O registro de animais ameaçados de extinção em uma área próxima ao Residencial San Marino, nas proximidades do bairro Universitário, em Bento Gonçalves, acendeu um alerta ambiental e reforçou a mobilização para transformar o local em uma área oficialmente protegida. Os animais foram identificados pelo Grupo de Estudos do Patrimônio Ambiental de Bento Gonçalves (GEPA-BG), coordenado pelo pesquisador Eduardo Silveira Lemes.

Entre as espécies encontradas estão o macaco-prego (Sapajus nigritus) e o veado-de-mão-curta (Mazama nana), ambos vistos inicialmente por moradores da região. Os registros foram encaminhados ao GEPA-BG, que realizou a análise e a confirmação das espécies com apoio de especialistas.

Segundo Lemes, o processo de identificação foi considerado relativamente simples devido às características marcantes dos animais e ao número reduzido de espécies semelhantes que ocorrem na região. “No caso do veado-de-mão-curta, ele possui características muito específicas, como as patas dianteiras mais reduzidas, que dão origem ao nome da espécie, além da pelagem avermelhada, diferente dos outros cervídeos encontrados na Serra Gaúcha”, explica.

Após a análise inicial, os registros foram enviados para outros especialistas da área, que confirmaram a identificação tanto do veado quanto do macaco-prego.

Espécies ameaçadas

O macaco-prego é classificado como “quase ameaçado” (NT) de extinção pelas listas de conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA-RS).

Já o veado-de-mão-curta apresenta uma situação mais preocupante. A espécie é considerada vulnerável (VU) ao risco de extinção nas listas mundial e nacional, além de estar classificada como em perigo de extinção (EN) no Rio Grande do Sul.

Área onde foram encontradas as espécies

Para o pesquisador, a presença dessas espécies tão próximas de áreas urbanizadas demonstra a importância ambiental da região, principalmente diante da expansão imobiliária observada nos arredores. “O veado-de-mão-curta é uma espécie ameaçada e está ocorrendo aparições muito próximas de moradores. Isso serve como um alerta para a necessidade de preservação da área, especialmente porque o local sofre pressão constante do avanço urbano, com desmatamentos para construção de loteamentos e moradias”, destaca.

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Área pode virar unidade de conservação

A área onde os animais foram registrados foi doada pela Lex Empreendimentos à Associação Ativista Ecológica de Bento Gonçalves (AAECO). O terreno fica próximo à Rua Bramante Mion, na região do bairro Universitário.

Araucaria angustifolia, também ameaçada de extinção

Conforme Lemes, o objetivo do grupo e da AAECO é transformar o espaço em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), categoria de unidade de conservação prevista na legislação ambiental brasileira. “O meio mais eficaz de proteger um ecossistema e as espécies que vivem nele é transformar a área em uma unidade de conservação. Assim, além da proteção já garantida pela legislação da Mata Atlântica, o local passa a contar com a proteção da Lei 9.985, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação”, afirma.

O processo para criação da RPPN envolve uma série de etapas burocráticas, como elaboração de planta georreferenciada, memorial descritivo, documentação dos imóveis e fotografias da área.

Raridade

Apesar de raros, há muitos casos de veados na região de Bento Gonçalves, não sendo tão inédito. Lemes afirma que já houve pelo menos outros quatro registros do veado-de-mão-curta no município, incluindo um em área urbana no bairro Fenavinho. “Registros de cervídeos são sempre difíceis de fazer. É um animal muito discreto”, comenta.

Além do macaco-prego e do veado-de-mão-curta, o GEPA-BG já identificou outras espécies de mamíferos na área. Entre elas está o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), que não está ameaçado de extinção, além de mais de dez espécies de aves e diferentes aracnídeos que seguem em levantamento pelos pesquisadores.

A aranha-do-fio-de-ouro é totalmente inofensiva

O GEPA-BG atua como um grupo de estudos independente, mas mantém parcerias com pesquisadores ligados a instituições de ensino superior.

Benefícios ambientais e econômicos

Segundo Eduardo Lemes, além da preservação da fauna, flora e funga (reino dos fungos), a criação de uma unidade de conservação também pode trazer impactos positivos para a economia local. “O espaço pode ser utilizado para turismo sustentável, educação ambiental e pesquisas científicas, atraindo pesquisadores e visitantes para Bento Gonçalves. Além disso, áreas protegidas também podem receber compensações ambientais e recursos ligados a licenciamentos”, explica.

O pesquisador alerta ainda que, sem proteção legal efetiva, espécies como o veado-de-mão-curta podem desaparecer da região. “O veado é alvo de caça e já possui uma população reduzida. Qualquer diminuição maior pode levar à extinção local da espécie”, conclui.