Com cerca de 2.111 habitantes, área de 80,05 quilômetros quadrados, 16 comunidades e aproximadamente 470 quilômetros de malha viária, Faria Lemos mantém uma forte ligação com a agricultura e as tradições herdadas da imigração. A produção de uvas segue como principal atividade econômica do distrito, que também busca fortalecer sua presença no turismo e no enoturismo.
Paisagem e produção marcam o território
Para quem vive ou empreende na região, a beleza natural é um dos principais diferenciais.
Morador há cerca de 26 anos e proprietário de um empreendimento há aproximadamente 25, Ricardo Pergher afirma que a beleza da região é um dos elementos que mais chamam a atenção de quem visita a localidade. Segundo ele, a topografia do local proporciona experiências que impressionam turistas de diferentes partes do país. Pergher lembra que, quando mantinha um restaurante, promovia passeios pelo interior e observava a reação dos visitantes diante das paisagens do distrito. “Só passando pela estrada já é bonito, mas quando a pessoa conhece os pontos mais altos, vê as paisagens e os vales, ela fica encantada. Muitas vezes as pessoas chegavam a se emocionar”, relata.

A percepção é compartilhada por Vanildo Enderle, morador de Faria Lemos há 66 anos. Para ele, o distrito possui uma das mais importantes paisagens naturais do município. “Eu diria que o nosso distrito é o com a melhor beleza natural do município”, afirma.
A empreendedora Rejane Ferrari Enderle, moradora desde 1992 e à frente de seu negócio desde 2018, também destaca esse aspecto. “Eu considero a paisagem de Faria Lemos a mais bonita do mundo. Tem lugares que mesmo para a gente que mora aqui continuam encantando”, comenta.
Além da paisagem, os entrevistados apontam a agricultura como um dos pilares da comunidade. A produção de uvas segue sendo a principal atividade econômica e continua passando por processos de modernização.
Pergher observa que a mecanização vem transformando o trabalho no campo. “A agricultura se desenvolveu bastante. Tem maquinário novo, drones, máquinas para colheita e cada vez mais tecnologia”, afirma.
Crescimento gradual e identidade preservada
Embora os moradores reconheçam avanços ao longo das últimas décadas, muitos avaliam que o desenvolvimento da localidade ocorre de forma mais lenta quando comparado a outras do município.
Rejane observa que a comunidade passou por mudanças graduais, sem transformações bruscas. “É um lugar tranquilo para morar, seguro, e as mudanças acontecem devagar”, afirma.

Segundo ela, a chegada do asfalto na ERS-431 representou uma das principais melhorias vivenciadas pelos moradores, trazendo mais conforto e agilidade nos deslocamentos.
Jamir Lazzari, que mantém um restaurante em Faria Lemos desde 2013, também avalia que poucas mudanças ocorreram nos últimos anos. “Desde que eu vim para cá, não mudou muita coisa”, resume.
Já Pergher recorda que, quando chegou ao distrito, ainda havia pouca estrutura comercial. “Hoje existem estabelecimentos que não existiam naquela época. O posto, as lojas e outros serviços foram chegando aos poucos”, relata.
Infraestrutura viária aparece entre as principais demandas
Se há um tema recorrente entre os entrevistados, é a situação das estradas e dos acessos.
O presidente da Associação de Produtores de Vinhos Finos de Faria Lemos (Aprolemos), Lorenzo Cristofoli, considera que a infraestrutura viária é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico da região.
Segundo ele, apesar das melhorias realizadas nos últimos anos, a dimensão territorial do distrito torna insuficientes os investimentos atuais. “Quando se pensa numa produção de uvas, onde existe dificuldade para escoar produtos e onde se percorrem quilômetros em estradas de chão para chegar ao centro da cidade, isso acaba limitando novos negócios”, afirma.
Cristofoli entende que o acesso é a condição básica para que outras iniciativas se desenvolvam. “Tendo um bom acesso, depois o resto vem atrás”, resume.
Morador da região, Itajiba Soares Lopes também manifesta preocupação com a situação da ERS-431. Segundo ele, apesar das intervenções realizadas, os avanços são lentos diante das necessidades existentes. “As roçadas começaram a ser feitas, mas ainda muito devagar. Existem trechos sem condições adequadas de trafegabilidade e isso preocupa principalmente quem utiliza a rodovia durante a noite”, afirma.

