Os fragmentos minúsculos originados da degradação de materiais plásticos, deixaram de ser apenas um problema ambiental para ocupar o centro de um debate crescente na saúde pública global. Invisíveis a olho nu, essas partículas já foram encontradas na água que bebemos, nos alimentos que consumimos e até no ar que respiramos e, mais recentemente, dentro do próprio corpo humano. Detectados em órgãos como pulmões, sangue e placenta, os microplásticos acendem um alerta entre cientistas, que investigam seus possíveis efeitos inflamatórios, tóxicos e hormonais.

Pesquisas
A preocupação ganhou ainda mais força com a publicação de estudos recentes. Uma pesquisa divulgada em 2024 no New England Journal of Medicine identificou a presença de partículas plásticas em placas ateroscleróticas retiradas de artérias carótidas, associando esse achado a um risco maior de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte em um período de acompanhamento de 34 meses. Já um estudo publicado em fevereiro na revista Nature Medicine detectou microplásticos em órgãos como cérebro, rins e fígado de cadáveres, com predominância de polietileno, material amplamente utilizado em sacolas e embalagens.
O alerta também vem da Organização Mundial da Saúde (OMS), que classifica os microplásticos como contaminantes emergentes. Embora reconheça que as evidências sobre os impactos diretos ainda sejam limitadas, a entidade recomenda mais pesquisas e medidas para reduzir a exposição. Em relatórios recentes, a OMS ressalta que a simples detecção dessas partículas em órgãos humanos já é motivo suficiente para preocupação.
De acordo com a professora Cátia dos Santos Branco, pesquisadora do Instituto de Biotecnologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS), as partículas plásticas estão amplamente disseminadas em diversos ecossistemas. “Não apenas os microplásticos, mas também os nanoplásticos, ou seja, subprodutos da degradação de materiais plásticos em tamanho bastante reduzido, têm sido amplamente reconhecidos pela comunidade científica como um problema ambiental e de saúde global relevante. Isso se deve à sua ampla dispersão no ambiente, o que resulta em exposição contínua de humanos e de outros animais. No caso dos seres humanos, as principais ‘portas de entrada’ incluem ingestão, inalação e contato dérmico, e os principais riscos à saúde incluem disfunções metabólicas, indução de genotoxicidade, estresse oxidativo e processos inflamatórios”, explica.

Como os materiais entram no corpo
A pesquisadora menciona que as partículas entram em diversas vias do corpo, como durante a ingestão de água engarrafada, frutos do mar, bebidas, leite, peixes, sair e vegetais. “Principalmente via cadeia alimentar. Isso se deve ao seu tamanho bastante reduzido”, frisa.
Ela destaca que os microplásticos possuem um tamanho em escala micrométrica, enquanto os nanoplásticos estão em escala nanométrica. “Para se ter uma ideia, na escala ‘micro’ consideramos materiais com dimensões de alguns milímetros (10⁻³ m) até micrômetros (10⁻⁶ m), enquanto a escala ‘nano’ é medida em nanômetros (10⁻⁹ m)”, explica.
Pesquisas recentes mostram que a ampla variedade de vias de exposição facilita a entrada dessas partículas no organismo humano, permitindo que microplásticos e nanoplásticos “driblem” as barreiras naturais de proteção do corpo. Enquanto os microplásticos tendem a interagir de forma mais superficial com as membranas biológicas, os nanoplásticos, ainda menores, apresentam maior capacidade de penetração, atravessando essas estruturas e alcançando o interior das células, onde podem agir de maneira semelhante a biomoléculas e partículas naturais. “Um dos principais efeitos da redução do tamanho dos materiais está associado ao aumento da sua área superficial, que cresce abruptamente ao passarmos de uma escala macro- ou micro- para a nanoescala. Isso faz com que essas nanoestruturas exerçam efeitos biológicos, ou seja, entrem na célula, se depositem em diferentes compartimentos subcelulares e interajam com proteínas, lipídeos e até mesmo com o material genético. Além do tamanho reduzido, sua composição química e a natureza hidrofóbica (ou seja, de repulsão à água) favorecem a interação com as membranas celulares, ricas em fosfolipídios, por meio de diferentes mecanismos de incorporação ou de adesão às células”, menciona.

