Manter uma festa comunitária vai muito além de organizar missa, almoço e confraternização. Exige meses de preparação, dezenas de pessoas envolvidas e uma rede de colaboração que, ano após ano, tem se tornado mais difícil de formar. Essa é a realidade enfrentada pela comunidade da Capela Nossa Senhora das Neves, no Vale dos Vinhedos, que voltou a celebrar sua padroeira reunindo fiéis, moradores e visitantes em um momento marcado pela devoção, mas também pelo desafio de preservar uma tradição que já reuniu mais de 500 pessoas.
A programação contou com missa pela manhã, seguida do tradicional almoço comunitário, preparado por uma equipe de voluntários que trabalhou durante dias para receber o público. Nos bastidores, cerca de 50 pessoas atuaram em diferentes frentes, desde a cozinha até a churrasqueira, copa, portaria e atendimento aos participantes.
A organização da festa começou aproximadamente dois meses antes do evento, com a venda de ingressos, busca por colaboradores e preparação da estrutura. Apesar dos convites, ninguém aceitou assumir como festeiro neste ano, fazendo com que o trabalho recaísse sobre um grupo reduzido de voluntários. “Nós começamos a organização há cerca de dois meses. Iniciamos com a venda e distribuição dos ingressos e conversando com as pessoas, convidando quem gostaria de ser festeiro e pudesse nos ajudar. Tivemos o retorno de algumas pessoas, mas ninguém quis assumir. Mesmo assim, contamos com a ajuda de várias pessoas da região. Sem essa colaboração, a gente não consegue fazer uma festa”, afirma a voluntária Jassana Mella Alba.
Mesmo diante das dificuldades, a expectativa de público foi superada. A organização havia preparado a estrutura para receber 180 pessoas. Os 160 ingressos vendidos antecipadamente acabaram sendo complementados pelos participantes que decidiram comparecer no dia, favorecidos pelo tempo bom.

Desafios
A redução no número de pessoas dispostas a atuar voluntariamente é apontada por diferentes integrantes da comunidade como o principal obstáculo para garantir a continuidade da festa. Para André Carraro, que auxiliou na organização, a mudança no estilo de vida e a rotina cada vez mais intensa afastam principalmente as novas gerações do trabalho comunitário. “Hoje a vida está tão corrida que não existe mais só sábado e domingo. Essa falta de tempo pesa bastante. Os mais velhos estão saindo, e os mais jovens, ou mesmo a minha geração, são poucos os que querem abraçar a causa”, avalia.
Segundo ele, as dificuldades também aparecem na busca por patrocinadores e doações para o tradicional rifão. “Hoje tu vai nas empresas e sabe que todo dia tem alguém pedindo alguma coisa. Conseguir apoio está bem complicado”, relata.
Carraro ressalta ainda que uma festa comunitária depende de um grande número de pessoas trabalhando simultaneamente e acredita que será necessário repensar o formato do evento no futuro caso a participação continue diminuindo. “Para fazer tudo funcionar, precisa de pelo menos umas 50 pessoas trabalhando. Mas a fé a gente vai manter. Se um dia não der mais para fazer a festa como ela é hoje, vamos fazer o mais importante, que é nos reunir na igreja, rezar e agradecer”, afirma.
Na cozinha, o cenário é semelhante. Há cerca de 15 anos colaborando com a comunidade, Maria Geremias acompanha a transformação das festas ao longo do tempo. Ela recorda que, em outras épocas, os almoços chegavam a reunir centenas de participantes, mas ressalta que o comprometimento dos voluntários continua sendo o diferencial. “A equipe é nota mil. Aqueles que estão fazem o trabalho por quatro”, ressalta.
Preservar o patrimônio
Além da dedicação voluntária, os recursos arrecadados durante a festa têm papel fundamental na manutenção do patrimônio da comunidade. Conforme Jassana, parte da receita é destinada ao pagamento das reformas realizadas anteriormente e às melhorias constantes na igreja, como pintura e manutenção do piso, afetado pela umidade.
Localizada em um dos principais roteiros turísticos de Bento Gonçalves, a Capela também desperta atenção pelo valor histórico. Para Carraro, o potencial turístico do espaço ainda é pouco explorado e poderia receber maior apoio institucional para contribuir com a preservação do patrimônio. “Esta capela é um marco. Só o fato de ela ter sido construída utilizando vinho em uma parte da obra já é algo muito diferente. Talvez uma comissão pudesse buscar recursos para melhorar o patrimônio, porque a comunidade já está muito sobrecarregada”, afirma.

Quem também defende uma maior mobilização em torno da comunidade é Sandro Giordani. Segundo ele, preservar a igreja significa manter viva uma parte importante da história da imigração italiana no Vale dos Vinhedos. “É um patrimônio que foi construído pelas próprias famílias. Precisamos tentar nos mobilizar de alguma forma para que elas consigam participar mais”, diz.
Apesar das dificuldades, quem ajuda afirma que a motivação permanece a mesma: fortalecer a fé e proporcionar um espaço de encontro entre as famílias. Para Jassana, o maior retorno de todo o esforço aparece quando o almoço termina e as pessoas permanecem reunidas. “Vale a pena organizar a festa para ver esse momento de convivência. O mais interessante é que quase ninguém está no celular. As pessoas estão conversando, olhando umas para as outras”, conclui.





