao longo dos anos, mas percebe que parte deles encontrou oportunidades ligadas ao turismo. “Quem ficou acabou empreendendo ou encontrando alguma atividade relacionada ao setor”, afirma.

Leonardo Giordani acredita que atualmente existem mais possibilidades do que havia no passado. “Hoje vejo uma retenção maior dos jovens. Muitos estão tentando permanecer aqui e desenvolver seus próprios negócios”, relata.

Marcos Giordani também identifica uma mudança nesse cenário. “Com o turismo surgiram novas oportunidades. Além disso, houve avanços tecnológicos na agricultura e na produção de uvas. Hoje existe um ambiente mais favorável para que os jovens permaneçam”, afirma.

Creche é apontada como necessidade para acompanhar crescimento

Além das questões relacionadas à mobilidade e à infraestrutura, a oferta de serviços também aparece entre as demandas apresentadas pela comunidade.

Marcos Giordani destaca a necessidade de implantação de uma creche no distrito. “O Vale dos Vinhedos emprega mais de três mil pessoas e não possui creche. Hoje muitas famílias dependem desse serviço para conseguir permanecer no mercado de trabalho”, afirma.

Segundo ele, a existência de uma estrutura voltada à primeira infância contribuiria tanto para os moradores quanto para os trabalhadores que atuam nos empreendimentos. “O turismo cresceu muito e a comunidade também precisa acompanhar esse desenvolvimento”, conclui.

Planejar o futuro sem perder as origens

Para Larentis, o desafio dos próximos anos será conciliar crescimento e preservação. “O nosso compromisso é garantir que o distrito continue evoluindo sem perder aquilo que o tornou único: sua identidade, paisagem e conexão com a cultura do vinho e com as famílias que deram origem a este território”, conclui.