Há quase cinco anos, a perda da visão mudou completamente a rotina de Eva de Fátima Nunes, moradora de Bento Gonçalves. O que poderia representar um ponto final para muitos projetos tornou-se o início de uma nova trajetória. Com determinação, ela encontrou na produção de doces e salgados uma forma de empreender, conquistar independência e mostrar que desafios podem ser transformados em oportunidades.
O recomeço não foi uma novidade para quem já possuía experiência no empreendedorismo. Natural de Lajeado, Eva chegou a Bento Gonçalves ainda na infância e, antes da perda da visão, administrava um brechó. “Eu sou natural de Lajeado e vim para Bento com dois anos. Antes de eu perder a minha visão, eu tinha um brechó”, conta.
A mudança aconteceu de forma inesperada. “Eu dormi enxergando e acordei cega”, lembra. Diagnosticada com glaucoma, ela atribui a perda da visão a uma reação a um medicamento utilizado durante o tratamento. Apesar do choque inicial, encontrou forças para seguir em frente. “Demorou cerca de três meses para eu perceber que a vida continua”, relata.
Eva destaca que o apoio da família foi fundamental durante o processo de adaptação à nova realidade. Segundo ela, o marido Lucas de Camargo Cardoso teve papel decisivo nesse período, oferecendo acolhimento e incentivo nos momentos mais difíceis. “Ele não desistiu de mim. Fica tão feliz quando eu faço as minhas coisinhas. Ele faz de tudo para me ver bem. Investe, compra as coisas para mim”, conta. Além do marido, Eva tem dois filhos, Kauan Nunes Padichello e Bruna Nunes da Silva, que estiveram ao seu lado durante todo o processo.
Foi durante um momento de dificuldade em seu antigo brechó que uma amiga a incentivou a olhar para a própria capacidade de seguir em frente, mesmo diante da perda da visão. Embora reconheça a importância daquele conselho, Eva afirma que o processo de aceitação ainda levou algum tempo.
Após perder a visão, ela enfrentou um período de tristeza e dependência dentro de casa. Segundo relata, o marido assumia as tarefas domésticas enquanto ela passava os dias tentando lidar com a nova realidade. No entanto, um momento de reflexão marcou o início de uma mudança em sua trajetória. “Eu pensei: ‘Mas peraí, eu estou sentada, tenho duas pernas, tenho dois braços. Bora levantar e fazer alguma coisa’”, lembra.

O primeiro desafio foi encarar uma pia cheia de louças. Aos poucos, percebeu que era capaz de realizar as tarefas domésticas. No mesmo dia, preparou uma série de alimentos, entre eles pudim, mousse, croquetes e risoles. A reação do marido ao chegar em casa foi de surpresa diante da quantidade de pratos que haviam sido preparados.
A partir daquela experiência, ela recuperou a autoestima e a convicção de que poderia seguir em frente apesar da deficiência visual. “Eu consigo, eu posso, eu sou capaz”, resume. Para Eva, a superação da depressão e a retomada da autonomia foram fundamentais para reconstruir a própria vida e mostrar que a perda da visão não significava o fim dos seus sonhos.
Da superação ao empreendedorismo
A força de vontade chamou a atenção da filha, que a incentivou a participar de um curso de culinária promovido pelo Instituto Mix. Inicialmente, Eva hesitou. “No primeiro dia não me senti bem, não tinha força nem para levantar da cama. Eu disse para minha filha: ‘Vai você, porque eu não vou mais’. Mas no segundo dia ela insistiu. Disse que eu era capaz, que fazia comidas gostosas e que deveria tentar. Então eu fui”, relembra.
Ao chegar ao curso, encontrou acolhimento e apoio. “Todo mundo me tratou com naturalidade. Claro que me ajudavam quando era necessário”, destaca. No local, chamou a atenção do professor pela determinação e pela habilidade em executar as atividades propostas, mesmo possuindo apenas 5% da visão.
