VIDA VIVIDA –
BORBULHAS DE EMOÇÃO

Se Roberto Carlos dizia “foram tantas as emoções” em seus amores vividos, eu diria que minha vida, dos 12 aos 18 anos, nesta cidade de Deus, eleita hoje a 39ª cidade melhor para se viver no Brasil, era um borbulhar de emoções. Política estudantil dominada pela UBE, a vida intensa nos colégios, os “namoricos”, o Clube Aliança, o Bar do Quito, o Bauru do Ranzi, a Farmácia Providência, meus papos com o Seu Faggion da Imobiliária, tudo enfim era um circuito de vida intensa. Mas, como “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe”, minha mãe, um dia, colocou um basta, num sábado de manhã, 10 horas, quando eu reclamei de uma camisa mal passada. Ela, que pouco falava, bradou “chega, não aguento mais solteirão dentro de casa, ou arruma uma boa moça para casar, ou sai desta casa, ou tu vais ficar solteirão como teu tio”. Esclareço, ele, meu tio, tinha 32 anos e, eu, 19 anos, talvez 20. Bem, é claro que eu fiquei em casa!

NAMORICOS

Depois da “dispensa” na Boite do Clube Aliança e, como “cachorro ovelheiro só matando” eu instituí “amores platônicos” daí a revolta da minha mãe. No Colégio Aparecida eu tive um namorico com a Maria Isabel, uma morena “recheadinha” de olhos verdes envolventes, mas, tinha um detalhe, era filha do Delegado de Polícia, cujo nome não me vem à mente. Então, ensaiei um “vai que dê!” Nos sábados, todo concentrado, lá ia eu namorar, ela num canto do sofá e eu do outro, “na espera do Delegado”. Lá pelas 21 horas, lá vinha ele, com dois revólveres na cintura. Quando ele passava no corredor de entrada da casa, que era estreito, tinha que recolher as pernas. Quando ele passava por mim, “com um dos revólveres roçando meu nariz” ele dizia “cuida bem de minha filha e, respeito”! Como “contra a força não há resistência” eu sentava um pouco mais longe da “princesa de Bagdá” limitando-me apenas a olhar encantado para ela, como se fosse uma dançarina de dança do ventre, perfil ela tinha. Aquela música “que beijinho doce, que ela tem” nem pensar, o Delegado “Hopalong Cassidy” estava sempre na área e, a qualquer momento, poderia me enquadrar como “vacilão”. Eu era “intenso”, ela romântica, mas, diante do “impeachment”, o papo ficava circunscrito a como eram os professores no Colégio: a tal matéria e “papos cabeça”. Não me lembro de ter conhecido a sogra e nem de ter comido um pedacinho de bolo. Usando uma linguagem atual, por falta de “sustentabilidade” fui em frente, pois “mais vale um covarde vivo do que um herói morto”. Conviver com ela, depois, não foi fácil, pois, na sua mente, certamente, como Maysa, ela cantarolava: “meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”.

