Celebrada neste domingo, 21, a 39ª Festa em Honra a São Luís Gonzaga reuniu cerca de 300 pessoas e relembrou a história de fé que deu origem à comunidade há quase quatro décadas
Há cerca de 40 anos, uma sequência de acidentes e doenças que atingia jovens da comunidade preocupava moradores do Bairro Glória. Diante da dor e da incerteza, um grupo de mulheres que participava das capelinhas decidiu promover uma missa pedindo a proteção de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude. A celebração aconteceu no salão comunitário e marcou o início de uma devoção que atravessaria gerações.
Décadas depois, a fé que uniu aqueles moradores voltou a se manifestar de forma intensa no domingo, dia 21, durante a 39ª Festa em Honra a São Luís Gonzaga. Realizada no Bairro Glória, em Bento Gonçalves, a celebração reuniu cerca de 300 pessoas entre moradores, familiares, lideranças religiosas e visitantes de diversas comunidades da região.

Mais do que uma festividade religiosa, o evento representou um reencontro com a própria história do bairro, construído por homens e mulheres que dedicaram tempo, trabalho e voluntariado para transformar uma pequena capela em um importante espaço de convivência, espiritualidade e integração social.
A programação começou ainda nos dias 11, 12 e 13 de junho, com o tríduo preparatório. No domingo festivo, a celebração teve início com a missa presidida pelo padre Pedro Carissimi, da Paróquia Cristo Rei. Ao meio-dia foi servido o tradicional almoço comunitário, preparado pelo Restaurante Fenachamp, seguido de uma tarde de confraternização animada por Evandro Singer e Rica Seben Duo.
Neste ano, os festeiros foram Nathan Mezacasa e Cíntia Horst Mezacasa, além de Ladi Mainardi e Rosa Maria Thedesco Mainardi. Juntos, assumiram a responsabilidade de auxiliar na organização do evento, na mobilização da comunidade e na arrecadação de brindes e apoios.
O presidente da Comunidade São Luís Gonzaga, Marcos Grzybowski, explica que os preparativos começam muito antes dela. “A Festa de São Luis já começa a ser preparada cerca de dois meses antes. Tem toda a organização dos cartazes, dos ingressos, sempre com antecedência para que o pessoal também consiga se organizar”, afirma.
Segundo ele, o trabalho envolve dezenas de voluntários e uma série de detalhes que vão desde a venda de ingressos até a organização das mesas, bebidas e estrutura do evento.
Embora a comunidade continue contando com pessoas comprometidas, Grzybowski reconhece que conseguir novos voluntários tem sido cada vez mais difícil. “Não está fácil. Realmente, está cada vez mais complicado encontrar pessoas dispostas a assumir compromissos de forma voluntária”, observa.
Apesar dos desafios, a motivação permanece a mesma. “Isso é o que mais nos motiva. Ver as pessoas colaborando, ajudando e divulgando o nosso trabalho. Hoje temos uma equipe muito disposta a colaborar conosco, e isso faz toda a diferença”, destaca.
Os recursos arrecadados durante a festa serão destinados à manutenção e às melhorias da estrutura comunitária. Entre os projetos previstos estão melhorias na pista do salão, obras na área externa, pintura da igreja, reforma da sala mortuária e adequações em espaços utilizados pela catequese.
Uma história que ajudou a construir o bairro

A trajetória da Comunidade São Luís Gonzaga se confunde com a própria história do Bairro Glória. Vice-presidente da comunidade e um dos moradores mais antigos da região, Luiz Gromowski acompanha há mais de seis décadas a evolução do bairro. Segundo ele, antes de ser conhecido como Glória, o local era chamado de Zona da Antena da Rádio, em referência à antena de transmissão existente no alto do morro.
Uma passagem curiosa ajuda a explicar a origem do nome que se consolidou ao longo dos anos. Em 4 de agosto de 1968, um grupo de jovens da localidade enfrentou a forte equipe da Móveis Sperotto em uma partida de futebol. Contra todas as expectativas, venceu por 3 a 2. A conquista foi comemorada como uma verdadeira glória pelos moradores e inspirou a criação do nome Glória Futebol Clube.
Com o passar do tempo, o nome ultrapassou os limites do campo e acabou identificando toda a região. “A antiga Zona da Antena da Rádio passou a se chamar Bairro Glória, tornando-se o segundo bairro de Bento Gonçalves. Antes dele existia apenas o bairro São Roque”, relata.
Gromowski também recorda a origem da devoção a São Luís Gonzaga. Segundo ele, a preocupação com os frequentes acidentes e enfermidades que atingiam jovens motivou a realização de uma missa especial pedindo proteção ao santo. “A intenção era que ele abençoasse a comunidade para que não houvesse mais acidentes e doenças que levassem tantos jovens”, conta.
A partir daquela celebração, nasceu a Capela São Luís Gonzaga. Com o apoio dos moradores, promoções comunitárias, rifas, jantares e a colaboração da Paróquia Cristo Rei, a comunidade conseguiu adquirir o terreno e construir a capela que hoje se destaca no bairro. “Nós conseguimos construir nosso espaço, que hoje é uma bela igreja”, afirma.
Orgulho das conquistas
Ao longo dos anos, a comunidade acumulou importantes realizações. Foi a primeira de Bento Gonçalves a possuir uma capela mortuária própria, ampliou constantemente sua estrutura e consolidou um patrimônio construído coletivamente. Hoje, além da igreja, possui salão comunitário, espaços para catequese e um forte trabalho de integração social.

