Com estrutura considerada completa pelos moradores, comunidade ainda enfrenta desafios em manutenção das vias e iluminação
Entre os bairros mais tradicionais da cidade, o Botafogo vive um momento de transformação impulsionado pelo crescimento comercial, pela expansão de serviços e pela valorização de sua localização estratégica. Com forte presença de empresas familiares, novos empreendimentos e uma estrutura considerada completa pelos moradores, o bairro mantém características residenciais enquanto se consolida como um importante polo econômico e de atendimento da cidade.
Além da presença da principal Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município, localizada no bairro, a região também registra a abertura recente de novas agências bancárias e a ampliação de salas comerciais disponíveis para locação, fatores apontados por moradores e comerciantes como sinais do desenvolvimento local.
A reportagem ouviu moradores e empreendedores que acompanham diariamente as transformações do bairro.
História que acompanha o crescimento do bairro

Um dos principais símbolos da região é o tradicional Clube Botafogo, que neste ano completa 67 anos de fundação. Segundo o presidente, Antonio Natal de Barba, a história da entidade se mistura com a própria formação do bairro.
De acordo com ele, o clube surgiu inicialmente a partir de um time de futebol, em uma região que ainda tinha pouca ocupação urbana. Com o passar dos anos, o espaço foi crescendo e se consolidando como ponto de encontro da comunidade. “Depois foram sendo compradas áreas para a construção da sede. Na época praticamente não existia nada ali. Como tinha o time de futebol do Botafogo, o bairro acabou adotando o nome do clube”, explica.
Segundo De Barba, o crescimento do bairro e do clube aconteceu de forma conjunta ao longo das décadas. “Cresceram juntos. Sempre houve uma boa integração entre a comunidade e o clube”, afirma.
Atualmente, a entidade mantém diversas atividades esportivas, sociais e culturais. Entre elas estão bailes para a terceira idade, ginásio esportivo, piscinas, sede campestre, bolão, campos de futebol e o CTG Herdeiros da Bombacha.
Todos os domingos, a Sede Social também se transforma em ponto de encontro para moradores e visitantes durante as tradicionais domingueiras realizadas no salão de eventos. Os bailes, voltados principalmente ao público da segunda e terceira idade, reúnem frequentadores de diferentes localidades e fazem parte da rotina social da comunidade há anos. Segundo o presidente, a atividade segue acontecendo regularmente e mantém vivo o vínculo com os moradores. Para garantir maior conforto e evitar transtornos à vizinhança, o espaço recebeu isolamento acústico. “Antes havia reclamações por causa do som alto. Hoje tu passa na frente e nem percebe que está tendo baile”, comenta.
Ele também destaca que o bairro se transformou em um polo comercial importante da cidade. “Hoje é muito próspero. Tem um comércio forte e praticamente todos os segmentos estão presentes ali”, avalia.

Estrutura completa
A percepção de crescimento também é compartilhada pela empresária e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bento Gonçalves, Helenir Bedin, moradora do bairro há cerca de 50 anos e proprietária da loja Carlize, instalada no Botafogo há 45 anos. Segundo ela, o bairro se tornou praticamente autossuficiente em serviços. “Hoje ele tem uma infraestrutura totalmente completa. Tem comércio, UPA, farmácias, supermercados. O Botafogo se tornou independente do centro, porque é um bairro onde não está faltando nada”, afirma.

Ela observa ainda o crescimento do número de estabelecimentos. “Está surgindo muito comércio nesse bairro. Vejo muita oferta de imóveis e salas comerciais”, comenta.
Apesar disso, Helenir acredita que o cenário econômico atual exige cautela para novos investimentos. “Existe crescimento, mas talvez não seja o momento ideal para empreender”, pondera.
Mesmo assim, ela destaca a tranquilidade como uma das principais características do local. “É um bairro bom de morar, tranquilo. Gosto muito daqui”, resume.
A comerciante Marilene Montagner, moradora do bairro Santa Helena e proprietária de uma loja localizada na Rua Fortaleza, no Botafogo, há 14 anos, também percebe mudanças aceleradas na região. “Vieram bancos, novas salas comerciais e ainda vai se desenvolver mais”, afirma.

Ela destaca que o fluxo intenso de veículos favorece o comércio local, especialmente por conta da ligação do bairro com outras regiões da cidade. “Muita gente passa por aqui vindo do São Roque, Vila Nova, São João, Santa Helena etc. O pessoal vê a vitrine e acaba entrando”, conta.
Apesar da avaliação positiva, Marilene acredita que os moradores poderiam valorizar mais os estabelecimentos locais. “Isso fortalece a própria região”, observa.
Centro comercial
Morador e empreendedor há cinco décadas no Botafogo, Gelson Schenato acompanhou toda a transformação da Rua Florianópolis, onde mantém uma tradicional loja de bicicletas. Segundo ele, o estabelecimento foi o primeiro comércio da via. “Quando eu comecei aqui era estrada de chão. Não tinha praticamente estabelecimento nenhum”, lembra.

