Em meio ao avanço das telas e do entretenimento digital, iniciativas locais têm resgatado o hábito de jogar presencialmente e criado novos espaços de convivência em Bento Gonçalves. Negócios locais mostram que o universo dos jogos analógicos vive um momento de crescimento, atraindo públicos diversos e fortalecendo laços.
Do hobby à locadora
Criada em junho de 2024, a Boardland surgiu a partir de uma necessidade simples: dar utilidade a uma coleção de jogos que já não era totalmente aproveitada. Segundo um dos sócios, Artur Accorsi Bergoli, a ideia nasceu quando ele e os sócios Guilherme Cusin Salvati e Guilherme Serafini perceberam que, mesmo com mais de 20 jogos, conseguiam se reunir apenas uma vez por mês. “Nós sempre jogamos diversos juntos, mas eles são muito caros de adquirir. Penso que se tivéssemos tido acesso a este tipo de aluguel teríamos aproveitado e conhecido muitas opções diferentes”, destaca.
A solução encontrada foi transformar o hobby em negócio. Hoje, a empresa atua como uma locadora de jogos de tabuleiro, oferecendo títulos que vão desde opções mais acessíveis até jogos que ultrapassam R$1 mil. O aluguel permite que o público tenha acesso a experiências que, muitas vezes, seriam inviáveis pela compra.

Encontros para todas as idades
Além da locação, a Boardland também organiza eventos em parceria com cafés, restaurantes e espaços culturais da cidade. Os encontros, realizados uma ou duas vezes por mês, reúnem grupos de amigos, casais e famílias que buscam uma alternativa de lazer fora do convencional. “É uma oportunidade de fazer algo diferente, sair do celular, do filme, e criar momentos com outras pessoas. Vai bastante gente que está começando agora neste universo. Muitas das pessoas já jogaram Banco Imobiliário, Jogo da Vida, War… mas nunca esses modernos, que são muito mais divertidos na minha opinião. Então elas aproveitam para criar conexões e momentos divertidos com quem gostam”, destaca Bergoli.
Nos eventos, são disponibilizados cerca de 40 a 50 jogos, priorizando partidas mais rápidas, de 15 a 45 minutos, com explicação das regras no local.
Experiência acessível e públicos
O modelo atrai tanto iniciantes quanto jogadores mais experientes. Enquanto os eventos funcionam como porta de entrada para quem ainda não conhece os jogos, a locação atende um público mais engajado, que busca títulos mais complexos para jogar em casa.
Com mais de 400 clientes atendidos entre eventos e locações, a Boardland já observa o surgimento de novos adeptos deste entretenimento. “Tem pessoas que começaram com a gente e hoje já jogam os avançados, que levam horas”, afirma o empresário.

Card games e competição em alta
Se por um lado os jogos de tabuleiro ampliam o acesso ao entretenimento, por outro, os card games têm fortalecido o cenário competitivo na cidade. A Star Games se reinventou ao longo do tempo e hoje tem nas cartas seu principal foco.
De acordo com o empresário Jean Guilherme Pegoraro, a loja deixou para trás o modelo de lan house e passou a investir em produtos geek, colecionáveis e, principalmente, nos card games. Atualmente, o espaço funciona como ponto de encontro para jogadores e colecionadores, com eventos frequentes e campeonatos oficiais.
Entre os títulos mais populares estão Pokémon TCG, Magic: The Gathering (MTG) e One Piece, além de novidades como o card game da Disney, Lorcana. O Pokémon, em especial, lidera a preferência do público e atrai desde crianças até adultos.
Comunidade, inclusão e aprendizado
Os eventos organizados pela loja seguem padrões internacionais, com juízes certificados e calendário oficial. Mais do que competição, o ambiente também promove integração e aprendizado. A empresa oferece oficinas gratuitas para iniciantes, ensinando regras e auxiliando na montagem de baralhos. “É muito legal ver crianças, adolescentes e adultos interagindo, fazendo amizades e compartilhando experiências”, relata Pegoraro. Segundo ele, muitos frequentadores encontram nos jogos um espaço acolhedor, onde podem se expressar, ser eles mesmos e se conectar com outras pessoas.
À medida que os clientes vão conseguindo mais cartas e conhecendo bem as regras, estes são convidados para os torneiros.
Expansão
Bergoli frisa sobre o crescimento do setor na região. “Fico muito feliz em ver que essa cultura tem crescido, e acho que temos um impacto direto nisso. Vejo que poucas pessoas conheciam os jogos, e agora se tornou rotina para muitos. Tenho clientes que não conheciam os mais modernos e agora participam com frequência, inclusive avançados que levam horas. É sempre muito legal ver as pessoas descobrindo um novo entretenimento”, afirma.
Para quem quer iniciar, Pegoraro frisa que a loja está preparada para receber todo tipo de público, ensinar e inserir nos grupos e campeonatos.
Vantagens
Sobre os benefícios que esse tipo de atividade pode trazer, o sócio da Boardland frisa que nesse contexto em que as pessoas estão cada vez mais no celular este tipo de programa ganha força por oferecer uma experiência mais presencial e interativa, com diversas vantagens. “Promovem a convivência, o diálogo e a colaboração entre as pessoas. Criam oportunidades de interação real, fortalecendo vínculos sociais e incentivando momentos de qualidade entre amigos, famílias e até desconhecidos. Há também ganhos cognitivos importantes. Muitos estimulam o raciocínio lógico, a criatividade e a tomada de decisão, mas de forma leve e acessível, sem a pressão de ambientes formais”, avalia.
Além destes, Pegoraro enfatiza que as modalidades estimulam o raciocínio lógico, a criatividade, a leitura, interpretação e a tomada de decisões, além de fortalecerem a convivência e socialização. “Os pais que sabem deste favorecimento acabam incentivando a modalidade, o que é muito bom. Além de que na frente das telas, as crianças estão expostas a chats abertos e outros perigos”, afirma.
Perspectivas e expansão
Entre os planos futuros, a Boardland pretende ampliar a atuação junto a instituições de ensino, promovendo oficinas e atividades educativas. “Já cheguei a oferecer para algumas escolas a opção de fazermos eventos pontuais juntando os alunos e até a família. Para criar um momento de interação entre eles onde aprendem enquanto se divertem, sem nem perceber. Mas também temos muita vontade de atuar diretamente com oficinas. Acho que os jogos podem ensinar muitas coisas valiosas para as crianças e até conteúdos específicos, dependendo do tipo. Temos por exemplo um jogo que é uma linha do tempo de invenções e super se aplicaria em sala de aula. São muitas opções, mas hoje nos falta um pouco de oportunidade com as escolas, que normalmente tem dificuldade de orçamento, ou ainda não veem o valor que poderiam agregar”, indica.
Já a Star Games projeta expandir sua estrutura e fortalecer ainda mais os eventos, incluindo novas edições durante a ExpoBento. “Este ano tivemos o dia do Pokemon, para comemorar os 30 anos do anime, e que movimentou muito aqui”, revela.
As duas empresas anualmente participam também da ExpoBento e Fenavinho, tendo ambas confirmado sua participação para este ano.
Fotos: Artur Accorsi Bergoli