Município revisa estratégias de ocupação do solo, investe em estudos para drenagem urbana e fortalece mecanismos de monitoramento e resposta após os desastres registrados em 2023 e 2024
Os eventos climáticos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul nos últimos anos deixaram marcas profundas em cidades de diferentes portes e reforçaram a necessidade de adaptação diante de uma realidade cada vez mais desafiadora. Em Bento Gonçalves, as enchentes, enxurradas e deslizamentos registrados especialmente em 2023 e 2024 impulsionaram uma série de medidas voltadas à prevenção de desastres, ao aprimoramento do planejamento urbano e ao fortalecimento dos sistemas de monitoramento e resposta a emergências.
Embora o município possua características geográficas distintas de outras regiões fortemente impactadas por alagamentos, a intensidade das chuvas observadas nos últimos anos evidenciou fragilidades que exigem planejamento contínuo e ações integradas entre diferentes setores da administração pública. Nesse contexto, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ipurb) e a Defesa Civil desempenham papel central na construção de estratégias que visam reduzir riscos.
Segundo a diretora do Ipurb, Melissa Bertoletti, o Plano Diretor de Bento Gonçalves já contempla instrumentos voltados à mitigação de impactos ambientais por meio do zoneamento e das restrições de ocupação do solo. “Em razão dos eventos climáticos extremos ocorridos, quando o Município enfrentou situação de calamidade pública, a cidade passou a contar com o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR)”, salienta.
O documento, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em parceria com o Ministério das Cidades, tornou-se uma das principais referências técnicas para o planejamento futuro da cidade.

Mapeamento das áreas vulneráveis
O PMRR identifica áreas suscetíveis a diferentes tipos de ocorrências, incluindo deslizamentos, enxurradas e enchentes, além de apontar intervenções necessárias para reduzir a exposição da população aos riscos.
A partir desse material, o município pretende adequar seus instrumentos de planejamento urbano às novas informações técnicas disponíveis. “Com base nesse material, o Ipurb deverá promover a revisão e compatibilização do zoneamento urbano vigente, incorporando as áreas de risco e suas respectivas restrições de ocupação”, explica Melissa.
Entre os principais desafios identificados pelo município está a necessidade de compreender melhor o comportamento das águas pluviais dentro do perímetro urbano. Para isso, a administração municipal trabalha na elaboração do Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais Urbanas (PDDU), atualmente em fase de licitação. O objetivo é realizar um diagnóstico detalhado da infraestrutura existente e estabelecer diretrizes para investimentos futuros. “O plano permitirá diagnosticar as principais fragilidades do sistema atual e definir intervenções prioritárias, ações preventivas e investimentos estruturantes para os próximos anos”, afirma a diretora do Ipurb.
A expectativa é que o estudo forneça subsídios para obras de drenagem, melhorias na rede coletora, redução do escoamento superficial e implantação de soluções capazes de minimizar alagamentos em diferentes regiões da cidade. O trabalho também deverá contribuir para a criação de políticas permanentes de adaptação climática, integrando planejamento urbano, infraestrutura e preservação ambiental.
Regras para novos empreendimentos
O controle da impermeabilização do solo é outra frente considerada estratégica para reduzir os impactos das chuvas intensas. Atualmente, o Plano Diretor estabelece índices mínimos de permeabilidade para novos empreendimentos, variando de acordo com as características de cada zona urbana. Nas áreas de maior adensamento populacional, os percentuais mínimos giram em torno de 20% da área total dos terrenos.
Além disso, empreendimentos podem ser obrigados a implantar sistemas de retenção e amortecimento das águas pluviais, reduzindo a velocidade com que a água chega à rede pública durante os períodos de chuva intensa.
Conforme Melissa, os Estudos de Impacto de Vizinhança também permitem ao município exigir soluções específicas conforme as características de cada projeto. Essa análise torna-se ainda mais importante diante do crescimento urbano observado em alguns bairros da cidade, onde a verticalização vem alterando significativamente a dinâmica de ocupação do solo.
Segundo a diretora do Ipurb, o órgão já realiza avaliações técnicas relacionadas aos impactos do adensamento populacional e da verticalização, principalmente por meio da análise dos Estudos de Impacto de Vizinhança. No entanto, ela ressalta que um diagnóstico mais preciso da capacidade hidráulica da rede de drenagem somente será possível após a conclusão do Plano Diretor de Drenagem. “Somente após será possível obter diagnóstico técnico mais preciso da capacidade hidráulica da rede coletora existente, permitindo ao Município exigir medidas mitigatórias mais eficazes e compatíveis com cada situação”, afirma.