Cátia dos Santos Branco, professora e pesquisadora da UCS

Efeitos na saúde
Cátia ressalta que, apesar da crescente preocupação com a exposição a micro e nanoplásticos, os efeitos diretos sobre a saúde humana só começaram a ser demonstrados recentemente. “A maior parte das evidências ainda vem de estudos in vitro e in vivo, ou seja, realizados em células cultivadas em laboratório ou em modelos animais. Até o momento, os dados disponíveis na literatura indicam o acúmulo dessas partículas em diversos sistemas do organismo, como o cardiovascular, nervoso, reprodutivo, digestório, respiratório e imunológico”, explica.
Segundo a pesquisadora, órgãos como pulmões e fígado estão entre os mais afetados. “Nesses tecidos, já foram observados efeitos bioquímicos importantes, como a indução de estresse oxidativo, que compromete a homeostase celular e desencadeia processos inflamatórios persistentes”, completa.
Cátia também destaca que os impactos dessas partículas variam conforme o órgão atingido. “No tecido pulmonar, essas alterações podem comprometer a integridade das células epiteliais e afetar a resposta imune local. Já no fígado, estão associadas a disfunções metabólicas e ao prejuízo da capacidade enzimática de desintoxicação do organismo”, explica. Segundo ela, os estudos ainda apontam outros efeitos relevantes, como genotoxicidade, caracterizada por danos ao DNA, além de alterações na divisão e na viabilidade celular, fatores que contribuem diretamente para o comprometimento funcional desses órgãos.

Outras alterações
Além da capacidade de se acumularem no organismo, micro e nanoplásticos também atuam como veículos de substâncias químicas nocivas, ampliando os riscos à saúde humana. De acordo com Cátia, a literatura científica já demonstra que essas partículas podem carregar compostos tóxicos associados à poluição ambiental, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e bifenilos policlorados, conhecidos por seus efeitos prejudiciais ao organismo. “Há evidências de que esses materiais também funcionam como vetores de metais tóxicos, como o chumbo, facilitando sua entrada e dispersão no corpo humano”, explica a pesquisadora.
Ela ressalta ainda que plásticos amplamente utilizados no cotidiano, como o poliestireno e o policloreto de vinila (PVC), presentes principalmente em embalagens, estão frequentemente associados à exposição por ingestão. Segundo Cátia, os impactos dessas substâncias estão ligados a mecanismos já conhecidos de toxicidade. “Entre eles estão a genotoxicidade, que envolve danos ao DNA com potencial de reparo limitado, e a citotoxicidade, caracterizada pela morte celular”, afirma. Dados da Agency for Toxic Substances and Disease Registry, órgão ligado ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, indicam ainda que a exposição a esses compostos pode induzir processos de carcinogênese, reforçando a preocupação com os efeitos de longo prazo.

Estresse oxidativo e inflamação
A interferência de micro e nanoplásticos no sistema imunológico e no equilíbrio hormonal já é alvo de crescente atenção científica. Segundo Cátia, esses efeitos estão diretamente ligados à ativação do estresse oxidativo e de processos inflamatórios crônicos no organismo. “Nosso corpo possui sistemas antioxidantes eficientes, capazes de controlar a produção de radicais livres. No entanto, quando há um excesso dessas moléculas ou falhas nesses mecanismos de defesa, ocorre o chamado estresse oxidativo, um desequilíbrio que torna o organismo mais vulnerável a danos celulares”, explica.
Esse processo desencadeia uma série de reações que pode resultar em lesões nos tecidos e contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas. A inflamação persistente, por sua vez, surge da ativação de mediadores que identificam sinais de dano celular ou a presença de agentes estranhos.

Imunidade e fertilidade
No campo da imunologia, evidências experimentais reforçam essa preocupação. Pesquisas na Environment International demonstram que materiais como o PVC e o poliestireno são capazes de induzir respostas pró-inflamatórias exacerbadas em células do sistema imune, como monócitos e células dendríticas. Outro estudo publicado na Nature identificou a presença de microplásticos na medula óssea, associando esse achado à redução da proliferação e da sobrevivência de células hematopoéticas, responsáveis pela formação dos componentes do sangue. “Esses dados são preocupantes e demonstram a diversidade de efeitos decorrentes da exposição crônica a micro- e nanoplásticos. Quanto aos efeitos no sistema hormonal, algumas pesquisas mostram que essas partículas podem atuar como disruptores endócrinos, alterando a sinalização dos receptores hormonais, resultando em disfunção. Dentre os principais efeitos nos sistemas reprodutivos masculino e feminino mais frequentemente relatados, destacam-se falhas na implantação da gestação e no desenvolvimento embrionário. Em outro estudo publicado na Ecotoxicology and Environmental Safety, as substâncias foram detectados no fluido folicular ovariano de mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida. Os autores sugerem que essas partículas podem alcançar os ovários por meio da corrente sanguínea e interagir no tecido intrauterino, afetando a resposta ao estrogênio e comprometendo a reserva ovariana e a fertilidade feminina”, frisa a pesquisadora.

