Se parar para pensar, a morte é, de certa forma, um egoísmo nosso. Não querer que alguém se vá é pensar em nós mesmos e não no descanso e na paz que o outro talvez mereça. É óbvio que ninguém deseja se separar de quem ama, mas aprender a soltar também é um ato de amor. Significa confiar que, assim como as folhas do outono caem sem pedir licença, todos temos a nossa hora de partir.
Talvez por isso, na oração do Pai-Nosso, repetimos: “Seja feita a Tua vontade”. Não a nossa, mas a Dele. Gosto de pensar que, se Deus não impede toda dor, ao menos a atravessa conosco. E que, aos poucos, aprendemos a seguir em frente mesmo sem a presença física de quem partiu. Como diziam os antigos: “Chi che more, el mondo lassa, chi che resta se la passa.”
Escrevo isso porque, esta semana, perdi mais um ente querido. Uma pessoa generosa, que não merecia dor, tampouco partir tão jovem, aos seus sessenta e poucos anos. Mas a vida raramente consulta o nosso senso de justiça. Talvez já nasçamos sabendo que um dia iremos embora.
Ela fazia a vida dos outros extraordinária de forma simples. Esperava com a janela aberta, a fumaça do fogão a lenha subindo ao fundo e a comida quente servida como demonstração de amor. Vinha sorrindo até a porta, de braços abertos. Fazia questão da visita, do almoço em família, do café passado na hora, do chimarrão compartilhado, das histórias repetidas e das risadas demoradas. Nunca precisou de muito para ser feliz. Vivia pelos seus, mesmo tendo pouco.
Quando o último morador de uma casa parte, algo se fecha junto. A porta já não se abre com a mesma frequência. O cheiro desaparece. A voz silencia. As visitas se tornam mais raras. Aos poucos, a memória tenta preencher os espaços vazios deixados pela ausência.
Lamento perceber que, ainda relativamente jovem, já perdi mais tios do que minha mãe, que tem alguns na casa dos oitenta e noventa anos. Era outra geração. Gente que enfrentou frio, fome, distância, falta de recursos, sem eletricidade, sem médicos por perto, sem conforto. Tinham apenas a fé, a coragem e a certeza de que era preciso seguir.
Talvez a vida seja uma viagem em que Deus é o piloto, decidindo quem embarca e quem desembarca em cada estação. Cabe a nós apreciar a paisagem enquanto ela passa pela janela, valorizar as pessoas que dividem o caminho conosco e guardar no coração aquilo que realmente importa.
Porque, no fim das contas, a saudade nunca será maior do que o privilégio de ter vivido momentos que merecem ser lembrados. Embora a morte leve quem amamos, ela não é capaz de levar aquilo que deixaram em nós. Ficam os almoços de domingo, as histórias repetidas, os abraços demorados, o cheiro da comida no fogão e a lembrança de quem fez da simplicidade uma forma de amar.
Quem morre deixa o mundo; quem fica é que precisa seguir vivendo. Talvez seja essa a parte mais difícil. Mas também é a nossa missão: continuar o caminho, honrar as lembranças e agradecer pelo privilégio de ter compartilhado um pedaço da estrada com quem já partiu.