Manutenção preventiva
Além do planejamento de longo prazo, a manutenção permanente dos sistemas de drenagem continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir riscos durante períodos de chuva intensa. Atualmente, ações de limpeza e desassoreamento são realizadas de forma integrada pelas secretarias municipais de Obras, Agricultura e Meio Ambiente. Esses trabalhos incluem a manutenção de arroios, riachos, bocas de lobo e demais estruturas responsáveis pelo escoamento das águas da chuva.
A expectativa é que os estudos previstos no Plano Diretor de Drenagem permitam aperfeiçoar essas ações, identificando pontos críticos e estabelecendo programas permanentes de manutenção preventiva.
Enquanto o Ipurb atua no planejamento urbano, a Defesa Civil mantém acompanhamento permanente das áreas consideradas mais vulneráveis. Segundo o coordenador do orgão, Rodrigo Wermuth, o município possui um mapeamento detalhado dos locais que exigem maior atenção. “Bento possui áreas de risco catalogadas pelo PMRR e pelo Serviço Geológico do Brasil. O monitoramento prioritário ocorre em encostas e taludes nos distritos de Faria Lemos e Tuiuty, e no bairro Zatt, identificadas como áreas com maior suscetibilidade a deslizamentos devido ao seu relevo mais acentuado”, explica.
A Defesa Civil trabalha com monitoramento contínuo das condições meteorológicas por meio de informações fornecidas por diferentes órgãos especializados, incluindo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O objetivo é antecipar riscos e orientar a população antes que situações críticas se consolidem. “Entramos em fase de alerta máximo de atenção quando registramos um volume de 30 a 60 milímetros por hora, mais de 100 milímetros em um dia, ou diante de severa saturação do solo indicando instabilidade iminente”, informa Wermuth.
A disseminação rápida das informações tornou-se uma das principais ferramentas de prevenção adotadas pelo município. Sempre que há alertas relevantes, os comunicados são divulgados pelos canais oficiais da Prefeitura e pelas redes sociais da Defesa Civil.
Além disso, qualquer cidadão pode receber avisos diretamente em seu celular por meio do sistema nacional de alertas. Para isso, basta enviar um SMS contendo o CEP da residência para o número 40199.
Quando surgem indícios de risco em imóveis particulares, as equipes técnicas realizam vistorias detalhadas acompanhadas por profissionais habilitados, como engenheiros e geólogos. “Se for constatado risco iminente pelo técnico responsável, é determinada a evacuação imediata e a interdição preventiva do imóvel para salvaguardar a vida dos moradores”, ressalta o coordenador.
Além das ações preventivas, o município mantém estoques estratégicos de materiais de primeira necessidade, como lonas, colchões e cestas básicas, garantindo resposta rápida às famílias atingidas por situações emergenciais.
Segundo Wermuth, os planos de contingência estão sendo revisados para incorporar os aprendizados obtidos durante as ocorrências dos últimos anos e atender às diretrizes estabelecidas pelo PMRR. “Os planos de contingência estão sendo revisados para se adequarem à nova realidade climática de 2024 e às diretrizes do PMRR, garantindo critérios preditivos muito mais rigorosos e focados na proteção da vida humana”, afirma.

Orientações durante o sinistro
No município, o atendimento a essas ocorrências é centralizado pelo pelotão local do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS). A corporação atua de forma ininterrupta, mantendo guarnições de serviço 24 horas por dia, cujas escalas e o nível de prontidão são ajustados de maneira proporcional ao risco hidrometeorológico indicado pelas previsões e alertas emitidos pelas autoridades competentes. Para dar suporte às intervenções em cenários de alta complexidade, a unidade local dispõe de uma frota composta por viaturas de busca e salvamento, caminhões de combate a incêndio e veículos de apoio logístico. Dependendo da natureza do chamado, são mobilizados barcos infláveis e motorizados, coletes salva-vidas, cordas especializadas e kits específicos para a realização de salvamentos em altura e em áreas de águas rápidas. De acordo com o Capitão Gustavo Kist, Capitão do Corpo de Bombeiros, o desdobramento dessas forças segue uma estrutura que visa otimizar o tempo de resposta e garantir a segurança das equipes e das vítimas.
