Apesar da reabertura da Rua Aristides Bertuol (RS-444)pela prefeitura após melhorias na drenagem da encosta, quem vive no bairro Eucaliptos convive com o fantasma das enxurradas e o risco de queda de pedras a cada forte chuva. A calmaria do asfalto liberado contrasta com o sentimento de quem observa o topo do morro.
A prefeitura de Bento Gonçalves confirmou a abertura total do trânsito no trecho que recebeu obras de nivelamento e drenagem pluvial para conter infiltrações e dar estabilidade ao solo. Mesmo com a garantia técnica de trafegabilidade, a sensação de segurança ainda não se restabeleceu para os moradores. Para quem divide o pátio com o limite da rodovia, cada tempestade traz de volta o fantasma das enxurradas e o receio de queda de rochas.
Residente no local há 12 anos, o aposentado Francisco de Assis resume a insegurança da família. “Cada vez que chove muito me sinto instável, com um pé aqui e outro acolá. A família toda permanece com preocupação. Em fortes chuvas recentes, a água e a terra chegaram até a porta da nossa casa”, desabafa.

O cenário atual destoa das memórias de quem viu a região se transformar. Há 20 anos no lugar, a dona de casa Acácia Fidêncio Ferretti lembra que a tranquilidade era a marca registrada do bairro. Hoje, a rotina exige medidas práticas de proteção. “No início era uma tranquilidade. Porém, de um tempo para cá, os temporais trazem medo de que o deslizamento atravesse a rua e atinja a minha residência. Criamos até uma barricada no portão para impedir que a água invada o nosso lar”, relata Acácia.
Barreiras contra a força da lama e o temor de ver o patrimônio destruído é compartilhado por Janete Cavalheiro. Em 21 anos morando no mesmo endereço, ela já viu a força da água invadir sua privacidade, mas seu maior pavor está no alto da encosta. “Minha casa já alagou três vezes nos últimos anos em virtude da aguaceira. O verdadeiro medo é que as pedras que aparecem lá no alto se desprendam e cheguem até as nossas moradias”, conta a moradora.

Chuva de granizo: “o importante é estarmos vivos”
Acostumados com a vastidão e as intempéries da Região da Campanha, o caldeirista Aírton de Jesus Peruzzi e a cuidadora de idosos Regina Cadore escolheram Bento Gonçalves como novo lar há pouco mais de três meses. No entanto, a transição para a Capital do Vinho foi marcada por um batismo de fogo, ou melhor, de gelo.
Na noite da última terça-feira, 28 de julho, o casal vivenciou minutos de puro pavor dentro de casa, no bairro Progresso, ao testemunhar o temporal de granizo mais violento e ensurdecedor de suas vidas.
O barulho contínuo e estrondoso das pedras de gelo batendo contra a estrutura da residência interrompeu o sono e deu início a uma noite de vigília e medo. Sem conseguir sair do lugar diante da força do fenômeno, eles viram a fragilidade da cobertura de fibrocimento ceder sob o impacto da tempestade. “Graças a Deus foi apenas o telhado que cedeu com o tamanho das pedras. Apenas alagou toda a estrutura, o que danificou nossos móveis e o automóvel que estava fora da garagem. Fora isso, o importante neste momento de fúria da natureza é estar vivo e agradecer por apenas ter sido dano material”, desabafou.

Aírton, tentando mensurar as perdas materiais diante do alívio de terem saído ilesos frisa que a experiência traumática sob o teto danificado contrasta com o histórico do casal, que já havia enfrentado frentes frias severas e outras chuvas de granizo no sul do Estado. “Nada é comparável ao cenário da última terça-feira, com aquele barulho contínuo antes da queda do granizo”, pontua.
Regina e Aírton salientam que o estrondo prolongado e a agressividade com que as pedras atingiram o bairro Progresso trouxeram uma sensação inédita de impotência.
O drama vivido pelo casal soma-se ao de dezenas de famílias de Bento, que amargam as consequências de dez dias consecutivos de chuva e um acumulado que superou 110 milímetros em 24 horas. Enquanto o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil trabalham nas ruas para desobstruir vias e distribuir lonas, o sentimento nas casas é de gratidão pela vida.





