A cena é cada vez mais comum nas paisagens da Serra Gaúcha: entre taças de vinho e parreirais, animais de estimação circulam livremente ao lado de seus tutores. O que antes era uma experiência voltada exclusivamente ao enoturismo tradicional passa por uma transformação silenciosa, e bastante significativa. A crescente procura por espaços pet friendly em vinícolas reflete uma mudança no comportamento do consumidor, que já não abre mão de incluir os animais de estimação em momentos de lazer e viagem.
Essa adaptação vai além da simples permissão de entrada. Em Bento Gonçalves, no Vale dos Vinhedos e nos Caminhos de Pedra, por exemplo, o investimento em infraestrutura específica, que inclui desde bebedouros de design integrado à paisagem até ‘menus pet’ com petiscos funcionais, revela que o setor enoturístico entendeu que o animal de estimação é, hoje, parte integrante da configuração familiar. Mais do que um visitante, o pet tornou-se um influenciador da jornada de compra: o destino é escolhido pela capacidade de acolher o grupo por completo, sem exclusões.

Vinícolas
Na Casa Valduga, os animais são bem-vindos nas áreas externas, permitindo que acompanhem seus tutores em passeios pelas ruínas, pelo mirante e pelos vinhedos centenários. Nesses espaços, os visitantes podem desfrutar da gastronomia do LUI Gastrô e do NOI Gelato ao lado de seus pets. No entanto, por questões de preservação e normas de visitação, o acesso dos animais é restrito ao interior dos restaurantes, da Pousada Boutique e das caves, não sendo permitida a entrada nas etapas internas dos tours guiados.
Já a Cooperativa Vinícola Aurora concentra seu acolhimento aos pets em sua unidade de Pinto Bandeira, onde o foco são as experiências de imersão na natureza. O formato pet friendly é aplicado especificamente no Wine Walk, uma caminhada guiada pelos vinhedos que desvenda as particularidades das Indicações Geográficas (I.P. e D.O.) da região, e no Piquenique realizado nos jardins da propriedade. Nessas modalidades, os animais podem acompanhar seus tutores enquanto estes desfrutam de rótulos prestigiados, como o Gioia Merlot e o Aurora Pinto Bandeira Extra Brut. A proposta permite que o consumo de vinhos e sucos ocorra em meio à liberdade do gramado, integrando o lazer em família à paisagem de altitude de Pinto Bandeira.
Na Cooperativa Vinícola Garibaldi, a hospitalidade para com os animais de estimação ganha um diferencial prático: a disponibilidade de um carrinho adaptado para o passeio, permitindo que os pets acompanhem seus tutores com conforto durante a visita. Embora a vinícola esteja estruturada para acolher os visitantes nesse formato e permita a circulação, a instituição ressalta que não oferece uma experiência temática ou infraestrutura exclusiva dedicada aos animais. O foco permanece no roteiro tradicional de visitação, agora com a conveniência da acessibilidade para quem não deseja deixar o pet de fora do tour.
Na tradicional rota dos Caminhos de Pedra, a Casa di Pasto Salton resgata as origens da família, que iniciou seus negócios em 1878 justamente como um local de pouso e refeição para viajantes, para oferecer uma das experiências mais inclusivas da região. Diferente de muitos estabelecimentos, o espaço não restringe os animais apenas às áreas externas: os pets são bem-vindos tanto no amplo jardim quanto no aconchegante salão interno e na varanda do andar superior. Essa liberdade de circulação permite que os visitantes desfrutem da gastronomia contemporânea e das experiências sazonais, como brunchs e sunsets, sem abrir mão da companhia de seus animais em qualquer ambiente da casa, consolidando o local como um ponto de parada essencial para quem busca a união entre história familiar e acolhimento pet.
No coração do Vale dos Vinhedos, a Vinícola Miolo opera uma distinção clara em sua hospitalidade: enquanto as normas sanitárias restringem o acesso de animais às áreas de produção da vinícola propriamente dita, o Wine Garden surge como o cenário ideal para o convívio com os pets. Localizado nos jardins da propriedade e ladeado pelos emblemáticos vinhedos do Lote 43, o espaço aposta no conceito de arquitetura efêmera e integração total com a natureza. Neste wine bar a céu aberto, os tutores podem desfrutar de uma seleção de jazz, rock e blues enquanto relaxam em tapetes e pallets espalhados pelo gramado. A estrutura, é totalmente preparada para receber famílias e seus animais de estimação.
A transformação observada nas vinícolas da Serra Gaúcha sinaliza que o enoturismo brasileiro entrou em uma nova fase de maturação. O que antes era visto como um nicho ou um “favor” ao visitante, consolidou-se como um pilar estratégico de hospitalidade.