Dia festivo da 148ª edição reforça a devoção ao padroeiro, mobiliza voluntários, reúne famílias e projeta a caminhada rumo aos 150 anos da mais antiga festa religiosa da imigração italiana no Rio Grande do Sul
A fé que atravessou os oceanos, acompanhou gerações e ajudou a construir a identidade de Bento Gonçalves voltou a reunir milhares de pessoas no dia 13 de junho. A 148ª Festa de Santo Antônio transformou o Santuário e as ruas centrais da cidade em um grande espaço de oração, convivência e gratidão, reafirmando o papel do padroeiro na história do município.

Ao longo do dia festivo, mais de 10 mil pessoas participaram das celebrações religiosas, da distribuição dos tradicionais pãezinhos abençoados, do almoço comunitário, das bênçãos especiais, da procissão e dos diversos momentos preparados para marcar a data. O movimento intenso começou ainda antes do amanhecer e seguiu até o encerramento da programação.
Mais do que um evento religioso, a Festa do padroeiro representa um patrimônio cultural e espiritual herdado dos imigrantes italianos que chegaram à região em 1875. A devoção ao santo acompanha a história da cidade praticamente desde sua fundação e continua mobilizando moradores e visitantes vindos de diferentes localidades.
Neste ano, a celebração teve como lema “Na Casa de Santo Antônio somos todos irmãos”, inspirado pela Campanha da Fraternidade. A proposta esteve presente em toda a programação e foi traduzida em gestos concretos de acolhimento, solidariedade e participação comunitária.
Uma celebração construída durante todo o ano
Embora o ponto alto aconteça em 13 de junho, a preparação para a Festa de Santo Antônio mobiliza centenas de pessoas ao longo de vários meses. Procissão luminosa, visitas missionárias, encontros de formação, ações solidárias, trezena e eventos sociais integram uma caminhada que se estende durante praticamente todo o ano.
Por trás da estrutura que mobiliza milhares de pessoas está uma ampla rede de trabalho voluntário. A organização da 148ª edição contou com a dedicação dos casais festeiros, festeiros jovens, equipes pastorais, movimentos da paróquia, colaboradores e apoiadores que, ao longo de meses, contribuíram para a realização das atividades religiosas e sociais. O envolvimento comunitário é uma das marcas históricas da festa e ajuda a explicar sua permanência ao longo de quase um século e meio.
O pároco do Santuário Santo Antônio, padre Volmir Comparin, destaca que a festa é resultado do trabalho coletivo de inúmeras equipes e voluntários. “Estamos aqui para servir, estamos aqui para ajudar, estamos aqui para que cada fiel que está vindo venha com segurança, com esperança”, afirma.
A dimensão da festa também pode ser medida pelo número de pessoas que se dedicam voluntariamente à sua realização. A equipe da 148ª Festa foi formada pelos festeiros Alexandre Fronza e Jucelaine Pertile Fronza; Antônio e Ieda Maria Garavaglia Geremia; Dorval José Boccalon e Fabiane Nunes Boccalon; Claudiomiro Antônio Fernandes e Neiva Salete Lavandoski; e Mauri Luiz Menin e Roseli Lucietto Menin. Ao lado deles, os festeiros jovens Gabriel Mezaroba e Evelin Taiane Deluca; Guilherme Gregory Danner Bruschi e Vitória Heloisa Afonso; e Pedro Augusto Canei e Juliana Luchese Pletsch também contribuíram na organização das atividades. A caminhada contou ainda com a condução do pároco padre Volmir Comparin, dos padres João Roberto Masiero, Oberdan Cavazzola e Vinicius Fedrizzi Caberlon, das Irmãs Pastorinhas Adriana Cortelini, Vanda Teresinha Bisato e Selma Aparecida Souza, além do apoio de inúmeros voluntários, patrocinadores e colaboradores que ajudaram a transformar mais uma edição da festa em realidade.

Segundo o pároco Volmir, o lema escolhido para 2026 ajudou a fortalecer ainda mais o sentimento de comunidade. “Nós não temos nem mais importantes, nem menos importantes. A riqueza não é o critério principal, nem o poder. Nós queremos que cada pessoa olhe ao lado e descubra as grandezas que a outra pessoa tem”, ressalta.
Ao recordar a caminhada realizada até o dia festivo, o pároco destaca a procissão luminosa realizada com estudantes, as 38 visitas promovidas ao longo do ano, a trezena e as ações solidárias. “Uma tonelada de alimentos foi arrecadada para o Pão dos Pobres. São gestos que mostram o quanto é importante o chamado pão de Santo Antônio. Não é só comida para o corpo, mas também para a alma”, enfatiza.
