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Cicloturismo avança em Bento, mas enfrenta desafios de infraestrutura e segurança

Entre vinhedos, estradas do interior, empreendimentos familiares e paisagens que preservam parte da história da imigração italiana, Bento Gonçalves vem consolidando o cicloturismo como uma alternativa para conhecer a região de uma maneira diferente.

Entre os principais pontos utilizados por quem pedala estão o Vale dos Vinhedos e os Caminhos de Pedra. A avaliação é compartilhada por profissionais e visitantes. José Augusto Rodrigues da Silva, de 79 anos, que acumula 49 anos de experiência sobre duas rodas, percorreu diferentes roteiros de Bento ao lado de sua mulher Cristiana Brodt Bersano e aponta os dois destinos como experiências marcantes. “Primeiro o roteiro no Caminhos de Pedra; ele é imperdível para poder ter uma visão geral da cultura da região, com múltiplas paradas onde pode-se absorver as atrações de culinária e de arte local”, relata. Para ele, o trajeto também permite compreender parte do processo de instalação dos imigrantes e o desenvolvimento alcançado pelas comunidades.

As visitas às vinícolas também estão entre as experiências que mais chamaram a atenção do casal. Segundo José Augusto, os passeios permitem acompanhar explicações sobre o cultivo das uvas e a produção de diferentes tipos de vinho. “Essas visitas de bicicleta têm a vantagem de não estarem (ainda) sujeitas à fiscalização de dosagem alcoólica em ciclistas”, enfatiza.

Para tornar os trajetos mais produtivos e seguros, ele ressalta a importância do acompanhamento profissional. Em Bento, o casal conta com a orientação de Luciano Pacheco, do Vinhedos Cicloturismo. Para José Augusto, a presença de um guia local contribui para aproveitar melhor o percurso e conhecer detalhes que poderiam passar despercebidos. Ele acrescenta que não teve qualquer sensação de risco durante os trajetos realizados. “Atualmente os motoristas de carros estão mais conscientes da necessidade de cuidados e atenção ao encontrarem ciclistas”, conclui.

Cristiana Brodt Bersano e José Augusto Rodrigues da Silva

Entre o potencial turístico e a falta de estrutura

Para o guia Luciano Pacheco, Bento Gonçalves ainda está no início do desenvolvimento de uma estrutura capaz de transformar o município em referência regional no cicloturismo. Ele diferencia as rotas de cicloturismo de infraestrutura cicloviária: enquanto as primeiras podem ser estruturadas principalmente por meio de sinalização indicativa, inclusive em áreas rurais, a segunda envolve espaços específicos para garantir a circulação dos ciclistas, como ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. As rotas de cicloturismo podem ter estrutura cicloviária.

A ciclovia do Vale dos Vinhedos é considerada importante pela localização, embora Pacheco avalie que sua extensão ainda seja pequena diante do potencial da região. Outro ponto destacado por ele é a estrada entre São Valentim e Tuiuty, na Buarque de Macedo, que recebeu sinalização horizontal e vertical indicando o compartilhamento da via entre veículos e bicicletas.

Segundo Pacheco, a sinalização tem um papel importante na conscientização dos motoristas. Ao informar que a bicicleta também faz parte da circulação naquele espaço, a sinalização ajuda a reforçar a necessidade de atenção e respeito aos ciclistas.

Já a ciclovia da Avenida Planalto é apontada como um exemplo de dificuldade de utilização. Conforme o profissional, o espaço teve redução significativa e atualmente enfrenta problemas tanto durante a semana, quando há veículos estacionados, quanto em domingos e feriados, quando é bastante utilizada por pedestres.
Para quem utiliza a bicicleta diariamente como meio de transporte, o cenário é ainda mais desafiador. Pacheco afirma que o principal obstáculo é conseguir realizar os deslocamentos urbanos preservando a integridade física diante das imprudências no trânsito. “Utilizar uma bicicleta, mesmo no nosso relevo, é barato, prático e saudável, difícil e perigoso é conviver com motoristas ignorantes”, reforça.

Segundo ele, quando os municípios da região deixarem de pensar no cicloturismo municipalizado e trabalharem pela unificação do cicloturismo regional, haverá um próspero recurso turístico, a exemplo do conhecido Circuito do Vale Europeu em Santa Catarina, percurso autoguiado, com cerca de 300km, estimado para sete dias, passando por nove municípios. “Temos na Serra Gaúcha dois roteiros intermunicipais para cicloturismo, o Caminhos de Caravaggio e a Rota Romântica, mas, na minha opinião, ainda deixam muito a desejar em aspectos de orientação autoguiada”, avalia.

Para ele, o roteiro Caminhos de Pedra precisa de uma atenção especial e urgente na adequação da estrada. Além disso, tem expectativa que o município de Bento atenda a Lei de Mobilidade Urbana (Lei Federal nº 12.587/2012), que traz a obrigação por meio do Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob), apresentar um planejamento e execução de estrutura cicloviaria em perímetro urbano. “Com uma abrangência intermunicipal, com ampliação da ciclovia do Vale dos Vinhedos e a possibilidade de ligação de todas as rotas de cicloturismo municipalizadas”, pondera.

