A deriva de herbicidas hormonais deixou de ser um problema pontual para se tornar uma ameaça permanente à vitivinicultura do Rio Grande do Sul. É o que revela um estudo, apresentado pelo Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), que estima prejuízos de R$ 210 milhões entre 2018 e 2025, considerando perdas de produção, custos de recuperação e renovação de vinhedos. A pesquisa foi viabilizada pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FEENG) e executada por pesquisadores do IFRS Campus Bento Gonçalves.
O que é?
Herbicidas são produtos utilizados para controlar plantas daninhas nas lavouras. A deriva ocorre quando um desses produtos, aplicado em uma propriedade, ultrapassa os limites da área de pulverização e atinge cultivos vizinhos. Esse deslocamento pode acontecer durante a aplicação, por pequenas gotas levadas pelo vento, ou posteriormente, dependendo das características do produto e das condições ambientais. Temperatura, umidade, velocidade do vento e tecnologia de aplicação influenciam diretamente esse processo.
Entre os produtos que mais preocupam está o 2,4-D, um herbicida hormonal que interfere no crescimento das plantas. A videira é especialmente sensível a esse tipo de produto e pode apresentar sintomas mesmo quando exposta a quantidades muito pequenas. Os danos costumam aparecer como deformações e enrolamento das folhas, comprometimento das brotações, perda de vigor e redução da produtividade. “Uma quantidade relativamente pequena que alcance um vinhedo pode comprometer o desenvolvimento da planta. Dependendo da intensidade e da frequência das exposições, os efeitos podem durar vários anos”, explica a coordenadora do estudo, professora Shana Sabbado Flores.
Dimensão do problema
A pesquisa foi feita a partir da análise de mais de 400 ocorrências registradas de deriva no estado, complementadas por entrevistas com produtores, georreferenciamento e projeções econômicas. O estudo estima que aproximadamente 700 hectares de vinhedos tenham sido diretamente afetados entre 2018 e 2025. Mas, os pesquisadores consideram que a dimensão do problema pode ser maior devido à subnotificação dos casos.
Muitos produtores deixam de formalizar denúncias por dificuldades para comprovar a origem da deriva, pelos custos envolvidos ou pelo receio de conflitos com propriedades vizinhas. “Os registros oficiais mostram a parte documentada do fenômeno, mas provavelmente não representam todas as ocorrências”, observa Shana.
A maior concentração de casos aparece em regiões onde a vitivinicultura convive com sistemas agrícolas extensivos que utilizam herbicidas hormonais, como Campanha Gaúcha, Região Central, Serra do Sudeste, Campos de Cima da Serra, Planalto, Missões e, de forma mais pontual, Serra Gaúcha.
Serra tem menor incidência
Na avaliação de Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, a menor ocorrência de casos na Serra está relacionada à ausência de grandes áreas de cultivo de soja no entorno dos principais municípios produtores de uva. Segundo ele, não foram identificados registros do problema em Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias do Sul, Flores da Cunha, São Marcos e Nova Roma do Sul, embora existam relatos mais próximos nos Campos de Cima da Serra, como em Campestre da Serra.
A situação, porém, gera preocupação pela proximidade entre áreas de cultivo de soja e vinhedos em municípios do entorno. Postal cita Veranópolis, Cotiporã, Guaporé e Dois Lajeados como locais onde as duas atividades agrícolas estão presentes, o que aumenta a possibilidade de exposição de culturas sensíveis aos herbicidas hormonais. “É uma preocupação grande, sim. Não só com a uva, porque existem outras culturas que também são sensíveis. No nosso caso, a preocupação é com a uva, mas outras regiões do Estado preocupam bastante, principalmente os parreirais e as oliveiras”, afirma Postal.
Danos que se acumulam
A engenheira agrônoma Aline Fogaça, que administra uma vinícola familiar na região central do estado, relata que os primeiros sinais surgiram ainda em 2014, justamente durante a expansão dos vinhedos.
As mudas recém-plantadas não conseguiam se estabelecer e, posteriormente, os sintomas passaram a aparecer também nas videiras adultas. Em 2019, um laudo laboratorial confirmou a presença de 2,4-D nas folhas. “Depois de mais de dez anos de exposições recorrentes, hoje observamos um processo de declínio do vinhedo, inclusive com morte de plantas”, relata.
Segundo ela, aproximadamente oito hectares foram afetados. Ao longo desse período, a propriedade tentou implantar novos vinhedos e plantou mais de 10 mil mudas, sem conseguir consolidar as novas áreas.
Deriva freia novos investimentos
A recuperação dos vinhedos, segundo Aline, tornou-se praticamente inviável diante das exposições repetidas. Além do custo com preparo do solo, implantação, mão de obra e reposição de mudas, há perdas que não conseguem ser recuperadas financeiramente. “O maior prejuízo não está apenas no valor das mudas, mas nos anos de produção que deixam de existir”, aponta.
A situação se agravou a partir da safra de 2023, quando os episódios passaram a ocorrer diversas vezes entre outubro e janeiro, período considerado fundamental para o desenvolvimento da videira. Diante desse cenário, a vinícola decidiu interromper novos investimentos. “Não implantaremos mais nenhum hectare de videira enquanto esse problema não for efetivamente resolvido”, afirma Aline.
