Terça-feira, 30 de Junho de 2026

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O DNA da carreira: como a genética e o ambiente moldam as escolhas profissionais

A escolha de uma carreira profissional, tradicionalmente associada a fatores como influência familiar, condição socioeconômica e oportunidades de mercado, ganha uma nova camada de análise com o avanço da ciência: a herança genética. Estudos recentes na área da genética comportamental indicam que o DNA exerce um papel significativo, ainda que indireto, na inclinação dos indivíduos para determinadas profissões, ao moldar traços de personalidade, habilidades cognitivas e a tolerância ao risco.

Um estudo liderado por pesquisadores da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, em Nova Iorque, analisou dados de mais de 400 mil trabalhadores no Reino Unido e nos Estados Unidos. Os resultados apontam que variantes genéticas ligadas a traços neuropsiquiátricos específicos mostram correlação com a escolha de determinadas carreiras. Profissionais das áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), por exemplo, apresentam maior correlação genética com traços do espectro autista, enquanto profissionais do setor criativo, como artistas e designers, manifestam maior predisposição genética para variações de humor e outras condições de saúde mental.

Uma pesquisa realizada na Alemanha, que acompanhou centenas de pares de gêmeos, reforça que as diferenças individuais no quociente de inteligência (QI), no nível educacional e, consequentemente, no sucesso profissional e na renda possuem forte componente hereditário. O estudo aponta que jovens com maior predisposição genética para habilidades cognitivas complexas enfrentam menor resistência para concluir etapas acadêmicas competitivas e ingressar em ocupações que exigem raciocínio abstrato e tomadas de decisão de alta complexidade. Adicionalmente, investigações baseadas nos dados do UK Biobank estimam que a herdabilidade para a escolha de carreiras científicas e tecnológicas gira em torno de 4,2%, índice semelhante ao de traços comportamentais como a liderança.

Claiton Henrique Dotto Bau, Professor Titular do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica como a biologia e o meio social se entrelaçam na definição do futuro profissional. O pesquisador, que atua como orientador nos programas de pós-graduação em Genética e Biologia Molecular e em Psiquiatria e Ciências do Comportamento, além de dirigir o Museu da Genética / Memorial Francisco Mauro Salzano, detalha os consensos metodológicos, os limites conceituais e os desafios éticos da genética comportamental.

Claiton Henrique Dotto Bau

A influência indireta dos genes

Ao analisar em que medida a área já consegue demonstrar o impacto biológico na formação de interesses, Bau aponta que os elementos psicológicos herdados atuam como uma base maleável, e não como um roteiro pré-definido. “De maneira geral, as características psicológicas já avaliadas em estudos que comparam gêmeos idênticos e fraternos evidenciaram resultar de uma mistura de fatores genéticos e do ambiente. Nesse sentido, não são diferentes a personalidade, diferentes habilidades cognitivas e fatores emocionais, que são correlacionados com a escolha das profissões”, explica.

O professor reforça que o compartilhamento de aptidões é visível em familiares, mas ressalta o peso da realidade social na consolidação dessas tendências. “Há estudos demonstrando que pessoas geneticamente mais semelhantes tendem a compartilhar mais determinados interesses e vocações. No entanto, a escolha prática e concreta da profissão sofre também influência de oportunidades e nível socioeconômico. Portanto, a genética apresenta sobretudo uma influência indireta nas trajetórias profissionais”, afirma.

O consenso da complexidade poligênica

A engenharia por trás do comportamento humano afasta-se de explicações simplistas de causa e efeito. Diante dos principais consensos científicos sobre o quanto traços comportamentais e aptidões são herdáveis, Bau reforça o caráter coletivo dos genes. “Há consenso de que são características multifatoriais. Por um lado, é clara a presença de uma genética complexa e poligênica, demonstrada por décadas de estudos com gêmeos, famílias e grandes varreduras genômicas. Também há forte evidência de fatores do ambiente. É importante mencionar que, em genética de traços complexos, herdabilidade não significa uma transmissão direta de pais para filhos. As variações genéticas influenciam essas características, mas como resultado de milhares de elementos dos genomas paterno e materno combinados”, argumenta o diretor. Indagado se essa dinâmica pode direcionar alguém para exatas, artes ou ciências sociais, ele é categórico. “Sim, mas de forma indireta. Os genes não definem exatamente as profissões. Eles atuam em características que tendem a influenciar a escolha e a adaptação das pessoas a determinadas profissões”, salienta.

Grandes consórcios genômicos

A evolução das ferramentas de pesquisa transformou a maneira como a ciência isola o que pertence à biologia e o que decorre do meio social. Bau recorda as metodologias clássicas e descreve a transição para a era dos dados em larga escala. “Historicamente, por meio de modelos estatísticos que estimam os efeitos genéticos e ambientais, sobretudo derivados de estudos com gêmeos monozigóticos (idênticos) e dizigóticos (fraternos), estudos de adoção, ou comparações entre parentes com diferentes graus de parentesco. Atualmente, predominam os grandes estudos genômicos, muitas vezes em consórcios internacionais, que comparam milhares de pessoas com ou sem determinadas características”, relata.

Embora o acompanhamento de núcleos familiares permaneça no centro da pesquisa científica, as novas ferramentas moleculares oferecem um refinamento estatístico sem precedentes. “Continuam sendo fundamentais, mas hoje são complementados por estudos de associação genômica ampla (GWAS), e, a partir desses, várias formas de análise derivadas, que incluem escores poligênicos, correlações genômicas, randomização mendeliana e outras abordagens”, detalha o pesquisador.