A fé que chegou com os imigrantes
A Festa está diretamente ligada à própria formação de Bento Gonçalves. A devoção foi trazida pelos imigrantes italianos e permanece viva quase um século e meio depois. Para o reitor do Santuário de Caravaggio, padre Ricardo Fontana, a permanência da devoção a Santo Antônio está diretamente ligada aos valores que ajudaram a formar a identidade regional. “O DNA da nossa região foi constituído sobre três pilares. O trabalho, a família e a fé”, afirma. Segundo ele, a festa representa a continuidade desses valores transmitidos pelos imigrantes e preservados por sucessivas gerações.
Fontana observa que a celebração ajuda a preservar os pilares que moldaram a região. “É a origem da fé, das bases e dos pilares aqui de Bento Gonçalves. Estamos celebrando 150 anos da imigração italiana e 148 anos da festa religiosa mais antiga da nossa região”, afirma.
Para ele, a permanência da devoção demonstra a força da herança cultural deixada pelos pioneiros. “ Os imigrantes trouxeram na bagagem um quadrinho de Santo Antônio ou uma imagem para sua devoção. E, se não trouxeram na bagagem, trouxeram no coração”, destaca.
O sacerdote também relaciona a mensagem da festa aos desafios atuais da sociedade. “Santo Antônio vem como portador da paz e do bem. Precisamos enxergar-nos verdadeiramente como irmãos em um mundo marcado por conflitos e divisões”, acrescenta.

O momento mais emblemático da programação ocorreu durante a Missa Campal das 15h, celebrada em frente ao Santuário Santo Antônio e presidida pelo bispo da Diocese de Caxias do Sul, Dom José Gislon. A celebração reuniu as comunidades da Paróquia Santo Antônio e milhares de fiéis que ocuparam as ruas próximas à igreja. O público também lotou o interior do santuário para acompanhar a cerimônia. Após a celebração, os participantes seguiram em procissão pelas ruas centrais de Bento Gonçalves, conduzindo a imagem do padroeiro entre cantos, preces e manifestações de devoção.
Durante a homilia, Dom José relacionou o lema da 148ª Festa de Santo Antônio com a trajetória histórica da comunidade bento-gonçalvense, destacando a herança deixada pelos imigrantes italianos e a importância da fé na construção da região. “Olhar para a grandeza destes festejos significa olhar desde o início a imigração que chegou e os princípios da fé que reuniram essa comunidade e deram forças também à nossa Região, no sentido de desenvolvimento, onde o senso de comunidade sempre esteve presente, pela força da fé, das famílias, mas também celebrada na comunidade. É sempre um momento de revermos os passos dos antepassados e vermos também todos os benefícios de uma espiritualidade encarnada na vida das famílias”, afirma.
Milhares de bênçãos e pedidos

Uma das tradições mais marcantes do dia festivo é a bênção concedida pelos freis franciscanos. Durante toda a programação, centenas de pessoas passam pelo espaço reservado para agradecer graças alcançadas e apresentar novos pedidos. Entre os religiosos presentes esteve frei Aldir, guardião da Casa Provincial dos Franciscanos, em Porto Alegre. Ele explica que a maioria procura bênçãos relacionadas à saúde e à família. “A pessoa que vem pedir uma bênção não pede somente para ela. Ela pede por uma relação que possui, por sua família, por alguém que ama”, observa.
O frei destaca que muitos relatos recebidos ao longo dos anos falam sobre superação e esperança. “A bênção acaba sendo uma força, uma animação e uma esperança para a vida de cada um”, afirma.
Ao final, ele deixa uma mensagem à comunidade. “Que Deus continue derramando muitas graças e bênçãos pela intercessão de Santo Antônio e que a comunidade continue fortalecida em sua missão”, deseja.
Histórias de quem mantém a devoção viva
Entre os milhares de participantes estavam a aposentada Vânia Rasera e o casal Ângela e Jorge, exemplos de uma devoção transmitida de geração em geração.
Moradora do bairro Botafogo, Vânia conta que a participação nas celebrações acompanha sua família há décadas. “Isso vem dos meus pais e dos meus avós. Eles tinham devoção a Santo Antônio e passaram isso para nós”, relata.
Ela também compartilha uma tradição popular ligada ao santo. “Quando a gente perde alguma coisa, invoca Santo Antônio e ele ajuda a encontrar. Eu faço isso frequentemente”, conta, sorrindo.
Já Ângela associa a devoção à própria história da imigração italiana. “A minha família chegou em Bento Gonçalves em 1875. A fé veio junto com eles”, recorda.
Ao lado do marido Jorge, ela relembra uma graça alcançada recentemente em um momento delicado envolvendo a saúde de um familiar. “Nós pedimos e alcançamos a graça. Só temos que agradecer a Santo Antônio, a Nossa Senhora e à proteção divina”, afirma emocionada.