Uma das principais frentes de atuação preventiva diz respeito ao monitoramento de áreas vulneráveis a deslizamentos na Serra Gaúcha. Kist reforça que a população precisa desenvolver uma percepção ativa de risco dentro de suas propriedades. “Observe trincas no solo, muros estufados, árvores inclinadas e o surgimento de água barrenta”, alerta o Capitão. Ele salienta que intervenções humanas inadequadas agravam a instabilidade dos terrenos. “Evite cortes irregulares em encostas e o descarte de água ou água pluvial sobre o talude”, recomenda.
Durante chuvas prolongadas, a diretriz institucional determina que os moradores abriguem-se em locais seguros ao menor sinal de movimentação e atendam prontamente às ordens de evacuação da Defesa Civil. O sucesso das operações de socorro em larga escala depende diretamente da integração entre as forças, estruturada com base no Sistema de Comando de Incidentes (SCI). Essa parceria se manifesta por meio da troca contínua de informações meteorológicas, hidrológicas e de campo para a definição conjunta de prioridades operacionais. A preservação da vida humana lidera a cadeia de decisões, seguida pelo isolamento de perigos e mitigação de danos estruturais, organizando de forma mútua as evacuações, os abrigos temporários e a logística de suprimentos.
Quando o clima severo resulta no isolamento de comunidades, os protocolos de salvamento entram em uma fase de alta especialização técnica. Segundo Kist o avanço em direção a uma área crítica é precedido por uma criteriosa avaliação de risco, na qual os bombeiros analisam a estabilidade do terreno e novas quedas de barreiras. O acesso envolve metodologias como o uso de cordas, ancoragens, embarcações ou a transposição a pé. Caminhos alternativos por trilhas ou estradas vicinais são mapeados para contornar bloqueios e, em casos de extrema gravidade com acessos inviabilizados, o protocolo autoriza o apoio aéreo estadual por meio do CBMRS e da BMAviação para a extração de vítimas.
Nas rodovias e perímetros urbanos, o comportamento de condutores diante de inundações representa uma preocupação constante devido ao potencial de acidentes fatais. A orientação padrão do Capitão Gustavo Kist é direta: “Nunca atravessar vias com lâmina d’água ou correnteza”. O comandante desmistifica a falsa sensação de segurança em veículos grandes e adverte sobre as forças hidrodinâmicas: “Lembrar que 30 a 40 centímetros de água já podem arrastar veículos”. Diante de pontos críticos, a instrução correta é recuar, buscar rotas alternativas, seguir as sinalizações e informar imediatamente os Bombeiros ou a Defesa Civil.

Prevenção como melhor caminho
Para antecipar-se às crises, o CBMRS adota uma postura proativa com um gatilho técnico bem definido: a previsão de volumes de chuva iguais ou superiores a 100 milímetros em um período de 24 horas. Diante desse indicador, ativa-se o estado de atenção ou alerta operacional. As guarnições entram em regime de sobreaviso com o efetivo de folga mobilizado, enquanto viaturas e equipamentos são pré-posicionados em pontos estratégicos. O comando regional também possui a prerrogativa de antecipar o envio de reforços antes do agravamento das ocorrências.
A queda de árvores e o bloqueio de vias também seguem normas rígidas de segurança. O comandante explica que o protocolo prevê uma avaliação técnica do risco imediato e o isolamento da área com o apoio da Brigada Militar. O corte emergencial por parte das guarnições é restrito aos cenários de risco iminente à vida, sendo a interdição e a liberação formal da via uma competência da Defesa Civil ou do órgão municipal. Para dar suporte a essas ações, a rede regional do CBMRS atua de forma centralizada no despacho de viaturas especializadas em salvamento aquático ou em altura, evitando a duplicidade de esforços e otimizando o atendimento.
A segurança dos resgatistas é garantida por Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) de alta performance, como capacetes, roupas impermeáveis, botas antiderrapantes, luvas e coletes salva-vidas específicos para salvamento em rios. Toda a rouparia e as ferragens certificadas passam por renovação periódica conforme o planejamento estadual. Contudo, a geografia da Serra Gaúcha impõe severas barreiras físicas ao trabalho das equipes. O Capitão Gustavo Kist aponta que as características da região representam o principal obstáculo enfrentado no cotidiano. “O maior desafio é a combinação de terreno íngreme, solos instáveis, acessos limitados e clima severo”, descreve. De acordo com o oficial, essa severidade geográfica dificulta o acesso rápido às vítimas, exige alto grau de segurança para o bombeiro e aumenta o tempo de resposta em áreas rurais e isoladas.
Em situações de risco, a orientação oficial e permanente do Corpo de Bombeiros à comunidade é acionar imediatamente o telefone de emergência 193 e seguir rigorosamente as instruções da Defesa Civil municipal.