NO COLÉGIO ESTADUAL

Um belo dia chegou em Bento o Colégio Estadual, ensino gratuito, migrei, como muitos jovens de famílias ricas e pobres, eu alquimista social, cansado de gastar dinheiro “do meu pai” no Aparecida onde eu “empacava”. Aí aconteceu de tudo “cantar o Hino da França com o coral da sala de aula; nas aulas de artes manuais bordado e trabalho de serrinha em compensado; rigor nas aulas de educação física, os professores vinham de Porto Alegre, não faltavam uma aula e eram “Caxias” não muito condizentes com meu espírito “liberal”. Quando eu chegava atrasado, entrava pela janela lateral, as salas de aula eram no andar superior, abria a porta da sala de aula, entrava “como quem não quer nada”, sentava e “segue o baile”. Por vezes eu não comparecia no Colégio, acho que eu estava ainda deprimido e, emocionalmente abalado, com “os castigos do Aparecida”. O que tinha de bom no Estadual? A professora de francês Alice, o seu “Vit-Vit” (Ligeiro-Ligeiro) que ela falava quando não se conseguia copiar a lição do quadro negro. Depois, pagávamos a colega Alice para emprestar o caderno e copiarmos a lição cedendo ao argumento de que ela precisava de dinheiro “para comprar os cadernos”. Tinha mais; a professora de artes manuais era linda, escultural, uma “atração fatal” tal qual a Vera Fischer nos tempos de Miss Brasil. Distraído, eu vivia “quebrando as serrinhas” e ela, candidamente, dizia “vai ter que trazer um estoque maior”. Além de “bem dotada” era um amor. Eu gostava muito também do professor Raimundo, de educação física, e seu “estudantes do Brasil, sua missão é a maior missão, batalhar pela verdade em prol de tua geração” (hino do estudante), e dê-lhe exercício físico e marcha. No desfile de 07 de setembro éramos imbatíveis. Tinha outra alegria no Estadual, a minha namoradinha Aline, filha do Militar Sargento Rodrigues que, quando nos dias (47 dias, soldado 1037) de exército eu desmontava o fuzil, mas não sabia montar, “o sogro imaginário montava pra mim”. aline era bonita, meiga, discreta, mas o que atrapalhou é que meu coração balançava entre ela e a espiritada Marlove, a Rainha do Batalhão Ferroviário. A Aline era “pouca areia” e a Marlove era “muita areia pro meu caminhãozinho”. Fiquei sozinho, deixei alguém cantando Altemar Dutra “de que é feito afinal, este teu coração, e que espécie de amor você deseja dar, se me humilho demais, me abaixo até o chão e ainda fico a dever, sem lhe contentar”. Em meio aos meus devaneios, um dia me chama o Diretor “Athos Rodrigues”, um baixinho invocado, muito competente, que conduzia o Colégio com “mão de ferro”. Ele me mostrou uma lista com 200 nomes, igual a “Lista de Schindler”, perguntei o que era e ele respondeu: “são pessoas que não têm condições de pagar o estudo e gostariam de estar estudando aqui no Colégio. Como tu não tens vontade de estar aqui, estou te desligando do Colégio a partir deste momento”, uma maneira delicada de dizer “tu tá expulso”. Fiquei imaginando uma reunião dos professores e o libelo acusatório contra mim: “ele quebra as serrinhas e paga um colega (Henry Angelo) para fazer o trabalho, é demorado para fazer os bordados e tem uns olhares satânicos; ele pula a janela, chega sempre atrasado, entra na sala de aula sem pedir licença; ele desafina de propósito no coral das aulas de francês e não consegue copiar a tempo as lições do quadro negro; nas apresentações artísticas da educação física ele é um anarquista; nas aulas de Latim ele questiona “porque devemos aprender Latim”? O que pesava a meu favor era que os professores gostavam de mim, eu era “um bom menino”. Diga-me a, sendo eu um bom menino, você teria razões de me expulsar? Deixei a doce Aline e perdi a Marlove, em torno de quem eu tinha apenas pensamentos, faltaram palavras e atos. Sem meu pai saber fui completar o segundo semestre no Medianeira com o Pe. Mânica como meu professor de história com sua paixão pelos 200 anos do IMPÉRIO PERSA.

O MEIO ESTUDANTIL

Era um turbilhão de emoções, a UBE dominava o meio estudantil, turbinada pelo Deputado Federal Paulo Mincarone. Da Capital Federal vinham malas de dinheiro para ser aplicado em obras Federais no município. Num dos sábados à tarde fui ajudar a contar o dinheiro, mesmo me achando um “peixe fora d’água”. A Entidade era filiada à UGES que, por sua vez, era filiada à UNE. Em torno de seus movimentos, muitos jovens, belas moças, outras nem tanto assim, líderes de toda a ordem, oriundos da classe média. Lá da Cidade Alta, vinham as irmãs Tomedi, destaque maior para a beleza da Vera. Como ativistas, tínhamos a Magda Zanoni, e a Terezinha (Neca) Bertani. O esplendor das belas filhas do Dr. Amélio Casagrande, poeta e jornalista, a Eliana, a Nair, a Regina e a Ana. A NAIR acabou casando com o Lyon, meu “cortador” do time de vôlei da escola do Enologia, multicampeão dos jogos da Primavera. A ANA casou com o Ubirajara Silva Prates, hoje meu amigo no face. A REGINA casou com o Dr. Jorge Tramontini. A ELIANA casou com o Vanius (Tancho) Lorenzini. Todas belas com seus “boys” diferenciados. Como belezas, recolhidas do ambiente “hostil”, estavam as belas TEREZINHA GIULIANI e IEGLE GEHLEN, que foi Dama de Honra da Fenavinho, sobrinha do Dr. Bozzetto, família proprietária da lendária GEHLEN JOIAS. Da família Cousandier, tinha a referência da bela MARISA, que veio a casar com o Dr. Roberto Ross, filho do Dr. Ross, anos e anos Chefe do Posto de Saúde. Da família Michelin, o destaque do ativismo e beleza da Vera, que casou com o empresário Horácio Guedes Monaco. As famílias FASOLO, DREHER, nobreza que alavancou a prosperidade de Bento em seus primórdios, criaram seus filhos na discrição, mas com evidências posteriores à formação para a MIRIAM do Tel. Antinolfi, a IVONE do Rolando Gudde, a BITA do Ayrton Giovannini, a YEDA Fasolo, do Renan Proença. Só para constar registro de alguns, todos constituindo uma Entidade Social Única; se não estavam ligados à UBE, estavam ao Clube Aliança.