Outro motivo de orgulho é a participação das novas gerações. Cerca de 50 crianças frequentam atualmente a catequese e ajudam a manter viva a tradição religiosa da comunidade. Para Gromowski, esse envolvimento é fundamental para garantir a continuidade do trabalho iniciado pelos moradores que ajudaram a construir o bairro.
Ele cita, inclusive, um exemplo que simboliza o espírito comunitário local: um senhor de 86 anos que ainda participa de partidas de futebol com jovens e crianças. “É uma comunidade bastante unida”, resume.
Além da estrutura religiosa, o bairro também abriga um capitel que completa 20 anos de fundação. O monumento reúne imagens de Nossa Senhora de Częstochowa, padroeira da Polônia, São Luís Gonzaga e Santo Antônio, integrando atualmente a Rota dos Capitéis, importante atrativo turístico e religioso da região.
Fé que se transforma em gratidão
A ligação de Gromowski com a comunidade também é marcada por uma experiência pessoal. Após enfrentar um câncer há alguns anos, ele recebeu o apoio constante dos moradores. “O pessoal da comunidade se reuniu e todos os dias rezava o terço por mim. Graças a Deus e também por intermédio de São Luis, hoje estou curado dessa enfermidade”, relata.
Para ele, retribuir esse apoio por meio do trabalho comunitário é uma forma de agradecer pelas graças alcançadas. “Fazemos tudo com amor e carinho, procurando devolver um pouco daquilo que alcançamos através da fé, do esforço e do trabalho em favor da nossa comunidade”, declara.
Quase quatro décadas após a primeira celebração dedicada a São Luís Gonzaga, a festa continua mobilizando moradores de diferentes gerações e fortalecendo os laços comunitários que deram origem à própria história do bairro.
Espírito de comunidade

A edição deste ano contou com ingressos esgotados antes mesmo da realização da festa, demonstrando a forte adesão da comunidade e de visitantes.
Os festeiros tiveram papel importante nesse resultado, participando da venda dos ingressos e da arrecadação de brindes. Mais de 100 prêmios foram reunidos graças ao apoio de empresas, grupos de idosos, famílias e moradores.
Para Nathan Mezacasa, que foi festeiro pela primeira vez, o sucesso da celebração é resultado de um esforço coletivo. “Foi uma honra estar à frente da festa e contar com pessoas boas ao nosso lado, que auxiliaram em tudo. Esse espírito de comunidade, de fraternidade, é algo muito importante”, afirma.
Segundo ele, a participação das crianças e jovens também precisa ser valorizada. “Queremos que os jovens possam carregar o estandarte, entrar com a cruz, fazer leituras e participar naturalmente da vida da comunidade”, ressalta.
Mezacasa acredita que São Luís Gonzaga continua sendo uma referência importante para as novas gerações. “São Luis é um jovem santo e mostra que um jovem pode dedicar sua vida ao bem”, observa.
Para Ladi Mainardi, que também estreou como festeiro, a experiência ficará marcada na memória. “No começo eu estava em dúvida, mas hoje acredito que seja um dos dias mais felizes que tivemos por poder acompanhar tudo isso e ser festeiro”, declara.
Já Rosa Maria Thedesco Mainardi destaca que assumir a função era um desejo antigo da família. “Eu sempre dizia que, pelo menos uma vez, precisávamos ser festeiros aqui no bairro”, conclui.
Ao final da celebração, o sentimento compartilhado pelos organizadores era de gratidão pela participação da comunidade, pelo trabalho dos voluntários e pela continuidade de uma história construída ao longo de gerações.