O perigo do determinismo biológico

A tradução de conceitos científicos para o senso comum frequentemente esbarra em distorções conceituais graves. Bau manifesta forte preocupação com o uso inadequado do termo predisposição. “Esse é um equívoco comum, infelizmente. Herdabilidade não significa inevitabilidade. A predisposição genética significa que a genética está associada à variabilidade que há entre as pessoas com relação à característica em questão. Dito dessa forma, fica claro que não é uma simples determinação”, alerta.

Para ilustrar como fatores ambientais e avanços civilizatórios podem transformar condições biológicas rígidas, o professor recorre a condições de saúde e de desenvolvimento humano muito conhecidas da população. “Portanto, um traço pode ser altamente influenciado pela variabilidade genética e ainda assim ser profundamente influenciado por educação, estilo de vida, ou outros fatores. Miopia, altura e dislexia são exemplos clássicos: possuem forte componente genético, mas, por outro lado, as mudanças de estilo de vida, universalização do ensino e outras alterações ambientais nos últimos séculos também tiveram e têm uma relevância imensa”, pondera.

A ilusão do livre arbítrio absoluto

As descobertas que apontam para uma base biológica do comportamento provocam debates profundos também nas ciências humanas, afetando a noção de escolha independente. “O tema do livre arbítrio não tem uma resposta simples, sendo debatido sob várias perspectivas, nas áreas da neurociência e filosofia. No caso da escolha profissional, também depende da perspectiva”, analisa Bau.

O pesquisador situa a tomada de decisão no limite entre os impulsos internos e a autonomia do indivíduo perante a própria biologia. “Por um lado, as características constitutivas do indivíduo influenciam (parcialmente) a sua personalidade, cognição e emoções, e, a partir disso, também as suas escolhas profissionais. Por outro lado, nem sempre as escolhas refletem um conjunto específico de tendências, havendo, sim, liberdade para a definição. Portanto, o que alguns teóricos gostam de ressaltar é que essa liberdade seria relativa, uma vez que tendências biológicas exercem influências indiretas”, expõe.

O papel da educação na modulação do DNA

Se os genes determinam o ponto de partida, a estrutura social define o ponto de chegada. Bau esclarece que o ambiente detém o poder de silenciar ou amplificar as tendências naturais de um indivíduo. “As consequências de uma predisposição genética podem ser potencializadas, reduzidas ou até neutralizadas por fatores ambientais. A herdabilidade é um conceito bastante complexo e relativo, que reflete a parcela da variabilidade de uma característica, em uma população, que é explicada pela variabilidade genética. Portanto, não se aplica a um indivíduo em particular, apenas a uma população”, esclarece.

A necessidade de políticas públicas e de acesso universal ao ensino básico ganha sustentação científica quando se observa o desperdício de potenciais biológicos em contextos de vulnerabilidade social. “Assim, determinadas especificidades individuais podem ter um efeito muito maior do que a predisposição inicial. Um exemplo seria o das habilidades para a leitura ou matemática. Uma criança com elevada predisposição para bom desempenho nessas habilidades dificilmente seguirá uma carreira científica ou acadêmica se não tiver acesso adequado à educação básica. Assim, as tendências iniciais podem ser fortemente influenciadas pela presença ou ausência de oportunidades, treinamentos ou outros fatos relevantes”, adverte o professor.

Limitações geográficas

Outro obstáculo para a consolidação de teorias globais sobre a genética do comportamento reside na centralização geográfica das pesquisas. “Na genética do comportamento humano, como um todo, há sim diferenças populacionais, que envolvem variações em frequências gênicas e em contextos culturais. Porém, a maior parte da variação observada, por exemplo, em personalidade, inteligência e interesses, ocorre dentro das populações, não entre elas”, observa.

O especialista adverte que a transposição de dados obtidos em países desenvolvidos para a realidade de nações em desenvolvimento exige extrema cautela, sob o risco de se cometerem erros de interpretação histórica. “Além disso, a literatura ainda é fortemente baseada em amostras de ancestralidade europeia, o que limita generalizações amplas. Por fim, diferenças observadas entre populações frequentemente refletem também diferenças ambientais e históricas, o que torna interpretações genéticas por vezes delicadas ou até mesmo impossíveis”, afirma.

Desafios éticos

A barreira na comunicação de conceitos abstratos surge como o principal desafio para a aplicação prática dos conhecimentos da genética comportamental na formulação de diretrizes pedagógicas. “O grande desafio é que o entendimento dos vetores da variabilidade no comportamento, tanto genéticos como do ambiente, é bastante complexo e raramente abordado durante o ensino médio”, lamenta Bau.

O desconhecimento de noções básicas de biologia humana favorece a disseminação de discursos ideológicos extremistas que prejudicam o desenvolvimento social. “Temas como herança multifatorial, herdabilidade, descompasso evolutivo e interações entre genes e ambiente, quando não compreendidos, deixam o espaço aberto para imaginar que a genética do comportamento representa um determinismo simplista. Esse desconhecimento favorece tanto interpretações deterministas da genética quanto interpretações exclusivamente ambientalistas”, analisa o diretor.

O geneticista conclui alertando para as consequências psicossociais dessas visões distorcidas. “Em ambos os casos, abre espaço para culpa, estigma, preconceito, negacionismo científico e, em algumas situações, para um fatalismo e naturalização do sofrimento psíquico”, encerra Bau.

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