Em uma das aulas, enquanto alguns participantes demonstravam dificuldades para realizar uma tarefa, o professor utilizou seu exemplo para incentivar a turma. “Ele disse: ‘Peraí, eu tenho uma moça aqui com 5% de visão e vocês estão reclamando?’. Então eu pedi uma massa, fiz a bolinha, abri a massa e coloquei o recheio. Mostrei que conseguia fazer”, relata.
Segundo Eva, o curso teve papel fundamental em seu processo de aprendizado e autonomia, permitindo que desenvolvesse habilidades que antes não faziam parte de sua rotina. Entre as receitas aprendidas estão brigadeiros, rocamboles, cupcakes, pizzas, coxinhas, risoles e croquetes. “A gente aprendeu muito lá”, afirma.
O conhecimento adquirido despertou nela a vontade de transformar a nova habilidade em uma fonte de renda. Incentivada pela família, decidiu começar a oferecer os produtos para amigos e conhecidos. “Eu disse para minha filha: ‘Vou começar a vender para as pessoas verem que eu consigo’”, conta.
Após iniciar a produção dos salgados, Eva compartilhou o trabalho com a Associação Anjos Unidos, entidade da qual participa há quase nove anos. Segundo a presidente da associação, Susana Comparim, o retorno foi imediato. “Temos um grupo grande de WhatsApp da Anjos Unidos e começamos a divulgar o trabalho dela. As pessoas passaram a fazer pedidos e, aos poucos, um cliente foi indicando para o outro. Também divulgamos nas redes sociais e o trabalho foi crescendo”, relata Susana.
Hoje, Eva é responsável por praticamente todo o processo de produção, desde o preparo dos ingredientes até a montagem dos salgados. O marido auxilia na etapa da fritura. “Lucas é a pessoa que mais me incentiva. Quando eu faço meus salgados, ele chega e diz: ‘Amor, que lindo que está isso. Está muito gostoso’”, conta.
Mensagem de esperança
Para Eva, demonstrar que é possível superar desafios e reconstruir a própria trajetória é uma forma de incentivar outras pessoas que enfrentam dificuldades. “Para elas verem que a vida não acabou. A gente consegue, sim. Somos capazes porque Deus está conosco. Eu queria dizer para as pessoas não desistirem. Eu sei que muita gente está passando por situações difíceis, mas, primeiramente, se apeguem a Deus. Ele me capacitou e me deu força para continuar. E eu estou feliz porque sei que estou fazendo uma coisa que gosto, com carinho, amor e muito capricho”, destaca.
Sonhos e projetos
Eva afirma que seu principal objetivo é se consolidar como confeiteira e ampliar o próprio negócio. Para isso, busca conquistar espaço no mercado e investir em equipamentos que possam melhorar a produção e facilitar o trabalho no dia a dia. “Eu quero comprar meu micro-ondas, uma fritadeira, um freezer pequeno, que eu preciso para guardar minhas coisinhas, e também o meu fogão”, conta.
Além de expandir o trabalho na confeitaria, Eva cultiva um novo sonho: compartilhar sua história para ajudar outras pessoas.“Eu gostaria muito de dar palestras para pessoas que estão em depressão. Quero contar um pouco da minha história. Eu quero ajudar aquelas pessoas que pensam que a vida acabou. Meu sonho é sentar em um grupo com pessoas que estão numa depressão profunda ou enfrentam problemas com drogas e álcool”, afirma.
Enquanto busca adquirir equipamentos para ampliar a produção, Eva segue construindo novos projetos. Ela acredita que sua experiência pode servir de inspiração para quem enfrenta momentos difíceis. “Se eu consegui superar a perda da visão, outras pessoas também podem superar os desafios que enfrentam”, ressalta.
Eva destaca que qualquer apoio é bem-vindo para ajudá-la a continuar desenvolvendo seu trabalho na produção de doces e salgados. Pessoas interessadas em contribuir podem entrar em contato com a Associação Anjos Unidos, que acompanha sua trajetória e auxilia na divulgação de suas iniciativas. No momento, uma das principais necessidades é a aquisição de um fogão, equipamento considerado essencial para ampliar a produção e fortalecer sua fonte de renda.