O morador ressalta que a conclusão das obras e melhorias na rodovia seguem sendo uma expectativa importante para quem depende diariamente do trajeto.
Enderle reconhece avanços recentes na pavimentação de algumas rotas, especialmente na ligação do Vale Aurora, mas considera que ainda há espaço para ampliar os investimentos. “O olhar da administração para o interior poderia ser maior”, avalia.
Moradora da comunidade e proprietária de um mercado tradicional da região, Sara Buffon, também aponta a necessidade de melhorias viárias. Segundo ela, as condições da rodovia e a demora em algumas intervenções impactam diretamente a rotina da comunidade. “O processo é muito moroso. Quando se trata da rodovia, a gente vê que as coisas andam devagar”, afirma.
Marcas deixadas pelas enchentes
Dois anos após os eventos climáticos que atingiram o Estado e deixaram Faria Lemos entre as regiões mais afetadas de Bento Gonçalves, moradores e empreendedores afirmam que os reflexos ainda são percebidos no distrito.
O empresário Rinaldo Dal Pizzol afirma que a destruição da Ponte de Santa Bárbara durante as enchentes de setembro de 2023 segue comprometendo uma importante rota utilizada por visitantes e clientes que chegavam à região. Segundo ele, a situação foi agravada pelos problemas em outros acessos e pela paralisação temporária do aeroporto, fatores que reduziram significativamente o fluxo turístico. “Grande parte do movimento de clientes passava por esse acesso. A perda da ponte foi muito significativa. Do ponto de vista do turismo, foi uma catástrofe”, afirma.
Os efeitos também foram sentidos diretamente por empreendimentos locais. Rejane relata que seu estabelecimento permaneceu fechado por mais de um ano. “Nós ficamos um ano e quatro meses sem abrir a loja. Não havia fluxo de pessoas, os turistas deixaram de passar por aqui e precisávamos reavaliar a viabilidade do negócio”, conta.
Mesmo após a retomada das atividades, ela afirma que o perfil do movimento mudou. “Hoje existe bastante circulação de veículos, mas é um movimento mais de passagem. Não é o mesmo fluxo turístico que havia antes”, observa.
No campo, os impactos também permanecem visíveis. Cristofoli afirma que ainda existem áreas produtivas em recuperação. “Muitos vinhedos foram impactados e estão sendo replantados. Há produtores que ainda não recuperaram sua capacidade produtiva anterior”, explica.
Pergher destaca ainda outro reflexo percebido na comunidade: o receio de moradores que viveram situações traumáticas durante os deslizamentos e enxurradas. “A principal consequência é o medo. Ainda existem pessoas que se preocupam muito quando há previsão de chuva forte”, afirma.
Enderle compartilha avaliação semelhante. “Hoje basta uma trovoada mais forte para muitas pessoas ficarem apreensivas. Essa talvez seja a principal consequência que ficou”, observa.

