O cenário político no Oriente Médio atravessa um dos períodos de maior instabilidade das últimas décadas, fundamentado em raízes históricas profundas e na reiteração de táticas de confronto que remontam ao século passado
A compreensão da atual escalada de violência e das manobras diplomáticas exige uma análise detalhada sobre a formação dos Estados nacionais e as intervenções externas que moldaram a região. De acordo com Roberto Radunz, professor coordenador do Programa de Pós-graduação em História da UCS, o legado do colonialismo europeu é o ponto de partida para entender as fragilidades políticas contemporâneas, uma vez que o redesenho de fronteiras artificiais, ocorrido principalmente após a Grande Guerra de 1914-1918 e o desmantelamento do Império Turco-Otomano, transforma a localidade em uma espécie de protetorado de potências ocidentais interessadas na extração de petróleo.

O peso do colonialismo e a questão de Israel
Essa interferência externa, que prioriza interesses econômicos em detrimento das identidades locais, estabelece um terreno fértil para disputas duradouras. Um dos marcos mais significativos nesse processo é a criação do Estado de Israel em 1948, evento que altera profundamente o equilíbrio regional e gera várias guerras na região, entre elas a Guerra do Canal de Suez, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kippur. Radunz observa que a questão palestina torna-se central e persistente, enquanto os deslocamentos populacionais geram tensões que permanecem sem uma solução definitiva até os dias atuais. “Israel consolida-se como aliado estratégico dos EUA e uma presença incômoda para os países árabes”, explica.
A dinâmica das relações internacionais na região também é afetada pela lógica da Guerra Fria. Durante esse período, o Oriente Médio torna-se palco para disputas indiretas entre os Estados Unidos e a União Soviética, que apoiam regimes e movimentos distintos conforme seus interesses estratégicos. Segundo Radunz, essa competição bipolar reforça a militarização regional e amplia as instabilidades internas através de golpes políticos e alianças de conveniência. É dentro desse ambiente de polarização que emerge a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, um marco que rompe com os modelos laicos apoiados pelo Ocidente. “A Revolução Iraniana recoloca a religião como eixo central do poder político em alguns países”, destaca.
A herança de conflitos e a desconfiança mútua
A ruptura diplomática entre Teerã e Washington consolida-se com a crise dos reféns na embaixada americana entre 1979 e 1981. Logo em seguida, a Guerra Irã-Iraque, ocorrida entre 1980 e 1988, aprofunda as divisões, uma vez que os Estados Unidos apoiam o Iraque de Saddam Hussein com o intuito de conter a revolução iraniana. Radunz afirma que essa postura norte-americana aprofunda a desconfiança iraniana em relação ao Ocidente e fortalece as rivalidades. O custo humano desse embate é trágico, resultando na morte de aproximadamente um milhão de pessoas e na consolidação do Irã como uma potência regional.
Nas últimas décadas, a questão nuclear torna-se o principal catalisador de tensões. O acordo conhecido como JCPOA, firmado em 2015, limita o programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções econômicas, sendo inicialmente visto como um avanço diplomático. Contudo, a iniciativa enfrenta forte resistência de Israel e de aliados regionais, e a desconfiança mútua impede a estabilização do tratado. Radunz ressalta que a política externa norte-americana é instável e varia entre a diplomacia e a pressão máxima. Durante o governo de Donald Trump, essa postura torna-se mais confrontadora, com a retirada unilateral do acordo nuclear e a ampliação das sanções, estratégia que incentiva alianças com Israel e países árabes para contrapor a influência iraniana.

A escalada de 2026 e o papel das narrativas
Recentemente, em 28 de fevereiro de 2026, novas ações militares são justificadas pelos Estados Unidos e Israel sob o argumento da segurança nacional e da contenção nuclear. As potências alegam que o programa iraniano representa uma ameaça iminente e apontam o apoio do país a grupos armados como justificativa para ataques preventivos. Todavia, Radunz pondera que a questão nuclear é utilizada como argumento central para intervenções e sanções há bastante tempo. “Sanções e ameaças militares são recorrentes, mas não há comprovações de que o Irã tenha tecnologia nesse sentido”, reitera.
No campo social, a percepção da população iraniana é marcada pela memória do golpe de 1953, visto como uma ruptura pró-Ocidente, e pelo ressentimento acumulado devido às sanções econômicas. Ainda assim, Radunz nota que a juventude atual apresenta visões mais plurais devido ao maior acesso à informação global e às redes sociais. “A juventude iraniana e árabe apresenta visões mais plurais”, afirma. Essas plataformas digitais tornam-se fundamentais na construção de narrativas em tempo real, permitindo a circulação de versões conflitantes e a mobilização política, embora também facilitem a propagação de desinformação e propaganda.
O embate religioso e as perspectivas futuras
A complexidade do cenário é agravada pela politização das tensões religiosas entre xiitas e sunitas, liderados respectivamente por Irã e Arábia Saudita. Essas rivalidades religiosas misturam-se a interesses geopolíticos e disputas de poder por hegemonia regional. Diante desse emaranhado de interesses, as perspectivas para o futuro próximo são cautelosas, pois a desconfiança mútua é profunda e a escalada militar reduz o espaço para o diálogo.
Radunz conclui que o cenário aponta para um prolongamento das tensões, com breves momentos de negociação condicionados às mudanças políticas internas. “O cenário atual tende ao prolongamento das tensões, com momentos de negociação, sobretudo em se tratando de Trump”. A região permanece em um equilíbrio volátil onde a história dita o ritmo das crises e a diplomacia luta para encontrar um terreno sólido.
Os impactos do conflito para o Brasil
De acordo com dados do mercado de commodities da ICE (Intercontinental Exchange) e relatórios da AIE (Agência Internacional de Energia), o reflexo mais direto ocorre no mercado de energia; com a instabilidade no Estreito de Ormuz, o preço do barril Brent ultrapassa a marca de US$ 115 em março de 2026. No Brasil, conforme levantamento da ANP (Agência Nacional do Petróleo), isso se traduz no aumento imediato do diesel, que atinge médias de R$ 7,45 o litro, pressionando o custo de transportes e a inflação oficial medida pelo IBGE.
O agronegócio nacional também enfrenta vulnerabilidades severas. Dados do sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), indicam que o Irã consolidou-se em 2025 como um dos cinco maiores compradores do milho e da soja brasileiros, com transações que somaram US$ 2,9 bilhões. O conflito interrompe esses fluxos e gera incerteza quanto ao recebimento de fertilizantes nitrogenados. Segundo a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos), a dependência brasileira de ureia importada da região torna o produtor local refém da alta de 50% nos preços dos insumos registrada no último mês, elevando os custos de produção das próximas safras e ameaçando a estabilidade do setor produtivo nacional.