Todos nós passamos pelo luto em algum momento da vida, uma resposta natural à perda de alguém importante. No entanto, para muitas pessoas, essa dor pode se tornar algo mais profundo e persistente, evoluindo para o Transtorno do Luto Prolongado (TLP), um quadro clínico reconhecido em 2022 no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com a psicóloga Franciele Sassi, especialista em luto, perdas e suicídio, o diagnóstico de transtorno de luto prolongado pode ser considerado, conforme o DSM-5-TR, quando a dor emocional profunda, a saudade intensa ou a preocupação persistente com o ente querido permanecem por um período mínimo de 12 meses em adultos e seis meses em crianças e adolescentes, como:
- Sentimento de solidão e de que parte de si morreu também;
- Dificuldade em aceitar a morte;
- Evita lembranças que reforcem a perda;
- Sensação de vazio ou falta de sentido na vida.
Ela menciona que essas são algumas características que causam prejuízo significativo em áreas importantes da vida e que impedem o enlutado de reinvestir em relações ou projetos. “Importante destacar que a intensidade e duração do luto, no TLP, excedem o que é esperado culturalmente, embora este período não seja considerado o maior critério diagnóstico, uma vez que é necessária avaliação profissional especializada de um conjunto de fatores da história pessoal de cada um”, explica.

Luto saudável
Franciele frisa que, para um luto ser considerado saudável, é natural que existam oscilações de humor. “Com momentos de dor intensa alternados com períodos de maior adaptação. Gradualmente, a perda é integrada à narrativa pessoal e o indivíduo consegue reinvestir energia emocional em novos vínculos, funções ou projetos”, salienta.
Ela explica que, no TLP, a dor emocional se mantém estagnada e dominante, pouco modulada pelo passar do tempo. Esse sofrimento contínuo cria um vazio existencial, gerando uma sensação de perda de sentido e identidade, o que bloqueia o processo natural de adaptação e continuidade da vida. Como resultado, a pessoa afetada enfrenta dificuldades significativas em retomar suas atividades cotidianas e reconectar-se com o mundo ao seu redor, prejudicando seu funcionamento emocional, social e até físico.
Sinais de alerta
A psicóloga destaca alguns indicadores de atenção em relação ao risco do desenvolvimento do sintoma, sendo eles: “Saudade e dor emocional muito intensas e quase diárias, que permanecem praticamente inalteradas após muitos meses; sensação de que ‘nada mudou’ internamente desde a morte; dificuldade contínua de trabalhar, estudar ou manter rotinas; isolamento social importante; incapacidade de retomar atividades antes significativas ou retomar a vida; perda de propósito e sentido na vida, reduzindo a possibilidade de projetar um futuro; ideação suicida relacionada ao desejo de reencontro”, explica.
Ela ressalta que o objetivo do reconhecimento clínico não é patologizar o luto ou a experiência emocional, mas sim proporcionar um diagnóstico preciso e um tratamento adequado para os casos em que o sofrimento se torna excessivo e debilitante, prejudicando a saúde mental do indivíduo.
Aumento da probabilidade
A especialista menciona que, geralmente, isso ocorre quando há fatores relacionados à pessoa, ao vínculo estabelecido e às circunstâncias da morte, componentes que podem intensificar ou prolongar o processo de luto, como:
- Quando há morte súbita, violenta ou traumática (acidentes, homicídios, suicídio);
- A perda de filho(a) ou de vínculo considerado central;
- Mortes precedidas por sofrimento intenso (UTI prolongada, doença dolorosa);
- Falta de despedida ou impossibilidade de rituais (um exemplo foi a pandemia e a inexistência dos velórios);
- Histórico prévio de depressão, ansiedade ou trauma;
- Baixa tolerância à incerteza ou dificuldade prévia com separações;
- Relação com forte dependência emocional;
- Conflitos não resolvidos;
- Isolamento devido a uma rede de apoio frágil;
- Estressores simultâneos como a perda de trabalho, mudança de cidade.
Perfis
Franciele menciona que, geralmente, em crianças e adolescentes, o transtorno de luto prolongado ocorre quando a perda envolve os cuidadores primários, especialmente em casos de dependência emocional e material, ou em situações de instabilidade familiar. “A capacidade cognitiva ainda em desenvolvimento também pode dificultar a compreensão da irreversibilidade da morte”, explica.
