Quarta-feira, 01 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

A Puta e o Poeta

Livros são perigosos. Os que fazem pensar, então, nem se fala! São inimigos dos fanáticos, sejam políticos, religiosos, ideológicos, raciais, morais… Onde há livros, há ideias. Um risco! De repente, a consciência encarcerada pela ignorância fica livre…

A perseguição aos livros é antiga. Há indicativos de que, ainda antes de Cristo, bibliotecas inteiras eram dizimadas, como a de Babilônia, que emergiu das escavações com vinte mil “tabletas” de argila. Tudo por conta do perigo que representavam.

Depois de Cristo, a destruição de acervos – de papiro, de pergaminho ou em papel – continuou. De tempos em tempos, cabeças bizarras que temem ideias contrárias ou avançadas, partem para a ordem: “Queimem os livros”.

As maiores e mais recentes fogueiras em praça pública ocorreram durante o nazismo, quando milhares de exemplares que não fechavam com os padrões impostos pelo regime de Hitler, foram incinerados.

Nem mesmo o Brasil, em sua curta história, fugiu da regra. Durante o seu governo, Getúlio Vargas mandou queimar 1.700 livros de Jorge Amado, o romance “Dona Flor e seus dois Maridos”, e, na ditadura, os militares mandaram retirar das prateleiras “Feliz Ano Novo”, de Rubens da Fonseca. O motivo foi o mesmo: focavam temas perigosos, como sexualidade e morte.

“Ok, Ok”, diria aquele famoso fofoqueiro de celebridades. A censura autoral já era. Os tempos de hoje são outros. Será mesmo?

Algum tempo atrás, um pequeno livro – quase de bolso – não chegou a ser distribuído aos alunos do ensino médio de… da vizinhança, porque, na contracapa, constava este trechinho, que abre a narrativa: “Fui concebido em plena ditadura. Meu pai, o Zé Filho, costumava dizer que, graças à dita dura, vim ao mundo. Senão eu estaria ainda nadando em meio ao líquido seminal, eu e mais um milhão de irmãozinhos, à espreita de uma oportunidade para escapar daquele reservatório pré-diluviano”. Essa “obscenidade” toda faz parte de “Confissões de um Vencedor”, de autoria de… Se os leitores ainda não sabem, ficam me devendo…

Bom, agora é a vez da “puta e o poeta”, do autor cearense Costa Penna. Chocante? Não viram nada ainda! Este poema rimado e melodioso, como é típico da Literatura de Cordel e que faz parte do livro “Caminhos Diversos”, é singelo, sensível, inteligente, mas afrontou alguns críticos de plantão, que trataram de descê-lo das prateleiras.

Eu amei o poema, mas já nem sei se é pelos motivos certos… A certeza que eu tenho mesmo é da atitude apressada dos “críticos”. Transcrevo uma estrofe para que os leitores que têm sua casa invadida por inocentes programas da TV brasileira – novelas, big brothers, Amor & Sexo, Super Pop, Ratinho, Faustão, Sabrina Sato, Malhação… – e/ou pelas músicas que são hit – Ai se eu te pego, Te pego de jeito, Lepo Lepo, Xenhenhém…, vejam como é pornográfico o texto:

“Têm o poeta e a puta/ Sina muito parecida:/ Entre o poeta e a puta,/ Nenhum dos dois tem guarida…/ É quase a mesma meta:/ Para a puta e o poeta/ A sorte é desmerecida”. “Os nomes são parecidos/ A pronúncia quase correta/ Do jeito que finge a puta/ Finge também o poeta…”

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