Grupos vulneráveis
De acordo com a pesquisadora, as substâncias podem impactar diretamente a reprodução humana, e seus efeitos em diferentes ciclos da vida ainda não são completamente conhecidos. “Podemos inferir que, de maneira geral, em crianças, a maior suscetibilidade está relacionada à imaturidade do sistema imunológico e dos órgãos em formação, o que pode resultar em problemas no desenvolvimento e maior vulnerabilidade a doenças no futuro. Já durante a gestação, pode haver impactos no desenvolvimento fetal, uma vez que esses contaminantes podem atravessar a barreira placentária”, aponta.
Cátia chama atenção para a vulnerabilidade de gestantes e crianças diante da exposição a microplásticos, com base em evidências recentes da literatura científica. “Uma revisão sistemática com meta-análise já relatou a presença dessas partículas na placenta, no líquido amniótico e até no mecônio, o que indica que a exposição ocorre ainda durante a gestação”, afirma.
Segundo ela, os dados apontam esse contato precoce como um fator de risco relevante para desfechos adversos, como restrição do crescimento intrauterino e parto prematuro. A pesquisadora destaca ainda que esses resultados são reforçados por outra revisão sistemática, que identificou múltiplos efeitos biológicos associados, incluindo a embriotoxicidade dos microplásticos. “Quando olhamos em perspectiva, fica claro que tanto gestantes quanto crianças são públicos vulneráveis, e que a ciência ainda precisa avançar com estudos de base populacional para compreender melhor os impactos dessa exposição”, analisa.

Tecnologias desenvolvidas
Diante deste cenário, há algumas estratégias que estão sendo implementadas. “Como a ultra/nanofiltração, o uso de nanomateriais adsorventes, que podem ajudar a atrair e reter essas partículas, entre outras. Na biotecnologia, por exemplo, podemos usar bactérias, fungos e até mesmo enzimas específicas capazes de degradar determinados polímeros. Esta é uma área de pesquisa fascinante e muito alinhada às atuais demandas por soluções tecnológicas para problemas ambientais importantes, como é o caso da chamada ‘pandemia dos plásticos’”, aponta.

Orientações
Cátia menciona que o uso consciente deste material é de suma importância. “Devemos reduzir ao mínimo possível, bem como a substituição gradativa desses insumos, fazendo escolhas mais perspicazes e ambientalmente responsáveis, como beber água da torneira (preferencialmente filtrada), o reuso de garrafas de água não plásticas, evitar saquinhos de chá de material sintético, usar metal ou vidro para armazenar alimentos e evitar aquecer alimentos em plástico, são alguns exemplos”, orienta.

Cuidados com a água
A professora frisa que filtros de osmose reversa podem ser bastante eficazes na retenção dessas substâncias, devido ao tamanho reduzido dos poros de suas membranas. “O preço destes é mais elevado, mas eles são os mais indicados”, destaca.
Além de soluções mais avançadas, como sistemas de filtragem específicos, há alternativas acessíveis que podem contribuir para a redução da exposição a microplásticos no dia a dia. Filtros de cerâmica e de carvão ativado, por exemplo, podem ajudar na retenção de partículas, embora sua eficácia dependa do tamanho dos poros, geralmente maiores do que os encontrados em membranas de osmose reversa. Especialistas alertam ainda que ferver a água não elimina os microplásticos e, em alguns casos, pode até aumentar sua concentração, reforçando a necessidade de estratégias mais eficazes de prevenção.

Alternativas possíveis
Na academia, a pesquisa científica tem desempenhado um papel importante nesse movimento. No Programa de Pós-graduação em Biotecnologia da Universidade de Caxias do Sul, por exemplo, estudos têm se dedicado ao desenvolvimento de novos polímeros biodegradáveis, utilizando biomassa vegetal e até resíduos agrícolas como matérias-primas.
Um dos projetos do Laboratório de Estresse Oxidativo e Antioxidantes da instituição investiga a criação de biofilmes à base de resíduos agrícolas locais, destinados ao uso em embalagens de alimentos. “Esses avanços demonstram como a ciência pode oferecer soluções biotecnológicas à indústria, contribuindo para a redução do consumo de plásticos e, consequentemente, minimizando os riscos de exposição crônica à população”, finaliza a pesquisadora.