O significado dos pãezinhos de Santo Antônio
Poucos símbolos são tão tradicionais na festa quanto os pãezinhos abençoados. Neste ano, cerca de 58 mil unidades foram distribuídas aos fiéis durante a programação.
O voluntário José Carlos Fracalossi participa dessa missão há cerca de quatro décadas. “Faz uns 40 anos que trabalhamos voluntariamente na distribuição dos pães. Ver a gratificação das pessoas ao receberem o pãozinho é algo muito especial”, destaca.
Segundo ele, o gesto mantém viva uma tradição ligada à caridade praticada por Santo Antônio. “Hoje não precisamos apenas saciar a fome material. Precisamos alimentar a fé, a religiosidade e a devoção das pessoas”, observa.
Um ano inesquecível
Desde as primeiras horas da manhã, os casais festeiros acompanharam toda a programação, recepcionando participantes e auxiliando na organização.
O festeiro Alexandre Fronza resume o sentimento vivido pelo grupo. “Estamos coroando um ano inteiro de trabalho. Tem sido muito gratificante”, afirma.
Ao observar o movimento constante de pessoas entrando e saindo do santuário, ele destaca a força da devoção. “Desde a primeira missa a igreja está cheia. Isso é muito bonito de ver”, relata. A proximidade do encerramento também desperta um sentimento de nostalgia. “Já bate uma saudade. Ainda não caiu a ficha de que está acabando”, confessa.
A experiência vivida pelo festeiro Antônio Geremia durante a preparação da festa se transformou em um dos testemunhos mais marcantes da edição de 2026. Poucos dias antes do dia festivo, ele sofreu um infarto e precisou ser encaminhado para atendimento médico. Recuperado, ele atribui o desfecho positivo à fé que sempre cultivou em Santo Antônio e à série de circunstâncias que permitiram um atendimento rápido. “Graças a Santo Antônio chegamos a tempo. Tive um pequeno infarto, mas graças a Deus nada assim tão complicado”, afirma.
O episódio ganhou um significado ainda maior para o festeiro por causa do histórico familiar. Segundo ele, parentes de ambos os lados da família enfrentaram problemas cardíacos graves e não tiveram a oportunidade de receber socorro a tempo.
Para Geremia, a ligação com o padroeiro acompanha sua história desde o nascimento. Ele conta que recebeu esse nome após uma promessa feita por seu pai durante um parto considerado de risco para sua mãe. “Ele prometeu que, se eu nascesse e minha mãe não viesse a falecer, o meu nome seria Antônio”, recorda. Hoje, ao concluir a caminhada como festeiro, ele define a experiência como uma das mais significativas de sua vida. “Vai ser um ano histórico, inesquecível”, afirma.
Fé, identidade e pertencimento
A importância da festa também foi ressaltada por lideranças políticas presentes na celebração.
O deputado estadual Guilherme Pasin relembra sua ligação pessoal com o santuário. “Foi aqui que fui batizado, fiz minha primeira comunhão e minha crisma. Este é o lugar onde professo minha fé”, afirma.
Para ele, a celebração vai além do aspecto religioso. “Além da fé e da religiosidade, temos a convivência social. São momentos em que nos enxergamos lado a lado como comunidade”, destaca.
O prefeito Amarildo Lucatelli também associa a festa à identidade da cidade. “Santo Antônio é o nosso padroeiro e faz parte da história de Bento Gonçalves. Hoje estamos aqui para agradecer e celebrar junto com a comunidade”, afirma.
Em tom descontraído, o prefeito relembra um pedido feito ao santo antes de conhecer a esposa Idonês. “Eu passava em frente à igreja e pedia para não ficar sozinho. Ele me atendeu. Estamos casados há 23 anos”, conta.
Já o presidente da Câmara de Vereadores, Anderson Zanella, destaca a capacidade de mobilização da festa. “A comunidade unida reconstrói, cresce e progride. Isso acontece graças à fé, à tradição e ao espírito comunitário que temos”, observa.
Uma festa que mobiliza a comunidade durante todo o ano
Embora o dia 13 de junho represente o ápice das celebrações, a programação da 148ª Festa de Santo Antônio foi construída ao longo de vários meses, reunindo milhares de pessoas em diferentes atividades religiosas, comunitárias e solidárias.
Um dos momentos de maior participação popular ocorreu em 2 de março, com a realização da Procissão Luminosa. Organizada em conjunto pelos festeiros, pela Catequese da Paróquia Santo Antônio e pelas escolas de inspiração católica de Bento Gonçalves, a iniciativa reuniu mais de 4 mil pessoas pelas ruas da cidade.
