Impulsionada pela crise no país vizinho, imigração argentina cresce 30% no Brasil e reflete na oferta de mão de obra sazonal para a viticultura da Serra Gaúcha

De acordo com os dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o fluxo migratório de argentinos para o Brasil apresenta crescimento constante nos últimos anos. Entre 2020 e 2024, a emissão de vistos de residência para cidadãos da Argentina no país registra um aumento de aproximadamente 30%. Esse movimento é motivado, prioritariamente, pela severa crise econômica enfrentada pelo país vizinho, caracterizada por uma inflação que supera os três dígitos anuais e pela desvalorização acentuada do peso frente ao real. A busca por estabilidade financeira, aliada à facilidade de regularização migratória proporcionada pelo acordo de residência do Mercosul, transforma o Brasil em um destino estratégico para profissionais que buscam recompor a renda familiar.
No Rio Grande do Sul, a presença desses imigrantes é histórica devido à proximidade geográfica e aos laços culturais, mas ganha novos contornos com a inserção direta em setores sazonais da economia, como a fruticultura na Serra Gaúcha. Muitos trabalhadores que anteriormente atuavam nas colheitas de maçã e uva em províncias como Mendoza, Rio Negro e San Juan, agora cruzam a fronteira em busca de diárias pagas em moeda brasileira, o que representa um poder de compra significativamente superior ao converter os valores para a realidade econômica argentina.

Colheita segue no município. céditos: Dandy Marchetti

Mão de obra qualificada na Serra
A safra da uva em Bento Gonçalves e região conta, tradicionalmente, com a mão de obra de trabalhadores vindos de diversas partes do Brasil, mas a presença de estrangeiros, especialmente argentinos, torna-se um componente fixo nas frentes de colheita. O setor vitivinícola utiliza essa força de trabalho para suprir a alta demanda do período de pico da colheita, que exige rapidez para garantir a qualidade da matéria-prima destinada à elaboração de vinhos e sucos.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal a experiência prévia desses imigrantes com a agricultura facilita a inserção no campo. No entanto, o fator determinante para a vinda desses grupos é a remuneração oferecida durante o período da colheita, considerada elevada em comparação à realidade econômica de seus países de origem.
Paralelamente à necessidade financeira dos estrangeiros, os produtores rurais enfrentam uma escassez crônica de trabalhadores locais. O cenário atual revela uma dificuldade acentuada na contratação nacional. “O que nós temos aqui são muitos brasileiros que não querem trabalhar, principalmente agora nos últimos anos, onde se intensificou as fiscalizações do Ministério do Trabalho e precisa fazer toda a formalização. Os brasileiros não querem porque muitos desses trabalhadores recebem algum tipo de auxílio do governo e não desejam perder isso”, explica o dirigente.
Essa lacuna na oferta de mão de obra nacional torna a presença estrangeira indispensável para a viabilidade econômica do setor. “Acredito que, sem eles, os nossos agricultores não conseguiriam fazer toda a colheita. Nós temos uma escassez muito grande de mão de obra”, afirma o presidente.
Postal ressalta que diferente de outros sistemas de contratação, na viticultura local é comum que o safrista resida na própria propriedade do agricultor, compartilhando o cotidiano com a família do empregador. As condições oferecidas incluem alimentação e alojamento, sendo a boa relação interpessoal um dos motivos citados para o retorno recorrente de trabalhadores em safras consecutivas.
Entretanto, Postal ressalta que o trabalho na agricultura apresenta desafios físicos que nem todos os candidatos conseguem suportar. A necessidade de utilizar calçados fechados, vestimentas que cubram todo o corpo para proteção e chapéus, somada ao calor intenso do verão gaúcho, resulta em desistências pontuais. “As condições de trabalho são muito boas. O que a gente vê é que tem alguns que não se adaptam, até porque acreditam que tem realmente uma boa remuneração, mas o trabalho na agricultura não é um trabalho fácil”, observa o representante.
A gestão administrativa dessas contratações tem sido um ponto de atenção para o Sindicato. A entidade atua diretamente no auxílio aos agricultores para garantir que todos os trâmites legais sejam cumpridos, desde o registro no sistema e-Social até o encaminhamento para exames médicos admissionais através da medicina do trabalho. A orientação técnica é para que o produtor evite a utilização de empresas terceirizadas, optando pela contratação direta.
Embora a legislação permita a terceirização, Postal alerta para os riscos jurídicos e financeiros dessa modalidade. Na visão da entidade, o agricultor assume uma corresponsabilidade em caso de irregularidades cometidas pela empresa contratada, o que pode gerar passivos trabalhistas graves. “Nós não indicamos que os agricultores contratem empresas terceirizadas, porque se acontecer alguma coisa errada, algum imprevisto, os agricultores são corresponsáveis. A gente recomenda que contratem diretamente, até porque fica mais barato”, conclui o dirigente.