Os 20 anos da Lei Maria da Penha, completados em 2026, marcam um dos principais temas do Agosto Lilás, campanha nacional voltada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Em Bento Gonçalves, a mobilização reúne Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), Brigada Militar, Ministério Público, Centro de Referência da Mulher que Vivencia Violência (Revivi), Coordenadoria da Mulher e outras instituições da Rede de Proteção.
Mais do que incentivar as denúncias, a campanha busca ampliar o conhecimento da população sobre os mecanismos de proteção existentes e fortalecer o apoio às mulheres que enfrentam situações de violência.
De acordo com a delegada da DEAM, Deise Salton Brancher, a dificuldade em denunciar faz parte do próprio ciclo da violência doméstica e está ligada a diversos fatores. “A mulher enfrenta questões econômicas, sociais, dependência emocional e financeira, medo do agressor e preocupação com os filhos. Além disso, muitas sentem vergonha ou sofrem pressão de familiares para retomar o relacionamento”, explica.
Segundo a delegada, a situação é agravada pelo fato de que muitos agressores mantêm uma imagem positiva perante a sociedade. “Normalmente, ele é uma pessoa funcional para a sociedade, mas agride a figura feminina. Muitas vezes a mulher acaba sendo questionada por denunciar alguém que, aparentemente, é visto como um bom cidadão”, observa.
Rede de apoio busca fortalecer autonomia
Para ajudar as vítimas a romperem esse ciclo, o município conta com o Centro Revivi, que oferece acolhimento e acompanhamento especializado. Conforme a coordenadora do serviço, Patrícia da Rold, as mulheres podem procurar atendimento de forma espontânea, sem necessidade de agendamento prévio. “O primeiro atendimento é realizado por livre demanda, das 8h às 17h, sem fechar ao meio-dia. Sabemos que o medo, a vergonha e a falta de fortalecimento pessoal muitas vezes dificultam a busca por ajuda”, afirma.
No acolhimento inicial, são identificadas as necessidades de cada mulher. A partir disso, ela pode ser encaminhada para atendimento psicológico, acompanhamento social e outros serviços disponíveis na rede.
A delegada ressalta que a assistência vai além do registro policial. “No Revivi, a mulher recebe apoio emocional, mas também consegue auxílio para reorganizar a vida, buscar emprego e encaminhamentos relacionados aos filhos. Quando ela encontra suporte para suas necessidades integrais, tem mais condições de seguir adiante após a denúncia”, ressalta.
Violência psicológica lidera atendimentos
Dados do Centro Revivi mostram que a violência psicológica é a forma mais relatada pelas mulheres atendidas, seguida pela violência física.
Patrícia chama atenção para a gravidade desse tipo de agressão, muitas vezes minimizada pela sociedade. “A violência psicológica possui previsão legal e punição específica devido à sua relevância. Ela pode causar danos emocionais imensuráveis e, por isso, precisa ser reconhecida e combatida com a mesma seriedade”, enfatiza.
Em 2025, o Centro Revivi realizou 1.977 atendimentos. Em 2026 já são 944 atendimentos. No entanto, assim como em 2025, o número total não é o de mulheres, porque há repetição de atendidas.
Para a coordenadora, os números demonstram que mais mulheres estão conhecendo os serviços disponíveis e procurando apoio.
Trabalho integrado apresenta resultados
A atuação conjunta entre os diferentes órgãos é apontada como um dos principais fatores para o fortalecimento da rede de proteção no município. “Sempre que falamos de grupos vulneráveis, o atendimento precisa ser integrado. Não adianta apenas registrar a ocorrência se a mulher não receber suporte depois. Da mesma forma, oferecer oportunidades sem afastar o risco também não resolve o problema”, afirma Deise.
A delegada avalia que a conscientização promovida pela rede tem contribuído para que mais mulheres procurem ajuda e conheçam seus direitos. “Quando o número de ocorrências permanece elevado, isso também significa que as mulheres estão saindo da invisibilidade e buscando o amparo do Estado. Elas estão tomando conhecimento das ferramentas de proteção existentes”, afirma.
Outro dado considerado positivo é a ausência de registros de feminicídio em Bento Gonçalves até o momento neste ano.
A programação municipal do Agosto Lilás começou com o I Seminário de Boas Práticas no Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, voltado à capacitação dos profissionais que atuam diretamente no atendimento às vítimas. Na Via del Vino, no dia de ontem, 14, também ocorreu a sexta edição da Caravana da Mulher, que percorre bairros do município levando orientações, material informativo e atendimentos.
Também estão previstas palestras em empresas, escolas e entidades por meio do projeto “Informação é Prevenção”.
Para os profissionais envolvidos na campanha, a informação continua sendo uma das principais ferramentas para combater a violência e ampliar o acesso das mulheres à rede de proteção. “A mulher precisa saber que não está sozinha e que existem serviços preparados para acolhê-la e ajudá-la a reconstruir sua vida”, conclui Patrícia.