Em uma vinícola localizada em Sant’Ana do Livramento, a produtora Rosana Wagner, que atua na propriedade desde 2001, também convive com o problema há mais de uma década. Embora os primeiros sinais tenham surgido em 2014, as perdas mais severas apareceram recentemente. Em 2024, a produção caiu para 50% do volume habitual. Na safra seguinte, a redução foi de 38%. “O impacto maior aconteceu porque é um produto que vai se acumulando”, explica.
A propriedade possuía 20 hectares de vinhedos e precisou eliminar cinco hectares, equivalente a 25% da área cultivada.
Diferentemente de outros casos, Rosana afirma conseguir identificar a provável origem da deriva. “Eu tenho um vizinho produtor de soja em frente ao vinhedo. Consigo estabelecer esse nexo.”
Ela explica que registrou as ocorrências junto à Secretaria da Agricultura e realizou análises laboratoriais por conta própria após a interrupção do custeio público desses exames.


Fotos: Divulgação
Custos
Além da perda de produção, a vinícola realizou fertilizações adicionais e outras medidas para tentar recuperar as plantas. Mesmo assim, algumas variedades precisaram ser erradicadas.
Segundo Rosana, apenas o custo de implantação dos cinco hectares perdidos representa um prejuízo próximo de R$ 700 mil, sem contar a produção que deixou de ser obtida. “O prejuízo não é só o vinhedo perdido. É também tudo o que deixamos de produzir”, afirma.
Convivência entre culturas
Embora o estudo destaque o 2,4-D como um dos produtos mais presentes no debate sobre a deriva no estado, os pesquisadores evitam atribuir os casos a uma cultura específica. Segundo Shana, o problema precisa ser tratado como uma questão de convivência entre diferentes atividades agrícolas que compartilham o mesmo território .A pesquisadora defende o fortalecimento da prevenção, da fiscalização, da assistência técnica e da comunicação entre produtores vizinhos para reduzir novos episódios.
Medidas mais rígidas
Aline avalia que é necessário discutir restrições mais severas em regiões onde coexistem culturas altamente sensíveis. “Se não conseguimos garantir que o produto permaneça dentro da área onde foi aplicado, precisamos questionar se é aceitável continuar permitindo seu uso nessas regiões”, observa.
Na Campanha Gaúcha, Rosana lembra que uma ação civil pública movida pela Associação de Fruticultores resultou na proibição do uso do 2,4-D na região após decisão confirmada em segunda instância. Ainda assim, ela ressalta que outros herbicidas hormonais continuam sendo utilizados. “É uma luta contínua, porque outros produtos provocam os mesmos sintomas”, pontua.
Para os pesquisadores, o principal alerta do estudo é que a projeção de novos prejuízos não representa uma perda inevitável. “Se conseguirmos reduzir a recorrência dos episódios e aumentar a segurança para quem produz uvas, essa projeção pode não se concretizar”, conclui Shana.
Busca por soluções
Para a enóloga Bruna Pereira Ferreira, integrante do setor Técnico do Consevitis-RS, o levantamento muda a forma como o problema pode ser discutido. Até então, os impactos eram conhecidos principalmente pelos relatos dos viticultores atingidos, sem um levantamento que dimensionasse as perdas em diferentes regiões do Estado. Com os dados, segundo ela, torna-se possível discutir medidas de enfrentamento com base na dimensão econômica do problema. “A partir dos resultados deste estudo, podemos, com embasamento, buscar soluções viáveis de mitigação ao impacto causado pela deriva de herbicidas hormonais. Além disso, o estudo serve como modelo e incentivo para que outras culturas sensíveis, também afetadas pela deriva, possam mensurar seus prejuízos e somar forças nessa pauta”, afirma Bruna.
Além das perdas de uma safra, a entidade avalia que a recorrência dos episódios pode dificultar a renovação de vinhedos, desestimular novos investimentos e enfraquecer regiões de enoturismo. Segundo Bruna, mudas jovens são mais suscetíveis aos efeitos da deriva e podem não se desenvolver quando atingidas. “A deriva reduz a competitividade da vitivinicultura gaúcha, pois desincentiva novos investimentos e enfraquece regiões de enoturismo consolidadas ou em estruturação”, aponta.
Como encaminhamento, o Consevitis-RS foi consultado pela Comissão de Constituição e Justiça para contribuir com a redação do Projeto de Lei 520/2025, que trata do uso, comercialização, aplicação, monitoramento, fiscalização e reparação de danos relacionados aos herbicidas hormonais no Estado. A entidade também deverá atuar, junto à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), na criação de um grupo de trabalho com representantes da vitivinicultura, de culturas extensivas e de outras atividades afetadas.
O objetivo, conforme Bruna, é construir ações conjuntas que reduzam os impactos no curto prazo e, posteriormente, eliminem os episódios de deriva que atingem culturas sensíveis no Rio Grande do Sul.




