Texto e fotos: Cassiano Battisti.

A rotina da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) em Bento Gonçalves é marcada por um cenário complexo: aumento da procura por atendimento, equipe reduzida e uma realidade social que ainda impõe barreiras à proteção das vítimas. Em entrevista, a delegada titular Deise Salton Brancher detalha os principais desafios enfrentados pela unidade, que atende os municípios de Bento Gonçalves e Pinto Bandeira, ambas com as pautas de violência doméstica e contra crianças e adolescentes.

Segundo a delegada, um dos fatores que explicam o elevado volume de trabalho é justamente o fortalecimento da rede de enfrentamento. Integrada por órgãos como Polícia Civil, Brigada Militar, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e serviços de assistência, essa articulação amplia o acesso das vítimas à informação e, consequentemente, aos seus direitos. “Quando levamos conhecimento, é natural que as mulheres procurem mais ajuda. E isso aumenta a demanda. O problema é a falta de profissionais para atender da melhor forma possível”, explica.

Ações preventivas, como palestras semanais realizadas em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Centro de Referência da Mulher que Vivencia Violência (Revivi), têm incentivado denúncias e ampliado a conscientização sobre diferentes formas de opressão, incluindo a psicológica.

Elevado volume de trabalho

Atualmente, a DEAM conta com apenas quatro policiais e uma delegada para atender uma demanda crescente, que não se restringe apenas aos crimes contra a mulher, mas também inclui casos envolvendo crianças e adolescentes. “Nem sempre conseguimos dar vazão a tudo com a prioridade que gostaríamos”, admite Deise.

Delegada titular Deise Salton Brancher

A expectativa de reforço no efetivo depende da realização de concursos públicos e da formação de novos policiais, um processo que ainda leva tempo e é intermediado pelo Estado. Ela acredita que com o avanço dos índices de feminicídio e com a construção da Central de Polícia, que irá reunir todas as delegacias do município, haverá um olhar mais atento dos governantes para mandar mais efetivo.

Por outro lado, a estrutura física da delegacia foi melhorada recentemente. Há cerca de dois anos, a unidade deixou um espaço no subsolo na R. Mal. Floriano, 142, no Centro, e passou a operar em um ambiente mais adequado, no mesmo local, mas no segundo andar, com salas de atendimento individualizado e melhores condições de trabalho, incluindo equipamentos modernos e registro de depoimentos gravados.

Crimes e suas raízes culturais

Outro desafio apontado pela delegada está no padrão de evolução dos casos. Muitas ocorrências seguem uma escalada de gravidade: começam com ameaças ou violência psicológica e avançam para agressões físicas.

De acordo com ela, fatores como o machismo estrutural e o sentimento de posse ainda são determinantes na maioria dos casos. Além disso, o consumo de álcool e drogas aparece com frequência associado às ocorrências.

A delegada também destaca que não há uma concentração específica de casos por bairro, o que reforça o caráter disseminado do crime. “Temos registros em todas as regiões. O que pode existir é subnotificação, por vergonha ou medo de denunciar”, pontua.

As dificuldades

Além dos desafios institucionais e sociais, há também os obstáculos enfrentados pelas próprias vítimas. Dependência financeira, vínculo emocional e medo do agressor frequentemente retardam a busca por ajuda. “A mulher sabe que as ameaças podem ser concretizadas. Isso gera um bloqueio”, explica Deise.
Para enfrentar essa realidade, o atendimento na DEAM é realizado de forma individualizada, em ambiente reservado, e inclui o encaminhamento para serviços especializados, que oferecem suporte psicológico, psiquiátrico e social. Muitas buscam também o plantão, isto é, a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA).

DEAM está localizada na R. Mal. Floriano, 142, no Centro, segundo andar

Ações integradas

As medidas protetivas seguem sendo uma das principais ferramentas de proteção. Mais da metade das mulheres atendidas solicita esse recurso, que prevê o afastamento do agressor e é acompanhado, em Bento Gonçalves, pelos órgãos de segurança, especialmente pela Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar.

Além disso, iniciativas como grupos reflexivos para homens autores de violência (promovido pelo Poder Judiciário) e parcerias para aulas de defesa pessoal também integram a estratégia de enfrentamento. Mulheres que desejam realizar as aulas devem agendar com Rosane Fabrisio pelo fone (54) 981455552 ou com o instrutor Adriano Rinaldi pelo contato (54) 981270776.

Desafios da carreira policial

A delegada também chama atenção para as dificuldades da própria profissão. O trabalho em constante estado de alerta e o contato frequente com situações de violência impactam diretamente na saúde mental dos policiais. “É uma função que exige muito do psicológico. As instituições ainda precisam avançar no suporte contínuo, como oferecer psicólogos para atendimento contínuo. Há muitos casos de suicídio, por exemplo”, avalia, destacando que os policiais devem buscar este tipo de apoio, além de atividades físicas para manter a saúde mental.

Apesar disso, Deise reforça a importância e o significado da atividade policial. “Ajudar pessoas e buscar a verdade é algo muito gratificante”, afirma.

Cenário atual

Embora Bento Gonçalves não tenha registrado feminicídios consumados neste ano, o número de ocorrências relacionadas a outros tipos de violência segue elevado, incluindo ameaças, agressões físicas, perseguição e estupro.

O cenário, segundo a delegada, exige atenção constante e ações integradas. “Temos desafios sociais, institucionais e individuais. É um conjunto de fatores que precisa ser enfrentado ao mesmo tempo”, conclui.