As múltiplas formas de aprender refletem as múltiplas formas como crianças, adolescentes e jovens constroem conhecimento ao longo da vida. Seja por meio da vivência prática, da escuta, da observação ou da experimentação, cada indivíduo desenvolve habilidades de maneira única, de acordo com suas experiências, estímulos e contextos sociais.
De acordo com Rosana Carlet, psicopedagoga clínica e institucional, os estilos de aprendizagem referem-se às formas preferenciais pelas quais os sujeitos percebem, processam, organizam e utilizam as informações, influenciando diretamente a maneira como constroem conhecimento e se relacionam com o processo educativo. “Eles não determinam a capacidade de aprender, mas indicam como o aprendizado tende a ocorrer com mais fluidez, significado e menor custo emocional”, observa.

Rosana Carlet, psicopedagoga clínica e institucional

Estilo
Rosana destaca que os tipos de aprendizagem mais conhecidos são:

  • Visual: imagens esquemas, cores, gráficos;
  • Auditivo: conversar, explicar em voz alta, escutar instruções;
  • Cinestésico: aprendem fazendo, manipulando, experimentando.
    Ela ressalta a importância de compreender, do ponto de vista psicopedagógico, como eles se articulam com determinados fatores. “Cognitivos, emocionais, neurológicos e socioculturais”, menciona.
    Além disso, ela explica que no seu consultório, observa-se que o estilo de aprendizagem está relacionado a determinados aspectos. “A história escolar, as experiências de sucesso ou fracasso, a relação com o saber e a forma como o sujeito foi ensinado a aprender. Por isso, não se trata apenas de preferência sensorial, mas de uma construção subjetiva ao longo da vida”, frisa.

Como identificar
A profissional destaca que detectar os tipos não deve acontecer de forma isolada. “Na psicopedagogia, ela ocorre por meio de um processo avaliativo contínuo, que envolve testes quantitativos, observação, escuta qualificada e análise do contexto. Contudo, o mais importante é compreender como o sujeito aprende, o que o mobiliza e o que o bloqueia”, destaca.
Com isso, ela aponta alguns sinais para ser observado na escola, como:

  • Dificuldade em acompanhar explicações exclusivamente orais ou, ao contrário, excesso de dependência delas;
    • Melhor desempenho em atividades práticas ou projetos, em comparação com avaliações tradicionais;
    • Necessidade constante de copiar, desenhar, esquematizar ou, ao contrário, de falar e explicar para aprender e distração aparente que, muitas vezes, não é falta de atenção, mas incompatibilidade entre a forma de ensino e a forma de aprender.
    Sinais para ser observado em casa:
  • Necessidade de repetir em voz alta para memorizar informações;
  • Organiza tudo visualmente (cores, post-its, desenhos);
  • Só compreende quando experiencia as tarefas, na prática;
  • Costumam manifestar reações emocionais como frustração, resistência ou desmotivação frente a tarefas escolares.

Eles podem mudar?
A resposta é sim. Rosana esclarece que os estilos de aprendizagem não são fixos nem imutáveis, mas se transformam ao longo do tempo, de acordo com as experiências vivenciadas por cada indivíduo. “Eles são dinâmicos, podendo ampliar, transformar ou reorganizar ao longo da vida. O que observamos são algumas preferências que se consolidam, especialmente quando foram reforçadas positivamente; outras se desenvolvem à medida que a pessoa é exposta a novas experiências de aprendizagem e situações de exigência acadêmica, mudanças de contexto, maturação neurológica e desenvolvimento emocional influenciam diretamente esse processo”, observa.
Do ponto de vista psicopedagógico, a especialista destaca que o objetivo não é rotular o sujeito dentro de um único estilo, mas ampliar seu repertório de estratégias de aprendizagem. “Quando a criança, o jovem ou o adulto consegue reconhecer como aprende melhor e também desenvolve outras formas de aprender, ocorre um ganho significativo em autoconfiança, autorregulação e motivação”, frisa.

Desempenho escolar
Segundo a especialista, as particularidades na aquisição do conhecimento são um fator decisivo tanto para o rendimento acadêmico quanto para a saúde emocional dos estudantes. Levar em conta essas diferenças é essencial para que o processo educativo seja mais eficiente, inclusivo e significativo. “Quando o aluno se sente compreendido a aprendizagem passa a ter sentido, a autoestima acadêmica é fortalecida, o medo de errar diminui e a relação com o saber se torna mais positiva. Por outro lado, quando há uma desconsideração dessas particularidades, é comum surgirem desmotivação, ansiedade frente às avaliações, comportamentos de evitação e rotulações equivocadas (como desinteresse ou incapacidade). Na prática clínica, é frequente atender crianças e adolescentes que não apresentam um transtorno de aprendizagem, mas desenvolveram bloqueios emocionais por não terem sido ensinados de acordo com suas necessidades”, observa.

Favorecimento
Rosana destaca que algumas estratégias costumam favorecer diferentes perfis, especialmente quando utilizada de forma integrada.
Aprendizes visuais podem utilizar:

  • Mapas mentais;
  • Esquemas;
  • Quadrosresumo;
  • Uso de cores;
  • Imagens;
  • Gráficos e infográficos;
  • Organização visual do material e leitura acompanhada de marcações e símbolos.
    Aprendizes auditivos:
  • Adotamos explicações dialogadas;
  • Leitura em voz alta;
  • Gravação de conteúdos;
  • Discussões;
  • Debates e reconto oral;
  • Além de ensinar alguém como forma de aprender.
    Aprendizes cinestésicos ou práticos:
  • Empregamos atividades manipulativas;
  • Jogos pedagógicos;
  • Experimentos;
  • Dramatizações e simulações e aprender fazendo e experimentando.
    Segundo ela, do ponto de vista psicopedagógico e institucional, o ideal é que o ensino seja multissensorial. “Permitindo que todos os estudantes tenham acesso ao conteúdo por diferentes vias”, menciona.

