Segunda-feira, 07 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

A hora de pagar a luz: entre o prato de comida e a tomada

A tarifa de energia, não a conta de luz que envolvem outros fatores, subiu 97% no RS nos últimos dez anos. Ou seja, bem mais do que o salário mínimo, que teve o reajuste de 84,21% no mesmo período

A conta de luz do gaúcho virou um teste de sobrevivência financeira. Nos últimos dez anos, marcados por privatizações, fusões corporativas e crises climáticas, o preço da energia elétrica no Rio Grande do Sul disparou a ponto de engolir fatias cada vez maiores da renda familiar. Desde novembro de 2016, quando o Grupo Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) comprou a antiga AES (The AES Corporation) Sul por R$ 1,7 bilhão, dando início a um processo que unificou as concessões sob a bandeira da RGE, a tarifa residencial quase dobrou. Enquanto o valor do quilowatt-hora (kWh) saltou cerca de 97% entre 2016 e 2026, o salário mínimo avançou 84,21% no mesmo período.

A conta não fecha

No tabuleiro do setor elétrico, a corda sempre estoura no lado mais fraco: o consumidor. Enquanto ações civis públicas, promessas de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e notificações do Procon tramitam lentamente em gabinetes, o trabalhador comum não tem tempo para esperar pela burocracia. Resta-lhe o desespero diário de cortar a carne, o leite e o lazer para garantir o pagamento de uma fatura que, se atrasar, resulta em corte de energia.

Na fila do pagamento

Nas calçadas e comércios de Bento Gonçalves, o sentimento da comunidade varia entre a indignação profunda e a total exaustão. Sem alternativas de concorrência, os moradores se desdobram em malabarismos financeiros para quitar a chamada “continha de luz”.

A costureira Mariana Cervo, 44 anos, moradora do bairro Juventude, diz que é uma humilhação ver o salário sumir antes de chegar na metade do mês. “Eu saio de casa às seis da manhã para costurar o dia inteiro e, quando chega a conta da RGE, dá vontade de chorar. Subiu tudo nesses últimos anos, mas a luz passou dos limites. O Procon diz que vai fiscalizar, político promete agir em vídeos nas Redes Sociais, mas na prática ninguém resolve nada. Se eu não pagar, eles cortam e pronto. A gente fica de mãos atadas, trabalhando só para sustentar essa concessionária”, salienta.

O marceneiro Ricardo Meneghetti, 52 anos, do bairro Humaitá, cobra a eficiência que o Governo Estado anunciava com a venda da concessionária no passado. “Lembro perfeitamente de quando venderam a AES Sul em 2016. A conversa era de que a gestão privada traria eficiência. Cadê? O que veio foi um reajuste atrás do outro. Tivemos a crise do clima, as enchentes de 2024 que destruíram o estado, e quem paga a conta da reconstrução? Nós. Em 2025 e agora em 2026 a facada veio ainda maior. O cidadão de bem se desdobra, faz bico, deixa de comprar o básico no mercado para não ficar no escuro”, questiona.

A comerciante Aline Quadros, 31 anos, do bairro Licorsul, frisa que o ‘consumidor sempre paga o pato’. “A luz virou o maior custo fixo do meu comércio e da minha casa. Não adianta inventar bandeira tarifária ou desculpa de crise hídrica, o preço nunca mais cai, só sobe. É um absurdo a tarifa subir enquanto o salário mínimo não acompanha. O trabalhador não aguenta mais carregar o estado e essas empresas nas costas. Enquanto os grandes discutem processos judiciais que não dão em nada, eu preciso escolher qual conta vou atrasar para conseguir pagar a luz em dia”, aponta.

Quem define?

Os reajustes anuais da tarifa de energia da Rio Grande Energia (RGE) não são definidos livremente pela empresa, mas sim homologados anualmente pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O histórico recente de aumentos médios para consumidores residenciais engloba repasses de custos de geração, transmissão e encargos setoriais (como a Conta de Desenvolvimento Energético – CDE).

Privatização

Quando a RGE nasceu na privatização da CEEE em 1997, no Governo Antônio Britto (MDB), ela não pertencia a uma única empresa. A concessão foi arrematada por um consórcio de sócios, dividido em duas fatias principais: o grupo brasileiro CPFL (que detinha a fatia majoritária de 67,07% das ações) e o grupo norte-americano Public Service Enterprise Group (PSEG), que possuía os 32,67% restantes.

Em 10 de maio de 2006, no Governo Germano Rigotto (MDB), a CPFL Energia fechou um acordo comercial definitivo e comprou a totalidade das ações da PSEG no Brasil por US$ 185 milhões. Com essa transação, os 32,67% dos americanos foram transferidos para a companhia brasileira. A CPFL atingiu o patamar de 99,76% do controle acionário direto da RGE.

A compra da AES Sul

Em junho de 2016, no Governo José Sartori (MDB), a CPFL expandiu as operações no Estado ao comprar a distribuidora AES Sul por R$ 1,7 bilhão (além de assumir R$ 1,1 bilhão em dívidas). Em outubro do mesmo ano, a AES Sul passou a se chamar oficialmente RGE Sul.

A entrada da State Grid

Em janeiro de 2017, no Governo José Sartori (MDB), a gigante estatal chinesa State Grid concluiu a compra de 54,64% da CPFL Energia por R$ 14,19 bilhões, tornando-se a controladora indireta da RGE. Em 2018, ainda no Governo Sartori, a Aneel aprovou a unificação operacional das distribuidoras. A antiga RGE foi incorporada juridicamente à RGE Sul, unificando os mercados. O nome fantasia oficial foi simplificado apenas para RGE, com sede em São Leopoldo.

Em dezembro de 2025, no Governo Eduardo Leite, o grupo decidiu extinguir formalmente a marca isolada “RGE”. A distribuidora gaúcha passou por novo processo e passou a se chamar oficialmente CPFL RGE.

O impacto na conta

O que aconteceu com a tarifa desde então é uma história que pode ser contada também pela comparação com o salário mínimo. Em 2016, a tarifa residencial B1 da então RGE Sul era de aproximadamente R$ 0,47882 por quilowatt-hora. Naquele ano, o salário mínimo era de R$ 880,00.

Dez anos depois, em 2026, a tarifa residencial chegou a aproximadamente R$ 0,945 por kWh, enquanto o salário mínimo nacional passou para R$ 1.621,00. O resultado é uma diferença significativa: a tarifa de energia acumulou alta próxima de 97% no período, contra cerca de 84% de aumento do salário mínimo. Em outras palavras, o preço de cada quilowatt-hora avançou mais rapidamente do que a remuneração mínima oficial do trabalhador.

A comparação deixa uma conclusão objetiva: embora o salário mínimo tenha crescido nominalmente ao longo da década, o preço homologado da energia residencial avançou em ritmo superior.

Alta expressiva

Em junho deste ano, a Aneel aprovou reajuste de 14,97% para os consumidores residenciais B1 da RGE. O efeito médio para os consumidores foi de 16,06%. Na baixa tensão, a alta média foi de 14,93%; na alta tensão, chegou a 19,02%. A trajetória mostra que a conta de luz é resultado de uma combinação de fatores, custos de compra de energia, transmissão, encargos setoriais, componentes financeiros, inflação, condições hidrológicas e decisões regulatórias. O resultado final é mais simples: em dez anos, o quilowatt-hora residencial da área da RGE ficou quase duas vezes mais caro, enquanto o salário mínimo cresceu em ritmo menor.

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