Turismo é apontado como uma das principais oportunidades
Se as dificuldades aparecem com frequência nos relatos, o potencial turístico surge como uma das maiores oportunidades para o futuro do distrito.
Para Dal Pizzol, o território reúne condições para um crescimento significativo da atividade turística, desde que haja planejamento e investimentos em infraestrutura. “O potencial existe, mas ele não se desenvolve automaticamente. É preciso planejamento, acessos adequados, comunicação e políticas públicas voltadas para a infraestrutura”, afirma.
Na avaliação do empresário, obras como a ligação asfáltica entre o Vale dos Vinhedos e Faria Lemos representam iniciativas estratégicas. “O turista precisa circular. Quando há infraestrutura, ele permanece mais tempo na região”, observa.
Cristofoli também considera que o distrito possui grande potencial ainda pouco explorado. “Eu costumo dizer que Faria Lemos é uma reserva de mercado em Bento Gonçalves. Existem muitas oportunidades de negócio e muito espaço para crescer”, afirma.
Segundo ele, além da ampliação da infraestrutura, é necessário fortalecer a comunicação dos empreendimentos e das características próprias da região. O trabalho da Aprolemos segue nessa direção. A associação busca estudos e parcerias para a obtenção de uma indicação geográfica relacionada aos vinhos feitos no distrito. “O objetivo é valorizar ainda mais as uvas e os vinhos produzidos aqui”, explica.
Rejane acredita que o potencial turístico existente ainda não foi plenamente aproveitado. “Pela beleza que temos, acredito que poderia haver mais empreendimentos e mais opções para quem visita a região”, afirma.
Fabiano Mazzotti, que tem uma propriedade na região, avalia que a cultura local é um dos principais atrativos para quem visita o distrito. Segundo ele, o interesse dos turistas está diretamente relacionado ao modo de vida preservado pela comunidade e às características próprias do território. “As pessoas fazem turismo por causa da cultura. É o modo de vida de um lugar configurado por diferentes aspectos. Cabe às pessoas do lugar empreenderem, pois são atraídas pelo que existe. Um maior número de atrações e empresas garante a criação de um conjunto capaz de multiplicar o fluxo de interesse por um território que tem características únicas na cidade”, afirma.
Mazzotti acredita ainda que o potencial da região deve atrair novos investimentos nos próximos anos. “Sou um forasteiro no lugar, mas minha percepção é de que em breve pessoas de fora de Faria Lemos vão apostar no território, com novas opções gastronômicas, de hospedagem ou entretenimento”, projeta.
Juventude e sucessão no campo
Outro tema presente nas entrevistas é o futuro dos jovens e a continuidade das atividades rurais.
Para Cristofoli, a permanência das novas gerações depende muito da forma como a atividade agrícola é apresentada dentro das famílias. “Não envolver os filhos e apresentar a atividade apenas como algo difícil é um dos fatores que mais afasta os jovens”, afirma.
Cristofoli defende uma visão mais empresarial das propriedades rurais e acredita que a profissionalização pode contribuir para tornar a atividade mais atrativa.
Enderle observa que a decisão de permanecer ou deixar o interior continua sendo influenciada por fatores econômicos e familiares. “O trabalho rural exige esforço físico e isso muitas vezes é comparado com as oportunidades disponíveis nas áreas urbanas”, afirma.
Apesar disso, diversos entrevistados percebem sinais positivos. A moradora Janete Maria Petroli Buffon afirma que as novas tecnologias têm despertado interesse dos jovens pela atividade agrícola. “Os drones, os equipamentos modernos e a mecanização estão aproximando muitos jovens do setor”, observa.
Ela recorda ainda que, durante a edição deste ano do desfile da Fenavinho, chamou sua atenção a presença de jovens conduzindo máquinas agrícolas e representando a vitivinicultura local. “Foi algo que me marcou muito positivamente”, relata.
Pergher também acredita que existe espaço para que as novas gerações permaneçam no distrito. “O sonho de muitos pais é que os filhos deem continuidade ao trabalho da família. Eu acredito que há oportunidades para isso”, afirma.
Segurança e vigilância comunitária
Embora os entrevistados não relatem índices elevados de criminalidade no distrito, moradores apontam algumas preocupações relacionadas à segurança. Entre elas estão o aumento do fluxo de veículos na ERS-431 e episódios de vandalismo registrados nos últimos anos.
Sara afirma que o movimento intenso na rodovia gera apreensão entre os moradores, principalmente por se tratar de uma rota alternativa utilizada por motoristas de diferentes localidades. “É bom que exista movimentação, mas também existe uma preocupação com a segurança, principalmente pelo aumento do fluxo de veículos e não há muito policiamento”, observa.
Segundo Janete, mãe de Sara, os moradores mantêm grupos de comunicação por aplicativos de mensagens para compartilhar informações sobre situações consideradas suspeitas. O monitoramento por câmeras também se tornou mais comum entre as famílias da região. Ela relata ainda preocupação com ocorrências registradas no cemitério da comunidade. “Tem acontecido vandalismo, com danos em capelas, furtos de placas e vasos, além do descarte de restos de animais, alimentos e bebidas. É uma situação que preocupa muito as famílias”, afirma.
Apesar disso, Janete destaca que a comunidade mantém uma rede de colaboração entre os moradores, que auxilia na identificação de problemas e na comunicação rápida de ocorrências.

Cultura ajuda a preservar a identidade local
A história de Faria Lemos está diretamente ligada aos imigrantes que colonizaram a região a partir de 1877, principalmente vindos do Tirol, Vêneto e Lombardia, na Itália. Com a chegada de novas famílias e o desenvolvimento da localidade, o distrito foi oficialmente criado em 1925, tornando-se o primeiro e mais antigo distrito de Bento Gonçalves.
Com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento socioeconômico e cultural da comunidade, foi criada em 1999 a Associação Caminhos de Faria Lemos. Entre as iniciativas desenvolvidas pela entidade está o Projeto Caminhos da Música, iniciado em 2007 como forma de resgatar e valorizar a cultura local, além de incentivar a permanência das famílias no meio rural.
Atualmente, o projeto reúne diferentes grupos artísticos, entre eles a Orquestra de Sopros de Faria Lemos, formada por 25 integrantes com idades entre 12 e 92 anos; o Coro Adulto Caminhos de Faria Lemos, criado em 2011 e responsável pela realização anual do Encontro de Coros da Primavera; e o Grupo de Iniciação à Música Instrumental, voltado ao estímulo da prática musical entre as crianças da comunidade e à formação de novos integrantes para a orquestra.
Planejamento e perspectivas para o futuro
Ao projetar os próximos anos, os entrevistados apontam caminhos semelhantes para o desenvolvimento.
Para Dal Pizzol, o crescimento do distrito passa necessariamente pela organização de longo prazo. “Deveríamos planejar bem o futuro e executar aquilo que for possível. A pior coisa é fazer improvisado”, afirma.
Na avaliação do empresário, a região reúne condições para desempenhar papel importante no desenvolvimento turístico de Bento Gonçalves. “O território deste distrito, do ponto de vista turístico e das atividades ligadas ao turismo, é o futuro do município”, projeta.