O Dia Mundial de Combate ao Câncer, lembrado em 8 de abril, é uma data dedicada à conscientização sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado dessa doença que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. A iniciativa reforça a necessidade de hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada, prática de atividades físicas e a realização de exames regulares.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de Câncer por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, que apresentam alta incidência, porém baixa letalidade, a estimativa cai para aproximadamente 518 mil novos casos anuais. Os dados fazem parte da publicação Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil, que reforça a importância de ações de prevenção, diagnóstico precoce e ampliação do acesso ao tratamento.

O que é
Segundo a OMS, o Câncer é um termo genérico que engloba um amplo conjunto de doenças capazes de atingir praticamente qualquer parte do corpo, também conhecidas como tumores malignos ou neoplasias. A principal característica dessas doenças é a multiplicação descontrolada de células anormais, que ultrapassam seus limites naturais, invadem tecidos vizinhos e podem se espalhar para outros órgãos. Esse processo de disseminação, chamado metástase, é apontado como a principal causa de morte relacionada ao câncer.

Projeções futuras
Segundo a OMS, as projeções mais recentes indicam que a doença vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se dos problemas cardiovasculares. Esse cenário reflete, sobretudo, o envelhecimento da população, além de desigualdades regionais e desafios persistentes no acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.
De acordo com os dados divulgados, entre os homens, os tipos de câncer mais incidentes são, em ordem, os de próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral, evidenciando a necessidade de atenção a fatores de risco e à realização de exames regulares. Já entre as mulheres, predominam os cânceres de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide, também em ordem de incidência, reforçando a importância de políticas públicas voltadas à saúde feminina e ao rastreamento precoce.

Fatores para atenção
De acordo com o médico oncologista do Tacchini Saúde, Guilherme Sartori, a OMS aponta que cerca de 40% dos câncer do mundo estão associados a fatores de risco evitáveis, sendo os quatro mais relevantes:

  • Tabagismo: Continua sendo a causa isolado mais relevante. O cigarro eletrônico representa uma nova ameaça, especialmente entre os jovens;
  • Álcool: O consumo está associado ao aumento do risco de sete tipos de câncer. É importante destacar que não há níveis seguros para o consumo;
  • Obesidade e sedentarismo: A associação desses dois fatores com o câncer tem sido um dos assuntos mais abordados nos últimos cinco anos. Diversos estudos estão correlacionando a obesidade com aumento do risco de câncer de recidiva entre os pacientes que já trataram a doença.
  • Exposição solar sem proteção: Para o câncer de pele, os métodos de barreira, roupas, chapéus e protetores solares, seguem sendo a prevenção mais eficaz.
Guilherme Sartori, oncologista do Tacchini Saúde

Exames de rastreamento
Sartori destaca que o Brasil passa por uma atualização importante na área de prevenção. “No caso do Câncer do colo do útero, que atinge mulheres entre 25 e 64 anos, o Sistema Único de Saúde incorporou, em 2024, o teste molecular DNA-HPV para a detecção do HPV oncogênico, substituindo gradualmente o exame de Papanicolau. Enquanto o este identifica alterações celulares já instaladas, o novo teste permite detectar a presença do vírus antes mesmo do desenvolvimento de lesões, ampliando significativamente a capacidade de diagnóstico precoce. A sensibilidade do exame de DNA-HPV ultrapassa 90%, e o rastreamento antes dos 25 anos não é recomendado devido à alta taxa de regressão espontânea das infecções nessa faixa etária”, explica.
No caso do Câncer de mama, ele cita que o Ministério da Saúde passou a garantir o acesso à mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a partir dos 40 anos. A medida amplia as estratégias de rastreamento e reforça a importância do diagnóstico precoce, aumentando as chances de tratamento eficaz e redução da mortalidade pela doença.
Sartori também ressalta as orientações para o Câncer colorretal: “O Instituto Nacional de Câncer (INCA), recomenda o rastreamento entre 50 e 75 anos em adultos sem histórico pessoal ou familiar da doença. Nesse grupo, podem ser utilizados tanto exames de pesquisa de sangue oculto nas fezes quanto métodos endoscópicos. Já nos casos com histórico familiar, a recomendação é antecipar o início do rastreamento para os 45 anos ou até antes, conforme avaliação médica”, explica.
Em relação ao Câncer de próstata, Sartori destaca que o rastreamento por meio do exame de PSA deve ser uma decisão individual, tomada a partir de uma conversa entre o paciente e o médico a partir dos 50 anos, ou em casos de maior risco, como aqueles com histórico familiar da doença a partir dos 45.

Avanços no tratamento
O médico destaca que a oncologia vive um momento de transformação significativa, impulsionado por avanços que estão redefinindo o diagnóstico e o tratamento. Nesse cenário, três frentes principais merecem destaque, sendo elas:

  • Imunoterapia: Se consolidou como abordagem inovadora, aproveitando o sistema imunológico para combater células tumorais, com resultados já amplamente documentados no tratamento de mais de 30 tipos de câncer;
  • Terapia com células CAR-T: Utilizam as próprias células imunológicas do paciente, modificadas geneticamente, para atacar as cancerígenas. Apesar de representarem um avanço revolucionário, os custos ainda são uma barreira de acesso;
  • Medicina de precisão e oncologia molecular: O sequenciamento genético tumoral permite hoje identificar mutações específicas e escolher tratamentos direcionados, com maior eficácia e menos efeitos colaterais.

Mais comuns
De acordo com o médico, o Câncer de pele não melanoma permanece como o mais incidente no país, concentrando 33,7% dos casos. Em seguida, aparecem o de mama feminino (15,18%), o de próstata (15,05%), o colorretal (10,39%), os tumores de traqueia, brônquio e pulmão (6,83%) e o de estômago (4,35%). Entre as mulheres, o Câncer de mama segue como o tipo mais prevalente, reforçando a importância das estratégias de prevenção e diagnóstico precoce.

Por que o Câncer está aumentando?
O especialista ressalta que o aumento dos casos no país está relacionado a diversos fatores, incluindo o envelhecimento da população, mudanças no estilo de vida e avanços no diagnóstico. “Em grande parte, uma doença do envelhecimento: à medida que as pessoas vivem mais, naturalmente os casos aumentam”, explica.
Parte do aumento também reflete a melhoria na detecção de tumores, o que traz um lado positivo, ao identificar mais casos precocemente, porém exige que o sistema de saúde esteja preparado para oferecer tratamento adequado. “Em 2025, o SUS realizou quase 7 milhões de procedimentos de quimioterapia até novembro, crescimento de 80% em relação a todo o ano de 2022. Também entraram em funcionamento 24 novos aparelhos de Radioterapia, com aquisição de mais 131 equipamentos previstos para 2026”, explica o médico.

Conscientização 

Ele destaca a importância de combater o chamado analfabetismo oncológico funcional.  “A pessoa sabe que câncer existe, mas não sabe que ela própria pode fazer algo para se proteger. Uma pesquisa da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) mostrou que 70,4% dos brasileiros não reconhecem a atividade física como fator de proteção contra o câncer, e 69,5% não associam o excesso de peso à maior chance de desenvolver tumores malignos”, menciona. Com isso, ele frisa que é preciso haver três mudanças urgentes, como:  “Educação continuada, não pontual, combate à desinformação digital, desconstrução do estigma”.