Papel da família
Para a especialista, a principal contribuição da família está na criação de um ambiente emocionalmente seguro, em que o ato de aprender não seja vinculado ao medo de errar, às comparações constantes ou a uma pressão excessiva por resultados. Esse contexto de acolhimento favorece a confiança, a autonomia e o desenvolvimento saudável do estudante, tanto no aspecto cognitivo quanto no emocional. “Na prática psicopedagógica, observamos que a aprendizagem acontece com mais qualidade quando a criança ou o adolescente sente que é apoiado, e não avaliado o tempo todo. Algumas atitudes familiares fazem diferença como demonstrar interesse genuíno pelo processo, e não apenas pelo resultado, estabelecer rotinas estruturadas, mas flexíveis, respeitando o ritmo do estudante, demonstrar validação do esforço, mesmo quando o desempenho ainda não é o esperado e empregar a escuta atenta das dificuldades, sem minimizá-las ou dramatizá-las. A família fortalece a aprendizagem quando atua como mediadora, ajudando o estudante a organizar o estudo, a refletir sobre estratégias e a lidar com frustrações”, salienta.

Dificuldade de aprendizagem
Rosana explica que nem toda aprendizagem está relacionada a transtornos. “Essa é uma distinção fundamental dentro da prática da psicopedagogia clínica. Muitas dificuldades surgem, simplesmente, porque o método de ensino não dialoga com a forma de aprender do sujeito. Por isso, é comum encontrar alunos que possuem desenvolvimento cognitivo preservado, não apresentam alterações neurológicas, mas não conseguem aprender da forma como o conteúdo está sendo apresentado. Nesses casos, falamos de dificuldades de aprendizagem de origem pedagógica, emocional ou metodológica, e não de transtornos. Quando há uma condição, como dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou discalculia, a dificuldade é persistente, mesmo com ensino adequado, e requer intervenções específicas”, expressa.

Papel das escolas
A escola tem um papel central na promoção de uma aprendizagem inclusiva e significativa, atuando diretamente na forma como o conhecimento é construído em sala de aula. Para ela, isso implica compreender que os alunos não aprendem da mesma maneira e que o professor deve assumir o papel de mediador do processo educativo, e não apenas de transmissor de conteúdos. “Isso significa diversificar estratégias, reconhecendo que os alunos não aprendem da mesma forma. O professor atua como mediador do conhecimento, e não apenas transmissor de conteúdo, podendo e devendo utilizar diferentes linguagens pedagógicas, oferecer múltiplas formas de acesso ao conteúdo, avaliar de maneira variada, não apenas por provas tradicionais, e observar sinais de dificuldades e dialogar com a família e especialistas”, destaca.

Uso da tecnologia
A tecnologia, por si só, não deve ser vista como vilã ou solução absoluta no processo de aprendizagem. Para Rosana, seus efeitos estão diretamente relacionados à forma, ao tempo e aos objetivos com que é utilizada no contexto educacional. “O impacto depende de como, quando e para qual objetivo ela é utilizada. Quando bem mediada, pode ampliar o acesso ao conhecimento, favorecer diferentes estilos de aprendizagem e tornar o ensino mais dinâmico. Contudo, o uso excessivo, sem critérios ou supervisão, pode prejudicar a atenção sustentada, reduzir a tolerância à frustração e dificultar processos de leitura e escrita. Do ponto de vista psicopedagógico, a tecnologia deve ser vista como ferramenta pedagógica, e não como substituta da mediação humana. O equilíbrio entre recursos digitais, experiências concretas, interação social e momentos de concentração é fundamental para o desenvolvimento saudável das habilidades cognitivas e emocionais”, afirma.

Orientação
Para a psicopedagoga, é fundamental que o aluno se perceba como capaz, mas também como protagonista do próprio percurso de processo formativo, desenvolvendo senso de responsabilidade e autonomia. “Respeitar a individualidade não significa diminuir expectativas, mas adequar caminhos. O estudante precisa sentir que é capaz, mas também que é responsável pelo próprio processo de aprendizagem”, aconselha.
Com isso, ela dá algumas orientações:

  • Ensinar o aluno a se conhecer como aprendiz;
  • Incentivar a reflexão sobre o que funciona melhor para ele;
  • Oferecer apoio sem fazer pelo estudante;
  • Permitir erros como parte do aprendizado;
  • Valorizar conquistas reais, mesmo que pequenas.
    Quando responsáveis e educadores assumem o papel de guias, e não de controladores, contribuem diretamente para o fortalecimento da autonomia, do senso de competência e do prazer em aprender, criando um ambiente mais saudável, motivador e favorável ao desenvolvimento integral do estudante. “Sempre que os pais perceberem sinais, comportamentos ou dificuldades persistentes relacionadas ao processo de aprendizagem, é fundamental buscar a orientação de um profissional qualificado. A avaliação especializada permite compreender se essas manifestações fazem parte do desenvolvimento esperado, se estão relacionadas a fatores emocionais, pedagógicos ou familiares, ou se indicam a necessidade de uma intervenção mais específica. A busca por ajuda profissional não deve ser vista como um sinal de problema, mas como uma atitude preventiva e de cuidado, que favorece o desenvolvimento acadêmico e emocional do estudante”, conclui.