Depois de abordar os gêneros Pop, o Rock e o Ítalo-gaúcho, esta reportagem da série “Pelos gêneros musicais de Bento” se aprofunda no universo do Instrumental, com mais entrevistados locais.
Encontro de influências e identidade sonora
A Banda Trebbiano nasceu em janeiro de 2016, com a finalidade de unir diversas vertentes musicais em composições instrumentais autorais, apresentadas a partir de cinco fontes sonoras: acordeon (Ivan Bucco), violão (Kelvin Alves), contrabaixo (Gabriel Ambrosi), percussão e bateria (William Zandonai).
Desde então, o grupo baseia suas composições na fusão de diversos gêneros musicais, dentre os quais destacam-se as fortes vertentes de tango, milonga, jazz, soul e blues.
A fusão de ritmos e experiências culturais faz com que a Trebbiano difunda a cultura local, enquanto conversa com diversos públicos. No entanto, o desafio para atrair e contagiar o público sem usar palavras nem voz é enorme. “Porém a reação ao ver a música instrumental tocando a alma de quem assiste e ouve é a maior recompensa que poderíamos ter, pois este gênero não tem fronteiras, dá asas ao pensamento, vida aos sentimentos e desperta do íntimo o sonho em forma de arte. O público adora, desde crianças até pessoas de idade avançada, temos a sorte de conseguir cativar os mais diversos nichos, de diferentes gostos musicais”, destaca Kelvin Alves, integrante da banda.
Em dezembro de 2018, a banda lançou o seu primeiro álbum. Nele, são apresentados nove temas, fundamentados em obras literárias, cinema, figuras folclóricas e pensamentos cotidianos.

Neste mesmo ano, a banda realizou diversos shows nos mais diversificados tipos de eventos, executando apresentações em congressos estaduais, nacionais, em festivais e inúmeros outros festejos de destaque na região e até mesmo no estado e no país, sendo coroada ao fim do ano, com um convite para tocar em São Paulo na Pixel. A banda foi uma das 18 selecionadas, dentre mais de 900 inscritos de todo Brasil.
Em 2020 estiveram pela primeira vez na cidade de Curitiba, no Vale da Música, realizando dois shows no Palco Flutuante, localizado na Ópera de Arame. Após quase uma década de trajetória na música instrumental, dividindo o palco com renomados nomes nacionais e regionais, a banda começa a dar forma ao seu novo álbum, com lançamento previsto para o final deste ano.
Experimentação coletiva e raízes regionais
Segundo Alves, o processo de composição é algo bem peculiar, pois não existe uma “fórmula”. “Inclusive é algo que não pode ser forçado, as ideias simplesmente surgem em contextos muito específicos e de sensibilidade quando cada músico consegue externar seus sentimentos e sensações para o som, a maioria das músicas nascem nos ensaios da banda, com todos envolvidos e abertos para explorar novas possibilidades nesse laboratório sonoro e experimental. As composições englobam diversos gêneros musicais, por ser instrumental, e quanto mais rico em sonoridade, melhor!”, ressalta.
Ele revela que o “Pano de fundo” da banda é o vinho, a uva e a região da Serra Gaúcha, sendo inclusive “Trebbiano” uma casta de uva branca da região. “A partir deste vinho surgiu também o nome da banda. A nossa missão é preservar as raízes culturais e ao mesmo tempo explorar a contemporaneidade, o que torna nossa música original e diferenciada”, enfatiza. O Instagram da banda é @trebbianooficial e há também um canal no YouTube.
Primeiros contatos
Já Giovani Pinceta, que toca violão, guitarra e contrabaixo, conta do começo da sua relação com a música. “Sempre esteve presente em minha vida. Meus tios tinham um conjunto de baile e meu pai tocava violão em casa; então, desde pequeno tive acesso a instrumentos musicais”, revela.
Caminhos, desafios e afirmação profissional
Ele começou a tocar com 12 anos de forma autodidata, através de revistas e dicas de amigos. “A música instrumental veio logo em seguida. Na adolescência eu tinha um trio deste gênero; foi onde comecei a me identificar com ele. A partir daí toquei em orquestras, duos e grupos dos mais variados estilos. Como solista comecei a tocar por volta de 2008, participando de festivais”, frisa.
Ele menciona o momento que decidiu seguir a música de forma mais profissional. “Desde que comecei a tocar sempre soube que era isso que eu queria fazer; é como se já estivesse em mim essa paixão pela música. Fiz meu primeiro show profissionalmente aos 16 anos e continuo na ‘lida’ até hoje”, afirma.

