Terça-feira, 30 de Junho de 2026

ÚLTIMA HORA

Os suicídios da angústia

“Não era o centésimo quadragésimo décimo dia de quarentena, porque não sei exatamente como ela estava contabilizando, ou se estava. O apartamento parecia solitário, ora tão afastado no fim de um corredor escuro, ora uma jaula iluminada de vidro fino. De frente para a rua, o andar baixo não era suficiente e sucumbia à balburdia no fim da tarde de um dia quente, no condomínio tipicamente bairrista, do qual normalmente ela não se sentia em casa.


Camuflada na janela, ela só esperava poder espiar sem pretensão, a rua pouco movimentada. Mas precisava esperar escurecer mais. Por um lado, ainda bem que o verão ainda não chegara, assim, logo as crianças entrariam. Por outro, as mãos sempre geladas a deixavam irritada, mas o suposto motivo dava poder a ela. O vinho barato descia como água, algumas lágrimas tentavam rolar para abster a angústia naquele peito, mas estava seco.


Era um misto de frustração, decepção, motivação. Sim, ela ficava extremamente motivada nesses momentos. O inesquecível Magayver faria uma bela obra com esse coquetel de sentimentos. Mas ela não era o Magayver. E como era difícil aceitar isso. Apesar de tudo, tentou, entre algumas tragadas (várias, oh Deus), rabiscar o que ela queria que se materializasse como o propósito da sua vida. Por vezes o cérebro lhe pregava peças, apagando sua memória declarativa. Entre uma ida à janela e um croqui, as palavras se perdiam naqueles poucos metros quadrados. Ela achava que deveria fumar menos. Dane-se.


Era muito criativa quando estava brava e decepcionada. Ela era forte, não queria ter sentimentos ruins, muito menos ter suas boas ideias bem nesses momentos (!), mas algumas pessoas conseguiam penetrar a rija esponja, sorrateiramente. Ela sabe que está lidando com um corte preciso de Fugu. Ela sabe também que nunca terá nada em troca e que, se a lâmina estremecer, ela perde seu avental, sua alma. Quem nunca cuspiu no prato que comeu e elevou seu copo para mostrar que estava ‘cheio de mim’?
Aquela história de que seria bem melhor ser ignorante para algumas coisas…ah, ela gosta muito. Preferia não ter consciência de que o ápice do seu estado alcoólico bucólico criativo estava prestes a chegar ao fim, e que era dia de semana. Teria poucas horas para se recuperar e voltar do mundo paralelo. Ela queria mesmo era ficar lá, onde tudo tem cheiro fresco de esperança.


Queria também, que esse mundo paralelo tivesse paredes acústicas. Ela até tenta estudar Freud, quando volta do trabalho, antes da aula. Mas o cachorro late, o gato mia, o pintinho pia.


Nessas noites, sente angústia, vontade de arremessar coisas, gritar. Mas logo se dá conta que não resolveria. Ela se perdeu nos dias porque não sabia o que estava contabilizando. Tanto que, essas palavras que da sua ‘boca’ saíram, ilustram repetidas noites, que salvaram sua vida e mataram sua angústia, mas que ela sonha, um dia, que desapareçam.”

Uma resposta

  1. Ela não sabia que dia era da quarentena e nem sabia se de fato ainda era. Ela sempre brincou dizendo que mora em um mundo e trabalha em outro, sendo assim as contas sempre se perdem em relação a momentos e tempo.

    O apartamento nem sempre parece solitário, porque além de um sofá aconchegante e uma tv disponível pra incontáveis maratonas de séries, a porta fica em frente a escadaria do corredor, e vocês já podem imaginar o barulho de gente entrando e saindo.

    O andar não muito alto, contempla uma incrível vista de final de tarde, a qual ela tem verdadeira paixão. Em um condomínio bairrista, antigamente ela não se sentia em casa, de uns anos pra cá isso mudou e virou o mundo dela.

    Camuflada na sacada, deitada em sua rede, contemplando a linda vista, acompanhada de um chimarrão, observando a rua movimentada, esperava seu pôr do sol. Sim, ela sempre achou que ele pertence a ela. Sem vinho, sem espumante, somente o desejo de um dia poder aprender a ter essa companhia alcoólica barata sem precisar dividir com alguém.

    Um misto de inúmeros sentimentos, e alguns deles de difícil aceitação. Apesar de tudo, entre algumas trocas ecléticas de trilhas sonoras e outros tantos desesperos, ela também queria que ali, se materializasse o propósito de sua vida. Incontáveis vezes o cérebro pregou peças, enganou a mente, mas nunca o coração. Entre idas a cozinha e a sala, perdida entre paredes, sabia que ali, de certa forma morava a felicidade.

    Muito criativa quando estava triste e decepcionada. Culpando-se por alguns sentimentos ruins, mas sabia que precisava lidar com eles. Quem nunca cuspiu no prato que comeu e elevou seu copo em meio a uma balada da vida para mostrar que estava cheio de si? Que atire a primeira pedra! Realmente seria melhor não entender sobre certas coisas, ou não saber… mas era hora de voltar ao mundo real.

    Ela até tenta estudar política, exportações e estratégias diariamente, mas o cachorro late e na vizinhança muitos deles também.

    Nesses dias, sente angústia, vontade de jogar tudo pro alto e sair gritando. Mas logo se dá conta que não resolveria. Ela perdeu-se nos dias, inclusive porque não estava contanto eles. Foi então que deu-se por conta, de que no final da rua dela, olhando também pela janela, existia um outro coração batendo, alguém que completava seu mundo, alguém que entendia ela, alguém que já está em sua vida a incontáveis anos, alguém que com todo calor do coração pode chamar de amiga!

    p.s: perdão pelo atraso de um dia, mas librianas às vezes são assim!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ANUNCIE CONOSCO

Sua marca em destaque para milhares de leitores