Nos últimos anos, a cidade de Bento Gonçalves tem acompanhado uma tendência observada em todo o Brasil: o aumento significativo na procura por cuidadores de idosos. Esse fenômeno está diretamente ligado ao envelhecimento da população, que vem se intensificando de forma acelerada nas últimas décadas.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com 65 anos ou mais no país cresceu mais de 57% entre 2010 e 2022, passando a representar cerca de 10,9% da população brasileira. Esse crescimento ocorre em paralelo à redução das taxas de natalidade, o que altera a estrutura etária e resulta em uma população cada vez mais idosa.
Nesse contexto, municípios como Bento Gonçalves, que já apresentam características de envelhecimento populacional, passam a demandar mais serviços voltados ao cuidado e à atenção à pessoa idosa. Muitas famílias, diante da rotina de trabalho e das novas configurações familiares, encontram nos cuidadores uma alternativa essencial para garantir qualidade de vida, segurança e acompanhamento adequado aos seus familiares mais velhos.
Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o muncípio tem 123.151 habitantes, dos quais 15.397 têm 65 anos ou mais. Além disso, o número de pessoas com 60 anos ou mais já supera o grupo de até 14 anos de acordo com dados divulgados pelo Bento+20, evidenciando uma mudança na estrutura etária da cidade e o crescente desafio de atender às demandas de cuidados e serviços voltados à população idosa.
De acordo com Mônica Dalla Corte, gestora administrativa da Affetto Cuidados Contínuos, que oferece assistência a pessoas idosas em Bento Gonçalves, o crescimento é perceptível. “A população vem envelhecendo e a procura está cada dia maior por cuidadores capacitados. Hoje estamos em torno de 70 profissionais, nos quais atendem diversas áreas”, explica.
Para Lucilene Soltau, gerente da Nolar Cuidadores de Idosos, as famílias estão cada vez mais ocupadas, o que faz com que procurem os cuidadores. “É exaustivo psicologicamente e fisicamente, então as famílias acabam optando por um cuidador, pois assim conseguem conviver com o familiar, e monitorar os cuidados”, destaca.
Ela menciona que o poder aquisitivo das famílias também influencia. “As pessoas não querem parar suas vidas para cuidar, mas querem ter a certeza que vão ser bem tratadas, e vão estar ali presentes”, afirma a profissional.


Demanda x oferta
Lucilene conta que, após a pandemia, muitas pessoas se tornaram cuidadores. “Para ser cuidador tem que ter o dom, a paciência, o carinho, empatia, não apenas pensar no dinheiro, pois se pensar nisso vai viver os dias infelizes. Convivemos com a dor dos outros, com a dificuldade, resistência de muitos idosos em aceitar um estranho na sua casa, então precisa amor pela profissão”, frisa.
Em sua empresa, ela conta com 12 cuidadores fixos e seis extras. “A experiência, paciência, carinho e pontualidade contam mais que um diploma, então a maioria dos nossos cuidadores não o possui, mas passam por um treinamento logo que inicia. A maioria tem entre 40 e 60 anos”, destaca.
Mônica frisa que os profissionais que atendem em seu ambiente possuem mais de 45 anos e, segundo ela, há uma carência de pessoas capacitadas e comprometidas com a área. “Apesar de parecer simples, o cuidado com os idosos é bastante complexo, exigindo do profissional equilíbrio emocional, paciência, conhecimento técnico e muitas vezes força física para poder prestar os cuidados adequados para cada patologia”, explica.

Serviços oferecidos
Em seu espaço, Mônica explica que os serviços oferecidos incluem o cuidado de pessoas tanto no domicílio quanto no ambiente hospitalar, além de atendimentos de enfermagem, como aplicação de medicamentos, troca de sondas e realização de curativos. “O principal objetivo da empresa é fazer toda a gestão das profissionais e também dos cuidados com a saúde do paciente, ou seja, uma equipe multiprofissional que cuida de todos os itens relacionados”, conta.
Ela ressalta que os primeiros dias de trabalho dos novos empregados são dedicados ao treinamento. “Tanto por uma responsável, quanto pela própria família, pois cada família tem seu sistema e quer que seja feito conforme a rotina do paciente, e cada um tem sua rotina, e devemos respeitar”, afirma.
Já na empresa da Mônica, é realizado um processo de seleção de profissionais, que inclui avaliação de comportamento e de conhecimento técnico, seguido de treinamento com profissionais mais experientes, garantindo um atendimento qualificado e seguro.

Envelhecimento da população
De acordo com o Governo do Rio Grande do Sul, o estado apresenta a maior proporção de idosos do Brasil, com cerca de 2,19 milhões de pessoas, segundo o Censo 2022. A expectativa de vida está em 76,4 anos, porém, atrelado a isso, cresce a incidência de demência e doenças crônicas, afetando a autonomia e independência dos idosos. “Hoje temos uma grande parte da população mais velha ainda muito ativa, mas com os muito longevos cada vez mais existem demências, dependência para locomoção, alimentação, higiene e controle de medicamentos e indicadores de saúde”, menciona Mônica.

Demanda
Lucilene destaca que a procura por cuidadores tende a continuar crescendo. “É uma forma de manter o convívio com o familiar, ao mesmo tempo em que permite seguir com a rotina normalmente”, afirma.
Ela ressalta ainda que a quantidade de vagas varia bastante. “Quando não conseguimos um profissional, indicamos para outra empresa. Quando surge vaga, tem vários candidatos, mas que tenham responsabilidade são poucos”, finaliza.
Para Mônica, o avanço das tecnologias aliado ao desenvolvimento de novos medicamentos tem contribuído diretamente para o aumento da longevidade, permitindo que as pessoas vivam cada vez mais e com melhor qualidade de vida. Nesse contexto, ela destaca que a crescente demanda por cuidados também se reflete no mercado de trabalho.