Em Bento Gonçalves, a Páscoa de 2026 movimenta o comércio de chocolates em meio a um cenário de otimismo moderado. Impulsionadas pela tradição e pelo apelo afetivo da data, as vendas ganham força nas semanas que antecedem o feriado, embora lojistas adotem cautela diante de um consumidor mais atento aos gastos.
De acordo com o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), Lindonor Peruzzo Junior, as vendas nesta páscoa no Rio Grande do Sul não registraram crescimento real. “Houve um pequeno crescimento nominal devido à inflação do preço dos ovos, mas em termos de volume, a venda foi igual a 2025”, menciona.
Contexto econômico
Para ele, o cenário não trouxe surpresas, mas confirmou uma tendência que já vinha sendo observada. O destaque ficou para a maior procura por bombons, barras e chocolates em barra, opções mais acessíveis em comparação aos tradicionais ovos de Páscoa. “Percebemos que há, sim, a intenção de presentear, mas acompanhada de uma atenção redobrada aos preços e aos gastos. O consumidor está com o orçamento pressionado”, afirma.
Segundo Junior, o momento ainda é marcado por incertezas, agravadas pelo alto nível de endividamento das famílias brasileiras. Esse contexto, segundo ele, já impacta diretamente o comportamento de consumo, a ponto de algumas redes passarem a oferecer até alimentos de forma parcelada. “O consumidor está atento e preocupado em não sobrepesar seu orçamento”, destaca o presidente, ao explicar a postura mais cautelosa nas compras durante o período.
De acordo com Helenir Bedin, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), no município, a entidade desenvolveu a campanha “Páscoa Criativa”. “Utilizamos materiais de apoio em vitrines e divulgação por carro de som para sensibilizar o consumidor sobre a valorização do comércio local. O movimento buscou transformar o ato de presentear em apoio à economia regional. Em Bento Gonçalves, a campanha focou na diversificação de setores para além do segmento de chocolates”, menciona.
Mercado local
Para Siminéa Lima, confeiteira na cidade, este e o último ano têm sido desafiadores, principalmente devido ao aumento no custo da principal matéria-prima da Páscoa: o chocolate. Segundo ela, o impacto foi direto nas vendas. “Em comparação a 2022 e 2023, as vendas caíram”, relata.
Ela destaca que os produtos mais acessíveis foram os mais procurados pelos clientes. “Os ovos menores, voltados para lembrancinhas, tiveram maior saída, porque a data acabou coincidindo com um período apertado para o bolso do consumidor, logo antes do pagamento, o que acabou limitando um pouco as compras”, observa.
De acordo com Gabriela Caillava Caminha, doceira do município, o período foi bastante positivo. “Tivemos um aumento de quase 40% nas vendas em comparação ao ano passado”, destaca. Ela atribui esse crescimento, em parte, a uma mudança na forma de conduzir o negócio. “Antes, trabalhávamos basicamente apenas durante a Páscoa; hoje, com o delivery ativo, conseguimos ampliar bastante nosso alcance. Mesmo assim, foi um crescimento expressivo e muito especial de ver acontecendo”, acrescenta.
Em seu espaço, o campeão de vendas foi o ovo de colher na opção dueto. “Chamou bastante atenção pelas casquinhas recheadas e pela proposta de poder escolher mais de um sabor”, afirma.
Preparação para a Páscoa
Ambas as empreendedoras, contam que realizaram de forma antecipada o estoque de produtos para a Páscoa. “A gente começa a pensar na Páscoa logo depois que passa o Natal. Em janeiro já começo a negociar valores de chocolate com os nossos fornecedores, já começo a procurar as embalagens, é algo que a gente se prepara com bastante antecedência”, destaca Siminéa.
Gabriela menciona que, com a experiência adquirida nos anos anteriores e diante de alguns imprevistos, neste ano se preparou com mais antecedência. “Nos preparamos melhor e fizemos uma compra maior e com mais antecedência, praticamente o dobro da quantidade de insumos em relação ao ano passado. O que acabou sobrando agora segue sendo aproveitado na produção do delivery”, conta.
Desafios
Gabriela menciona, que em sua produção, as maiores dificuldades enfrentadas foi em relação ao espaço de produção. “Ainda trabalhamos em uma cozinha pequena, de casa. Com o aumento da demanda, isso acaba exigindo ainda mais organização e planejamento para dar conta de tudo mantendo a qualidade dos produtos”, frisa.
Já para Siminéa, o principal desafio neste ano foi a alta temperatura. “Estava muito calor, o que não é muito propício para o consumo de chocolate. Em períodos mais frios, acaba sendo mais agradável e a procura costuma ser maior”, observa.
Tendências
Gabriela menciona, que observa um crescimento em produtos mais saudáveis. “Como produtos com menos açúcar, mais leves ou até com proposta proteica. Existe um movimento no mercado como um todo voltado para uma alimentação mais equilibrada, e isso também começa a refletir na Páscoa”, observa.
Siminéa explica que muitos clientes ainda não planejam a encomenda, o que dificulta a organização da produção. Diante disso, a tendência para os próximos anos é reduzir esse modelo de trabalho. “O cliente acaba deixando tudo para o último momento, então a ideia é focar mais na pronta entrega, além de enxugar a quantidade de sabores e itens oferecidos. Hoje fazemos um cardápio bem extenso para tentar agradar a maioria, mas, na prática, isso acaba prejudicando a produção, porque exige muitos detalhes”, afirma.
Expectativas
Helenir destaca que, embora haja uma percepção de retração no fluxo de consumidores em função das incertezas políticas e econômicas no cenário nacional, a entidade mantém uma perspectiva otimista. A expectativa é de fortalecimento do comércio local, impulsionado por um trabalho contínuo desenvolvido pela própria instituição, focado na geração de oportunidades e na oferta de ferramentas que permitam aos lojistas ampliar sua competitividade e eficiência.
Estratégias
A presidente menciona que os lojistas devem priorizar a criatividade e a oferta de experiências no ponto de venda, indo além dos produtos tradicionais de cada data. “Estratégias recomendadas incluem a criação de combos, a montagem de vitrines temáticas e a oferta de sugestões de presentes originais, que despertem no consumidor a curiosidade e, claro, o desejo da compra. Complementarmente, a gestão financeira estratégica é fundamental, sendo necessário que o empresário domine a formação de preços, a diferenciação entre custos fixos e variáveis e a análise de margens para garantir a rentabilidade durante os períodos de maior movimento. Ferramentas específicas oferecidas pela CDL-BG, com a CDL I.A., podem ser aliadas estratégicas”, destaca.