Hoje, a realidade é completamente diferente. “Se tornou um centro comercial”, afirma.
O comerciante atende clientes de Bento Gonçalves e também de outros municípios da região. “A gente criou uma tradição ao longo dos anos. Temos clientes de várias cidades”, diz.
Mesmo com o crescimento, ele avalia a região de forma positiva. “Ainda acho o nosso bairro seguro. Problemas existem em todos os lugares, mas aqui está tudo bem assistido”, afirma.
UPA fortalece movimento
Outro fator constantemente citado pelos entrevistados é a presença da UPA 24h do Botafogo, considerada a principal unidade de Bento Gonçalves. Além do atendimento em saúde, moradores afirmam que a estrutura influencia diretamente na movimentação econômica do bairro.
À frente de uma oficina mecânica familiar localizada na Rua Goiânia, o empresário Marcelo Buratti acredita que a UPA ajuda a fortalecer o comércio local. “Muita gente que vem consultar ali acaba vindo aqui também. Para nós é positivo”, comenta.

Buratti também avalia que a movimentação gerada pela unidade contribui para a sensação de segurança no bairro. “Por ser uma região bastante movimentada, acredito que acaba ficando mais segura”, afirma.
Ele destaca ainda a atuação dos grupos comunitários ligados à segurança. “Tem um da Guarda Civil Municipal da Zona Sul que funciona muito bem. Quando alguém relata algum problema, a resposta é quase imediata”, relata.
O comerciante e morador do Botafogo Valter Pissetti, de 79 anos, também acredita que a presença da unidade influencia diretamente a dinâmica, principalmente no transporte coletivo. Segundo ele, o Botafogo possui uma quantidade significativa de horários de ônibus justamente por concentrar serviços essenciais de saúde. Apesar disso, ele aponta dificuldades de deslocamento entre bairros. “Tem bastante horário de ônibus, mas depois da pandemia diminuiu um pouco. O problema é que não tem linha direta daqui para o São Roque. A gente precisa pegar um ônibus até a rodoviária e depois outro para o São Roque”, comenta.

Infraestrutura
Embora o crescimento seja reconhecido pelos moradores, algumas demandas relacionadas à infraestrutura aparecem de forma recorrente nos relatos.
Para Schenato, o aumento do fluxo de veículos trouxe dificuldades para comerciantes e moradores. “As ruas são antigas e estreitas. Não vejo muito o que fazer para melhorar”, reflete.
Ele também destaca a falta de vagas de estacionamento. “Quem tem comércio e não possui espaço destinado acaba enfrentando dificuldades”, observa.
Buratti aponta a necessidade de melhorias no asfaltamento das ruas secundárias do bairro. “As menores têm carência de qualidade. Tem muito buraco e o calçamento não é dos melhores”, comenta.
O problema também é citado por Pissetti. “Em dias de chuva quando os carros passam, acabam jogando água nas pessoas”, relata.
Segundo ele, a pavimentação precisa de manutenção constante. “Não precisaria trocar tudo, mas arrumar os buracos já ajuda bastante”, afirma.
Pontos de atenção
Apesar da avaliação positiva em relação à segurança, alguns moradores apontam situações que ainda geram preocupação. Marilene cita a iluminação como um dos pontos que merecem atenção. “De noite fica meio escuro naquela região dos trilhos. Poderiam reforçar a iluminação”, sugere.
Já Pissetti lembra de uma sequência de assaltos registrada há cerca de quatro ou cinco anos. “Foi uma época complicada. Tivemos vários delitos”, recorda.
Mesmo assim, ele acredita que a situação melhorou nos últimos anos. “Agora está mais tranquilo”, afirma.
Segue em expansão
Apesar das críticas pontuais, a percepção predominante entre moradores e comerciantes é de que o Botafogo continua crescendo e se consolidando como uma das regiões mais fortes de Bento Gonçalves.
Ao mesmo tempo, a presença de serviços essenciais, como a UPA, somada à tradição do Clube Botafogo e ao fortalecimento do comércio local, ajudam a consolidar a identidade do local.
Para quem acompanhou o Botafogo desde os tempos de estrada de chão, as mudanças impressionam. “Hoje praticamente não existe mais terreno vazio”, conclui Buratti.