Inspirada no lema da festa, a caminhada proporcionou reflexões sobre fraternidade, acolhimento e o direito à moradia digna. Crianças, jovens, adultos e idosos participaram da atividade, que também contou com momentos de oração e meditação.
Durante o percurso, integrantes do Curso de Liderança Juvenil (CLJ) da Paróquia Santo Antônio encenaram elementos ligados à Campanha da Fraternidade de 2026, associando a mensagem da campanha à trajetória de Santo Antônio, conhecido por sua atenção aos mais pobres e pela defesa dos necessitados. Os participantes também rezaram pelos agricultores da Serra Gaúcha, que vivenciam o período da safra da uva, e pelas famílias brasileiras que enfrentam dificuldades relacionadas à moradia.

A proposta também dialogou com desafios sociais presentes na realidade atual. Inspirada pela Campanha, a temática da festa incentivou a reflexão sobre a importância da moradia digna e da fraternidade como compromisso concreto da comunidade cristã. Para o padre Fontana, a mensagem ganha ainda mais relevância diante das dificuldades enfrentadas por famílias gaúchas nos últimos anos. “Muitas pessoas perderam suas casas. Então também se torna um momento de reflexão para que todos tenham moradia digna”, afirma.
Além das celebrações religiosas, a festa também mantém iniciativas voltadas à manutenção das atividades pastorais e ao apoio às comunidades. Uma delas é a tradicional Ação entre Amigos, promovida anualmente pela Paróquia Santo Antônio para arrecadar recursos destinados às ações evangelizadoras e a projetos de infraestrutura.
Nos últimos dois anos, os valores obtidos com a campanha têm sido destinados à conclusão da Igreja Nossa Senhora da Saúde, no bairro Vinhedos. Neste ano, a ação passou a contar com cartelas contendo quatro números, ampliando as possibilidades de participação da comunidade. O sorteio está marcado para 15 de agosto e contempla premiações que vão desde um automóvel zero quilômetro até valores em dinheiro e itens para a residência.
Mesmo após o encerramento do dia festivo, a programação da 148ª Festa de Santo Antônio ainda reserva novos momentos de confraternização. Entre eles está a Quermesse de Santo Antônio, agendada para 26 de junho, no Salão Paroquial.
Caminho aberto para a 149ª Festa
Antes do encerramento da programação da 148ª Festa de Santo Antônio, a comunidade também voltou sua atenção para os próximos passos de uma tradição que se aproxima dos 150 anos de história. Em um momento marcado pela gratidão e pela expectativa, foram apresentados os casais que terão a missão de conduzir a preparação da 149ª edição da festa, programada para junho de 2027.
Antes do anúncio, o pároco do Santuário Santo Antônio, padre Volmir Comparin, agradeceu o trabalho realizado ao longo do último ano pelas equipes, comissões e voluntários que estiveram envolvidos na organização das celebrações e atividades da paróquia. “O que tem de se dizer nesta hora: muito obrigado. Que tudo isso que aconteceu nesta 148ª Festa de Santo Antônio seja entregue nas mãos de Deus. E vamos fazer festa, porque seguimos esta bela tradição de quase 150 anos”, afirma.

Na sequência, foram apresentados os festeiros da edição de 2027: Alex Fogliarini da Costa e Adriana Brito da Costa; Cleomar João Zandoná e Ângela Maria Chiaramonte Zandoná; Gabriel Todeschini e Jacqueline Eurânia Bellé Todeschini; Gilberto Rosa e Liane Possamai Rosa; e Luís Antônio Fagundes e Marilice Refatti Fagundes.
Ao final da celebração, a comunidade foi convidada a estender as mãos sobre os festeiros de 2026 em um gesto de agradecimento pela missão desempenhada durante o último ano. Também foi realizada uma oração especial pelos novos festeiros, que iniciam agora a caminhada de preparação para a próxima edição da festa.
Na ocasião, padre Volmir anunciou o lema da 149ª Festa de Santo Antônio: “No coração de Santo Antônio está o amor aos pequeninos”. A temática estará em sintonia com a Campanha da Fraternidade de 2027, que terá como foco a reflexão sobre o cuidado e a proteção das crianças.
A passagem da missão entre os grupos de festeiros simbolizou a continuidade de uma celebração que atravessa gerações e permanece como uma das mais importantes expressões de fé, tradição e pertencimento da comunidade bento-gonçalvense.
Quando os sinos do Santuário anunciaram o encerramento da 148ª edição, ficou a certeza de que a caminhada continua. Assim como os imigrantes que trouxeram Santo Antônio na bagagem ou no coração, milhares de pessoas seguem encontrando no padroeiro um símbolo de esperança, acolhimento e fraternidade.