Sobre os principais desafios no início da sua carreira ele revela que a falta de acesso à informação foi um dos que se destacaram. “A internet não era tão difundida quanto é hoje e poucos tinham disponibilidade a ela. Houve também a falta de professores qualificados nesse gênero, e os que sabiam um pouco escondiam a informação, tanto que eu tive que ir estudar fora de Bento para me especializar. A falta de espaço para tocar e de músicos que realmente dominem esse estilo para se apresentar junto são coisas que acontecem até hoje; praticamente é quase impossível viver de música instrumental de qualidade aqui. Na cidade a minha principal fonte de renda sempre foi dar aulas”, pondera.
Pinceta trafega por vários gêneros dentro da música instrumental, como: jazz, choro, bossa nova, samba, música sul-americana, rock, blues e pop. “Acredito que meu estilo seja uma mistura de todas as minhas vivências musicais. Eu procuro passar sentimentos, emoções e inspirar outros músicos através da minha maneira de tocar”, pontua. Sobre artistas ou movimentos musicais que mais o influenciaram ele cita alguns relacionados ao violão: Raphael Rabello, Yamandú Costa, Baden Powell, Lúcio Yanel e Zoca Jungs.
Segundo ele, embora na Serra tenha um movimento deste gênero, não se compara com a popularidade da música cantada e, principalmente, com a música midiática. “Em Bento não existe nenhum local especializado no gênero. Se você quiser tocar, tem que produzir seu show. Os poucos lugares que aceitam esse tipo de música, como alguns hotéis, feiras e eventos, oferecem um cachê que não condiz com a realidade, sem contar que, para participar desses eventos, você precisa muitos contatos. Qualificação musical nem sempre é um quesito de relevância no município”, avalia.
No entanto, o público da região tem se mostrado mais receptivo. “Sempre recebo muitos elogios e comentários positivos”, destaca.
Múltiplas frentes de atuação
Sobre o seu processo de criação musical e de repertório ele ressalta que procura tocar músicas que gosta. “Assim passo a minha verdade ao público. Em relação à composição, eu não tenho uma maneira específica: às vezes componho a partir de uma frase (ideia musical curta), outras vezes a música já chega pronta, como se eu já tivesse aprendido ela antes. Se for um estudo para violão, por exemplo, já é algo mais pensado para suprir alguma dificuldade harmônica, técnica ou mecânica. Se for uma trilha de filme ou para outro artista, eu procuro captar a essência para chegar o mais próximo da ideia do contratante. Particularmente eu prefiro compor sozinho, mas sempre é bom somar ideias e experiências musicais com outros músicos”, informa.
Atualmente Pinceta tem um espetáculo de violão solo; dá aulas de violão de 6 e 7 cordas, harmonia funcional, percepção e teoria musical; acompanha artistas e bandas; faz gravações; escreve arranjos para violão solo e outras formações. No entanto tem como objetivo conhecer o mundo através da música, levando sua arte para todos os cantos.
A médio e longo prazo ele vê um futuro promissor. “Tem muita gente que gosta deste estilo, há vários festivais acontecendo e diversos núcleos espalhados pelo estado. As coisas estão acontecendo devagar, mas estão”, aponta.
Um conselho que ele dá para jovens músicos que desejam seguir nesse caminho é estudar. “Se qualifiquem musicalmente, façam contato com outros músicos e, principalmente, não desanimem, porque esse é um caminho desafiador, mas muito gratificante”, conclui.
Do piano à formação artística
Já Jean Paul Deitos, que é pianista conta que seu primeiro contato com a música foi aos dois anos. “Começou de brincadeira. Depois na Igreja, fiz parte do grupo de louvor e comecei a me interessar por blues, que me lançou para o mundo da música instrumental”, frisa.
Ele é natural de Carlos Barbosa, vindo para Bento em 2006, com 15 anos, para dar aulas na extinta Escola de Música Ágape. “O grande desafio sempre foi me posicionar no mercado, depois a falta de valorização, tanto dos contratantes quanto da prórpia classe”, indica.

Deitos atua como um interprete. “Procuro um repertório variado que converse com meu público, independente da geração. Não é uma música de consumo de massa, mas existem espaços, não tantos quanto gostariamos, para a música instrumental, mas isso parece uma crescente. Talvez o que falte seja lugares que apostem mais nisso”, sugere.
Ele se considera eclético, então suas influências vão desde bandas de rock nacional dos anos 80, há outras de progressivo, como Dream Theater. “Sempre admirei músicos próximos também, como o Joel Rodrigues, Tiago Andreolla (Tigu), e alguns dos meus mestres, como Eder Bergozza, Léo Ferrarini e New”, sinaliza.
Segundo ele, há público, porém, a questão é que é necessário levar até ele este tipo de arte. “Eventos como Bento Jazz, hotéis e restaurantes já tem se atentado para isso, mas é necessário arriscar mais para ver os resultados”, afirma.
O processo de criação musical e de repertório depende de cada situação. “Normalmente surge de pequenos temas melódicos em momentos de inspiração. Já quando isso acontece em grupo alguém traz uma parte desse tema e acontece um brainstorming (tempestade de ideias) musical, vai se polindo até chegar a um resultado ótimo. Em grupo é sempre mais divertido”, enfatiza.
Atualmente ele dá aulas e tem trabalhado como sideman (profissional freelancer contratado para se apresentar ou gravar com um artista solo ou banda da qual não é membro fixo), tocado em casamentos e atuado como produtor cultural. “Um sonho que tenho é construir um centro integrado de artes, juntando música, dança, vídeo, artes plásticas e o que mais puder ser colocado em um ambiente imersivo.
O futuro, segundo Deitos, parece promissor. “Para os que ainda não experimentaram fica meu incentivo. É preciso encontrar o que você gosta neste gênero: versões em piano? trio de Jazz? Samba e Bossa? Duos de piano e violino? Tem pra todos os gostos, cada um precisa descobrir o seu”, pontua.
O conselho que ele dá para jovens músicos que desejam seguir nesse caminho é que, além de tocar bem e estudar constantemente, é importante ter um bom network com colegas e contratantes, uma boa página e redes sociais com fotos e vídeos profissionais, além de montar um bom portfólio. Hoje não basta mais apenas tocar bem”, finaliza.