Roteiro guiado por Luciano Pacheco

Novos roteiros ampliam possibilidades

Além dos tradicionais Caminhos de Pedra e Vale dos Vinhedos, novas áreas começam a despertar interesse. Entre elas está o roteiro Vera Vista, que, na avaliação de Pacheco, reúne Tuiuty, Faria Lemos e Eulália em um contexto com forte potencial turístico e esportivo.

A região possui paisagens, restaurantes, vinícolas e pousadas, mas ainda apresenta grandes distâncias entre os atrativos. Para o profissional, o desenvolvimento de pequenos empreendimentos familiares poderia ampliar as possibilidades de permanência dos visitantes e fortalecer a experiência de quem percorre o roteiro.

Outra área com demanda crescente é o roteiro Altos de Pinto Bandeira, próximo aos Caminhos de Pedra. Segundo Pacheco, a expansão de vinícolas e pousadas demonstra o potencial do território, mas também há espaço para novos serviços e atrativos ao longo dos percursos.

A definição do melhor roteiro é relativa. Pacheco ressalta que a escolha depende das condições físicas e da experiência de cada ciclista. Por isso, fatores como relevo, distância, nível de dificuldade, prática esportiva e preparação física precisam ser considerados antes da realização de um passeio.

Sinalização e manutenção

O poder público também aponta ações para fortalecer o segmento. Segundo o secretário municipal de Turismo, Henrique Nuncio, Bento Gonçalves trabalha na consolidação do cicloturismo por meio de infraestrutura, promoção e organização dos roteiros.

Entre as iniciativas estão o apoio a eventos e provas esportivas, o desenvolvimento de novos roteiros em parceria com entidades, empreendedores e municípios vizinhos e a implantação de estruturas de apoio, como pontos de hidratação.

Atualmente, o município conta com a ciclovia do bairro São Bento, a ciclovia do Vale dos Vinhedos, a ciclorrota de São Valentim, no distrito de Tuiuty, além da participação na Rota dos Capitéis.

Nuncio afirma ainda que a manutenção das rotas envolve sinalização turística específica e conservação das estradas municipais utilizadas pelos ciclistas, incluindo serviços de patrolamento, pavimentação, drenagem e manutenção.

A Prefeitura também afirma que existem investimentos contínuos para qualificar a infraestrutura, ampliar a sinalização, melhorar as estradas e estruturar pontos de apoio.

O desafio, segundo o secretário, está em acompanhar o crescimento da atividade sem deixar de lado a segurança. A extensa malha de estradas rurais exige manutenção constante, especialmente diante dos períodos de chuvas intensas. Além disso, muitos trajetos passam por vias de diferentes responsabilidades administrativas, exigindo articulação entre município, Estado, União, empreendedores e entidades do setor.

Diversificação de experiências na Serra Gaúcha

A relação entre bicicleta e turismo também é explorada pela iniciativa privada. O projeto Que Tal de Bike?, da Rede Dall’Onder, surgiu a partir da percepção de que Bento Gonçalves poderia ser vivenciada de maneira mais próxima, ativa e integrada à natureza.

Cicloturismo no Vale dos Vinhedos

Lançado em novembro de 2014, o projeto nasceu de uma parceria com a empresa Caminhos do Sertão, que já realizava viagens de cicloturismo pela região. A iniciativa transformou os passeios em um produto turístico permanente e levou o Dall’Onder Grande Hotel a ser reconhecido como o primeiro “Hotel Bike do Brasil”.
De acordo com Francisca Chiamenti, supervisora do projeto, a proposta foi criada para renovar a oferta turística e apresentar a cultura, as paisagens e a gastronomia regional por meio da bicicleta.

Os primeiros roteiros incluíram Caminhos de Pedra, Vale dos Vinhedos, Estrada do Sabor e Vale do Rio das Antas, com percursos de diferentes distâncias e níveis de dificuldade. A estrutura também envolve guia especializado, apoio técnico, bicicletas, carro de apoio e transporte dos equipamentos até os pontos de partida. “Os percursos variam de aproximadamente 10 a 34 quilômetros e duração entre quatro e oito horas”, indica.

A possibilidade de adaptar os trajetos permite atender desde iniciantes até ciclistas experientes. Casais, famílias, grupos de amigos, hóspedes individuais e grupos corporativos estão entre os públicos atendidos. “Em comum, esses participantes procuram uma forma ativa e mais próxima de conhecer o destino”, explica Francisca. Segundo ela, são turistas interessados não apenas no exercício físico, mas também em paisagens naturais, cultura, gastronomia, qualidade de vida e experiências personalizadas.

Atividade movimenta comunidades do interior

Segundo a supervisora, o cicloturismo também contribui para distribuir o fluxo de visitantes para além dos principais pontos turísticos. Ao passar por propriedades rurais, pequenos produtores, cafés, vinícolas e espaços culturais, os roteiros aproximam o visitante de diferentes comunidades.

Para Francisca, essa característica fortalece a integração regional. Os trajetos do projeto já passaram por Bento Gonçalves, Garibaldi, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e outras áreas da Serra Gaúcha.

A atividade, portanto, não se limita ao deslocamento de bicicleta. O percurso transforma-se em parte da experiência turística, permitindo que o visitante consuma produtos e serviços locais e conheça diferentes aspectos da identidade regional. “A experiência também pode ser contratada por pessoas que não estejam hospedadas nos hotéis da rede Dall’Onder”, finaliza.

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