Cresce nas redes sociais a defesa de receitas caseiras como alternativa à proteção solar tradicional
Em entrevista, o dermatologista Rafael Borba de Melo, do Hospital Beneficente São Pedro, afirma que a substituição dos filtros solares tradicionais por alternativas caseiras representa um risco concreto à saúde pública e pode resultar em aumento expressivo de doenças cutâneas nas próximas décadas.
Segundo o médico, a popularização dessas práticas está diretamente ligada à disseminação de desinformação em ambientes digitais, frequentemente associada ao mercado de produtos naturais e ao universo do bem-estar. “O movimento contra os protetores solares tem ganhado força a partir de discursos falsos, sem embasamento científico. No futuro, isso tende a se traduzir no surgimento de ainda mais casos de câncer de pele, muitos deles totalmente preveníveis”, afirma.
A ciência por trás dos filtros solares
O dermatologista enfatiza que não há evidências científicas robustas que apontem malefícios decorrentes do uso de protetor solar. Pelo contrário, trata-se de um dos produtos cosméticos mais estudados e regulamentados disponíveis no mercado. “Todos os filtros passam por testes rigorosos de controle de qualidade e segurança antes de chegar ao consumidor. Exceto casos específicos de alergia a algum componente, o uso deve ser sempre estimulado”, explica.
Para serem comercializados, esses produtos precisam cumprir exigências estritas definidas por órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As normas garantem que os filtros ofereçam segurança comprovada contra os raios ultravioleta e segurança para uso contínuo. Essa padronização de acordo com o especialista, não existe em receitas caseiras ou cosméticos naturais produzidos sem testes laboratoriais. “O protetor solar é desenvolvido para combater a radiação ultravioleta de forma consistente. Já os produtos naturais não passam por ensaios clínicos que comprovem eficácia ou segurança. São realidades completamente diferentes”, pontua.

A falácia do “natural é melhor”
Uma das bases do discurso que questiona o uso de protetores solares é a crença de que os óleos seriam intrinsecamente mais seguros. No meio acadêmico, essa lógica é conhecida como falácia do apelo à natureza. “Existe a convicção popular de que tudo o que é puro é automaticamente saudável. Mas o sol também é ‘natural’ e é um agente comprovadamente cancerígeno”, observa.
Embora alguns derivados vegetais possuam propriedades antioxidantes, não há evidência científica que sustente o uso isolado desses produtos como forma de defesa. “Não existe consenso na literatura médica que apoie o uso de cosméticos ou suplementos naturais para substituir ou complementar a proteção solar”, afirma.
Ele explica que os óleos vegetais apresentam grande variação em sua composição e não são fabricados com o mesmo rigor técnico aplicado aos cosméticos tradicionais. Essa ausência de padronização pode resultar em riscos imediatos. “Os principais problemas associados ao uso desses produtos são queimaduras solares e reações locais. Alguns óleos reagem com a pele quando expostos ao sol, provocando uma queimadura química chamada fitofotodermatite”, alerta.
Desinformação e impactos no consultório
Segundo o dermatologista, tornou-se comum receber pacientes que questionam a eficácia dos protetores solares ou relatam abandono do uso após contato com conteúdos online. “Hoje, uma das maiores dificuldades no consultório é disputar credibilidade com discursos falsos que se repetem até se tornarem verdades absolutas para a população leiga”, relata.
Ele sublinha que a facilidade de acesso ao conhecimento não garante qualidade ou confiabilidade. “As pessoas acabam expostas a conteúdos sem base científica e, muitas vezes, não têm ferramentas para avaliar a veracidade dessas informações”, afirma.
Esse cenário, segundo o especialista, é preocupante porque as consequências da exposição solar desprotegida são cumulativas e podem demorar anos para se manifestar.
Vitamina D e mitos recorrentes
Outro argumento frequentemente utilizado por defensores do contato com o sol sem proteção é a necessidade de produzir vitamina D. O dermatologista esclarece que essa relação é frequentemente mal interpretada. “Nenhum protetor solar é capaz de bloquear totalmente a radiação que chega à pele. Por isso, os níveis de vitamina D não são alterados pelo uso regular”, afirma.
Ele acrescenta que tomar banho de sol não deve ser utilizada como tratamento para deficiência da vitamina. “A suplementação via oral é a forma preferida e segura para tratar esse problema”, diz.
O aumento dos casos de câncer de pele ao longo dos anos não está relacionado ao uso de protetor solar, mas principalmente a ampliação da expectativa de vida da população. “Quanto mais tempo vivemos, maior é a exposição acumulada à radiação ultravioleta”, explica.
Entre os principais riscos da exposição solar desprotegida estão o envelhecimento precoce, manchas, lesões pré-malignas e os tipos mais comuns de câncer de pele. “A radiação ultravioleta está diretamente ligada ao surgimento dessas doenças, seja pela exposição contínua ou intermitente”, afirma.
Ele ressalta que os diagnósticos têm ocorrido cada vez mais cedo, o que reforça a necessidade de conscientização. “Estamos observando casos graves surgindo em pessoas mais jovens, o que é extremamente preocupante”, ressalta.
Além do filtro
A orientação final do especialista é que a defesa solar não deve se limitar ao uso de protetores, mas integrar uma estratégia diária e contínua. “A segurança ideal é uma combinação de medidas: evitar exposição prolongada, permanecer na sombra, usar roupas adequadas, chapéus e, claro, aplicar protetor solar regularmente”, orienta.
Para o dermatologista, a informação baseada em ciência é a principal aliada na prevenção de doenças de pele. “É uma medida simples, acessível e extremamente eficaz. Abandoná-la com base em informações falsas é um risco que não vale a pena correr”, finaliza
O que dizem as normas
De acordo com a Anvisa, os protetores solares são classificados como produtos de grau máximo de proteção, o que significa que precisam comprovar segurança e eficácia antes de serem disponibilizados ao consumidor. A regulamentação exige testes laboratoriais e clínicos que confirmem o fator de proteção solar (FPS), a proteção contra radiação UVA e a estabilidade da fórmula ao longo do uso. Além disso, as embalagens devem trazer orientações claras sobre reaplicação, quantidade adequada e limites de exposição, reforçando que o produto deve ser utilizado como parte de um conjunto de medidas preventivas.
A Agência também orienta que nenhuma formulação caseira ou produto sem registro sanitário pode ser considerado substituto seguro do item. As recomendações incluem reaplicar o produto a cada duas horas ou após contato com água e suor, utilizar quantidade suficiente para cobrir todas as áreas expostas e associar o uso a barreiras físicas, como roupas, chapéus e óculos escuros. Essas diretrizes buscam reduzir os danos cumulativos da radiação ultravioleta e prevenir doenças relacionadas à exposição solar prolongada.