Segundo a especialista, nos idosos, a vulnerabilidade ao transtorno de luto prolongado é maior quando ocorre a perda do cônjuge após um vínculo de longa duração, especialmente em um momento da vida em que há uma redução natural da rede social e a presença de perdas “acumuladas” ao longo dos anos. Além disso, condições como depressão prévia, transtornos de ansiedade, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), ou histórico de trauma elevam significativamente o risco de desenvolvimento do transtorno. “A vulnerabilidade não está apenas na idade, mas na combinação entre dependência do vínculo perdido, recursos psíquicos prévios, capacidade de regulação emocional e suporte social disponível”, salienta a psicóloga.
Abordagem terapêutica
Segundo ela, os tratamentos mais eficazes para o transtorno de luto prolongado são intervenções estruturadas e direcionadas especificamente ao luto, em vez de psicoterapias genéricas de apoio. “Atualmente, temos a terapia específica para luto prolongado, unindo as abordagens cognitivas comportamentais (TCC), teoria do apego/vínculos e técnicas de exposição (a depender do caso); EMDR para o caso de perdas traumáticas com técnicas específicas de visualização; e o uso de medicações complementares”, menciona.
Ela explica que os medicamentos não são considerados tratamentos de primeira linha para este caso. “Geralmente, são utilizados para tratar sintomas relacionados às comorbidades (como o desenvolvimento de quadros de depressão ou ansiedade, por exemplo). A psicoterapia é considerada a abordagem central, porque o núcleo do transtorno envolve a necessidade de processamento da realidade da perda, a reorganização do vínculo interno com o falecido e a reconstrução de identidade e sentido, para a retomada gradual do investimento na vida, e esses processos não são diretamente modificados por medicação, além do que precisa ser avaliada cada história de vida e suas relações para compreender como impactam as perdas, os rompimentos e os distanciamentos a cada um”, explica Franciele.
Suporte familiar
Oferecer amparo adequado a alguém com sofrimento intenso por perda envolve presença, prestação de serviços práticos que às vezes acabam ficando difíceis para os enlutados, validação, reconhecimento e respeito ao tempo psíquico e à forma como a pessoa lida com o seu luto, de acordo com ela. “Não é sobre acelerar a superação, muito menos sobre ‘ter que saber o que falar’ ou usar palavras bonitas que podem irritar e não fazer sentido ao enlutado, mas é sobre caminhar junto enquanto a dor encontra, gradualmente, um novo lugar na vida da pessoa. Só parece difícil porque nossa cultura tem dificuldade de falar sobre o assunto; se houvesse uma conscientização maior sobre o tema, as pessoas lidariam melhor tanto com o seu luto quanto com a proximidade do outro para ajudar”, orienta.
Pandemia
De acordo com Franciele, essa época alterou profundamente a vivência do luto. “O grande número de mortes em curto período, a impossibilidade de despedidas presenciais, as restrições aos rituais fúnebres e o isolamento social aumentaram sentimentos de solidão, irrealidade e falta de apoio, fatores que dificultam a elaboração da perda”, menciona.
O que aconteceu também foi o aumento do luto prolongado em comparação com os períodos pré-pandemia. “Especialmente entre pessoas que vivenciaram mortes súbitas, múltiplas perdas ou contextos traumáticos. A pandemia não apenas ampliou o número de enlutados, mas também criou condições que favoreceram maior risco de sofrimento intenso e persistente, com consequente aumento na procura por apoio em saúde mental”, finaliza a psicóloga.
Suporte
Segundo o Ministério da Saúde (MS), o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento a pessoas em sofrimento psíquico por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A Atenção Primária à Saúde desempenha um papel essencial como porta de entrada para o cuidado, especialmente no que se refere aos Transtornos Mentais leves e moderados. Isso ocorre não apenas pela sua ampla capilaridade, mas também pelo conhecimento profundo da população, do território e dos determinantes sociais que influenciam as mudanças comportamentais, o que permite um apoio mais eficaz e adequado ao cuidado integral do indivíduo.