Entre vinhedos, pequenas propriedades rurais, empreendimentos familiares e tradições preservadas há gerações, o distrito de Tuiuty segue construindo sua história. Localizado no interior de Bento Gonçalves, a cerca de 11 quilômetros da área urbana, o distrito combina características típicas da vida comunitária do interior com desafios que ainda persistem após os eventos climáticos de 2024.
Criado oficialmente em 23 de novembro de 1971, Tuiuty possui atualmente cerca de 3,5 mil habitantes distribuídos em 12 comunidades. A origem da localidade está diretamente ligada à imigração italiana iniciada em 1875, quando famílias vindas da região do Tirol se estabeleceram às margens do Rio das Antas e formaram a comunidade Addolorata, primeiro nome dado ao distrito.
A viticultura continua sendo a principal atividade econômica da região, mas o desenvolvimento local também é sustentado por vinícolas, agroindústrias, empreendimentos familiares e por um importante polo moveleiro instalado em dois distritos industriais.
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas nos últimos anos, moradores e empreendedores destacam a qualidade de vida, a tranquilidade e o sentimento de pertencimento como características que mantêm viva a identidade da comunidade.
Tranquilidade do interior e os desafios da mobilidade
Nascida e criada em Tuiuty, a empresária Aline Pertile, de 45 anos, acompanha diariamente a rotina da comunidade. À frente de um mercado familiar fundado há 58 anos, ela destaca que a proximidade entre as pessoas continua sendo uma das principais características do distrito.
Segundo Aline, a oferta de empregos e a presença de serviços essenciais tornam a localidade atrativa para quem deseja viver fora do centro urbano. “Aqui todo mundo se conhece. É um lugar tranquilo, seguro e com boa qualidade de vida. Temos escola, posto de saúde, mercado e oportunidades de trabalho em diversas empresas da região. Além disso, estamos relativamente próximos da cidade”, explica.
Apesar dos pontos positivos, a mobilidade continua sendo uma das maiores preocupações dos moradores. As obras de reconstrução da BR-470, especialmente no trecho da Serra das Antas, ainda exigem bloqueios e sistemas de comboio em determinados horários.
A situação afeta diretamente a rotina de quem vive e trabalha no distrito. Conforme relata Aline, muitos moradores precisam alterar trajetos diariamente para conseguir acessar suas residências. “Em determinados horários se formam filas e muitas pessoas acabam procurando rotas alternativas. Isso afeta a vida de quem mora aqui, de quem trabalha e também dos visitantes”, lamenta.
Ela afirma que os reflexos vão além dos deslocamentos. “Os ônibus que antes atendiam comunidades mais distantes hoje não chegam mais a alguns pontos. Algumas pessoas precisaram até mudar para a cidade porque o deslocamento ficou muito difícil”, destaca.
A avaliação é compartilhada pelo subprefeito de Tuiuty, Tiago João Coser. Segundo ele, embora a recuperação das estradas tenha evoluido significativamente desde as enchentes de 2024, as obras na rodovia ainda impactam a rotina local. “O trabalho de reconstrução das vias avançou bastante, mas as intervenções na rodovia continuam provocando restrições que dificultam o deslocamento de moradores, trabalhadores e turistas”, observa.
Comércio sente redução no fluxo de visitantes
Os impactos da situação viária são percebidos especialmente pelos empreendimentos localizados às margens da rodovia. Há cinco anos administrando uma tradicional tenda familiar na região, Amanda Vanessa Lamb Vigo afirma que o negócio, cuja história ultrapassa três décadas, ainda sente os reflexos das enchentes. Segundo ela, a estrutura ficou fechada durante cerca de quatro meses após os eventos climáticos de 2024. Mesmo após a retomada das atividades, a movimentação segue abaixo do registrado anteriormente. “Hoje percebemos uma redução muito significativa no movimento. Muitas pessoas deixam de parar porque têm receio de perder o horário de passagem ou enfrentar filas”, aponta.
Amanda explica que a queda no fluxo de visitantes afeta diretamente as vendas. “Nós trabalhamos todos os dias, mas o impacto continua sendo grande. O domingo acaba sendo o melhor dia porque normalmente não há restrições de trânsito”, explica. Apesar das dificuldades, ela acredita na recuperação econômica da região. “Quando as obras terminarem, a tendência é que o movimento volte ao normal. O potencial continua existindo”, projeta.
A percepção é semelhante à de Aline, que também observa mudanças no comportamento dos consumidores. “Muitos clientes deixaram de vir porque não querem depender dos horários dos comboios. Como não existe uma previsão clara para o término das obras, algumas pessoas acabaram mudando seus hábitos”, pontua.
Um distrito que cresceu e continua atraindo investimentos
Mesmo diante das dificuldades logísticas, empreendedores seguem apostando no potencial da região.
Há 17 anos à frente de um empreendimento familiar instalado em Tuiuty, Giovana Giacomin destaca que a transformação do distrito pode ser percebida por quem acompanha sua evolução ao longo do tempo.
Segundo ela, a região cresceu significativamente nas últimas décadas. “É um lugar muito acolhedor, tranquilo e cercado pela natureza. Quem vem para cá encontra uma realidade diferente da correria da cidade. Existe uma relação muito próxima entre as pessoas”, descreve.
Embora considere a logística um desafio pontual, Giovana acredita que a infraestrutura melhorou nos últimos anos. “Algumas entregas ainda enfrentam dificuldades porque muita gente acredita que a região é distante. Mas isso mudou bastante. Hoje temos uma estrutura econômica importante instalada aqui”, salienta.
