Parceria entre Rotary Mulheres da Serra e Clínica ABA+ entregam primeiras avaliações de neurodesenvolvimento para diagnóstico de TEA e outras síndromes

O Rotary Club Mulheres da Serra e a Clínica ABA+ oficializaram a entrega dos primeiros laudos técnicos de um projeto voltado ao diagnóstico precoce do neurodesenvolvimento infantil. A iniciativa atende crianças de famílias em situação de vulnerabilidade social, indicadas por diretores de escolas municipais, que apresentam sinais de atraso no desenvolvimento ou suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA). O projeto supre uma demanda técnica de alto custo, cujas licenças de aplicação são de propriedade de plataformas internacionais e, por isso, costumam ser inacessíveis para famílias de baixa renda.

Tatiana do Carmo e Silva, neuroeducadora e analista do comportamento da ABA e Camila Senna, sócia fundadora da ABA

A trajetória na educação como base da iniciativa
A prioridade dada ao neurodesenvolvimento nesta gestão do Rotary fundamenta-se no aumento da demanda observada nas instituições de ensino por profissionais qualificados para identificar transtornos de aprendizagem e comportamento. Adriane Zorzi, presidente da entidade, associa a escolha da causa à sua trajetória de 40 anos no magistério e na gestão da Secretaria Municipal de Educação. Segundo ela, o colégio é o ambiente primário onde as discrepâncias de desenvolvimento tornam-se evidentes. “Durante minha trajetória na educação, fui acompanhando o crescimento da necessidade de um olhar mais direcionado ao neurodesenvolvimento das crianças, pelo crescimento de síndromes, transtornos, deficiências e tantos outros que íamos percebendo no dia a dia. A escola, geralmente é onde se percebem as diferenças entre os pequenos e quanto mais precoce este olhar e acompanhamento, melhor a resposta dela”, afirma.
A presidente relata que, em sua atuação na supervisão pedagógica e na Secretaria de Educação, pôde observar de perto o número significativo de famílias que precisavam de apoio para que os filhos recebessem acompanhamento adequado. “Muitas delas ficam a margem deste olhar cuidadoso no desenvolvimento de seus filhos, em virtude da vulnerabilidade social, da falta de conhecimento e muitas vezes por serem migrantes ou imigrantes, necessitando ainda mais de acolhida, apoio e acompanhamento”, explica.

Protocolos técnicos e a barreira financeira das licenças
O processo diagnóstico oferecido pela parceria segue o padrão estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). A neuroeducadora Tatiana Cardoso, gestora da Clínica ABA+, detalha que a avaliação compreende etapas rigorosas, como anamnese detalhada com a família, observação clínica estruturada, aplicação de instrumentos padronizados e análise integrada dos dados. “Os testes utilizados são licenciados por plataformas privadas internacionais, com custos elevados e exigem profissionais altamente treinados para aplicação e, principalmente, interpretação correta dos resultados. Não se trata apenas de ‘aplicar um teste’, mas de compreender padrões comportamentais complexos com base científica esperados para crianças em determinada faixa etária”, pontua Tatiana.
A especialista alerta que avaliações sem critério rigoroso podem gerar perda de tempo e atrasar intervenções que promoveriam ganhos reais. “A ciência é clara: quanto mais cedo identificamos sinais de atraso, maiores são as chances de desenvolvimento. Isso se deve à Neuroplasticidade, especialmente intensa na primeira infância. Avaliar precocemente não é rotular e sim cuidar, orientar e abrir caminhos para que a criança alcance seu máximo potencial”, reforça a neuroeducadora.

O desenvolvimento infantil também depende de um diagnóstico logo no início

O laudo técnico como instrumento de direito
O documento entregue às famílias funciona como um instrumento jurídico e clínico essencial para a rede de proteção. Com o parecer conclusivo em mãos, as famílias possuem o suporte necessário para acessar direitos garantidos, como terapias especializadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cobertura por convênios e adaptações curriculares em sala de aula. “Traduz cientificamente o perfil de desenvolvimento da criança. Além disso, um laudo bem estruturado direciona o caminho terapêutico, evitando intervenções genéricas e favorecendo estratégias individualizadas, baseadas em evidência”, explica Tatiana. Segundo Adriane, as próprias escolas e a secretaria de educação, de posse do documento, podem buscar agilidade nos encaminhamentos. “A avaliação é o primeiro e importante passo deste processo, pois na maioria das vezes temos observações, suposições, mas é a avaliação que vai nos dar um norte”, complementa a presidente.

Mobilização de recursos e metas para 2026
A viabilização do projeto depende de um esforço conjunto. A equipe técnica da Clínica ABA+ organizou-se em regime de voluntariado, com atendimentos realizados fora do horário de expediente e aos finais de semana. Por outro lado, o Rotary Mulheres da Serra mobiliza a comunidade para financiar as licenças dos testes por meio de ações sociais. “Nesta gestão, que iniciou em julho de 2025, realizamos o I Mondongo do Bem, onde foram comercializados 250Kg de Mondongo, todo preparado e comercializado pelas rotarianas e voluntários e o II Jantar Harmonizado. No próximo mês realizaremos a IV Edição do mesmo”, salienta Adriane. A meta do clube é realizar mais cinco avaliações até julho de 2026 e buscar novas parcerias para dar continuidade aos encaminhamentos terapêuticos.
A entrega das primeiras cinco avaliações representa um marco no cronograma de trabalho. “Estamos muito felizes. A ideia começou a tomar forma no segundo semestre de 2025 e estamos realizando a primeira entrega. A partir de agora outras cinco crianças iniciarão o processo avaliativo e dentro de poucos meses teremos mais crianças com sua avaliação”, projeta a presidente. Para Tatiana, o projeto cumpre a missão da clínica de democratizar o conhecimento: “Sabemos que todas as crianças, típicas ou atípicas, merecem esse cuidado na primeira infância. Nossa missão é clara: transformar ciência em prática e prática em desenvolvimento”, finaliza.