A empresária também vê oportunidades para novos investimentos. “Tuiuty tem muito futuro. É uma região que cresceu bastante e continua apresentando potencial”, afirma.
Turismo encontra potencial, mas busca maior integração
Se existe um consenso entre moradores e empreendedores, ele está relacionado às oportunidades turísticas ainda pouco exploradas.
Com paisagens naturais, forte herança cultural italiana e experiências ligadas ao meio rural, Tuiuty é frequentemente apontado como uma das regiões com maior potencial turístico do interior de Bento Gonçalves.
Para o subprefeito, o distrito reúne atrativos capazes de impulsionar o setor nos próximos anos. Além das vinícolas e dos empreendimentos ligados à gastronomia e à hospedagem, ele destaca a importância do Centro Cultural Tuiuty como espaço de preservação da memória e das tradições locais. Ainda assim, moradores acreditam que o turismo poderia avançar mais rapidamente.
Aline acompanha essa discussão há décadas. Segundo ela, diversas iniciativas surgiram ao longo dos anos, mas poucas conseguiram se consolidar. “Já faz muitos anos que se fala em desenvolver o turismo aqui. Existem empreendimentos importantes, mas ainda falta uma integração maior entre eles”, avalia.
Na análise da empresária, algumas localidades da Serra Gaúcha conseguiram fortalecer sua identidade turística a partir da atuação conjunta de lideranças e empreendedores. “Talvez falte alguém que consiga reunir as iniciativas e ajudar a construir um projeto comum”, pondera.
Giovana também entende que o potencial existente ainda não é plenamente aproveitado. “A região é linda, rica em natureza e cultura. Tem muito mais para oferecer do que as pessoas imaginam. Acho que ainda existe espaço para explorar melhor tudo isso”, afirma.

Patrimônio afetivo e cultural
Poucos símbolos representam tão bem a identidade de Tuiuty quanto a tradicional Torta Tirolesa.
Trazida pelos imigrantes italianos que colonizaram a região, a receita atravessou gerações e permanece presente nas celebrações comunitárias até os dias atuais. Embora tenha origem histórica na região do Tirol, a Torta Tirolesa é reconhecida oficialmente como doce típico do distrito de Tuiuty e possui registro de patente, consolidando-se como um dos principais patrimônios culturais da localidade.
Moradora da localidade há cerca de 50 anos, Nedir de Oliveira Gomes lembra que aprendeu a preparação ainda na infância. “Aprendi com a minha mãe e com minhas tias. Faz muito tempo que essa tradição existe por aqui”, conta.
Ao longo dos anos, a torta passou a ocupar espaço central nas festas religiosas das comunidades.
Segundo Helena Trevisan Tomasi, moradora da região desde o nascimento, a produção continua sendo um trabalho coletivo. “Quando acontece a festa, um grupo grande de mulheres se reúne durante vários dias para preparação. É uma tradição muito bonita que continua sendo mantida”, destaca.
O preparo ocorre em forno a lenha comunitário e mobiliza dezenas de voluntárias.
Além da função gastronômica, a atividade tornou-se uma forma de preservar conhecimentos transmitidos entre gerações. Para Valdete Peruzzo, que vive em Tuiuty há 10 anos, a tradição representa uma das principais formas de valorização da cultura italiana. “A torta é apenas uma parte de algo maior”, descreve.
Música, memória e identidade italiana
A preservação cultural também encontra espaço na música.
Aos 82 anos, Juraci de Mozzi Andreis continua sendo uma das principais referências na manutenção das tradições italianas em Tuiuty. Moradora da região desde o nascimento, ela participou da criação de grupos voltados à valorização da música típica italiana.

Uma das iniciativas começou há cerca de 30 anos, quando propôs que os integrantes de um grupo comunitário passassem a ensaiar canções trazidas pelos imigrantes. “Na época algumas pessoas acharam que não daria certo. Mas insistimos e o grupo continuou”, conta.
Com o passar dos anos, as apresentações passaram a integrar eventos culturais, festas comunitárias e programações ligadas à imigração italiana. Atualmente, Juraci participa de dois grupos musicais que seguem levando canções tradicionais para diferentes públicos. Segundo ela, a forte presença de descendentes de imigrantes vindos da região do Tirol ajuda a explicar a permanência de costumes que atravessam gerações. “A cultura italiana continua muito presente na comunidade. Isso aparece na música, na comida, nas festas e também na forma como as pessoas convivem”, destaca.
Futuro depende de infraestrutura e permanência dos jovens
Embora Tuiuty mantenha uma economia diversificada e apresente novos investimentos ligados ao turismo e à vitivinicultura, a permanência das novas gerações ainda é vista como um desafio.
Aline observa que algumas famílias têm buscado criar oportunidades para que filhos e netos permaneçam no interior, especialmente por meio de pequenas vinícolas e negócios familiares. Entretanto, o movimento ainda é considerado tímido. “Existem iniciativas interessantes, mas muitos jovens continuam saindo em busca de outras oportunidades. Isso ainda acontece bastante”, explica.
A empresária acredita que fatores econômicos, dificuldades estruturais e transformações sociais ajudam a explicar esse cenário. Ao mesmo tempo, ela ressalta que o distrito continua oferecendo características valorizadas por quem escolhe viver no interior. “Mesmo com os desafios, ainda é um lugar com qualidade de vida, segurança e uma comunidade muito unida”, conclui.