Especialistas analisam o impacto dos arquétipos na construção de figuras icônicas no cinema, nas séries e nos jogos eletrônicos

Ao longo da história, diferentes civilizações buscaram compreender os comportamentos humanos, os símbolos presentes nas culturas e os padrões que se repetem nas narrativas, nas crenças e nas relações sociais. Dessa inquietação nasceram estudos que atravessaram áreas como a filosofia, a psicologia, a antropologia e a literatura, consolidando o conceito de arquétipos como uma das mais influentes teorias sobre a construção da personalidade e do imaginário coletivo. Embora manifestações arquetípicas possam ser observadas desde os mitos da Antiguidade, foi no século XX que o tema ganhou aprofundamento teórico e reconhecimento acadêmico.
O principal responsável pela consolidação do conceito foi o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, que desenvolveu a ideia de que existem imagens, símbolos e modelos universais compartilhados pela humanidade por meio do chamado inconsciente coletivo. Para Jung, figuras como o herói, o sábio, a mãe, o rebelde e o governante atravessam gerações e culturas, influenciando pensamentos, emoções e comportamentos humanos. Seus estudos dialogaram com obras de pensadores e pesquisadores consagrados, como Sigmund Freud, além de mitólogos e estudiosos da narrativa, entre eles Joseph Campbell, autor que aprofundou a presença dos arquétipos nas jornadas heroicas presentes em diferentes tradições culturais.
Com o passar das décadas, o conceito extrapolou os limites da psicologia e passou a influenciar áreas como publicidade, marketing, cinema, literatura e construção de marcas. Atualmente, os arquétipos são utilizados para compreender desde padrões de comportamento individual até estratégias de comunicação capazes de gerar identificação emocional com o público.

A definição e a escolha precisam de um arquétipo que atue diretamente na conexão emocional do público com o protagonista

A necessidade de contar histórias
Muito antes da invenção da escrita, dos livros, das câmeras fotográficas ou das telas de cinema, a humanidade já contava histórias. A necessidade de narrar experiências, transmitir conhecimentos e dar sentido ao mundo parece ser tão antiga quanto a própria espécie humana. Os primeiros registros dessa vocação narrativa remontam ao período pré-histórico, quando grupos humanos deixaram pinturas nas paredes de cavernas como as de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha. Essas representações de animais, caçadas e figuras simbólicas não eram apenas manifestações artísticas, mas também formas primitivas de comunicação e preservação da memória coletiva.
Entretanto, durante a maior parte da história humana, as histórias não eram vistas nem lidas: eram ouvidas. Antes do surgimento da escrita, a tradição oral foi o principal instrumento para transmitir conhecimentos, valores culturais, mitos de origem e ensinamentos morais. Heróis, divindades, monstros, jornadas e desafios eram repetidos de geração em geração, moldando a visão de mundo de diferentes civilizações.
Foi nesse ambiente que nasceram alguns dos arquétipos mais duradouros da experiência humana. O herói que enfrenta desafios extraordinários, o sábio que orienta a jornada, o guerreiro, o governante, o trapaceiro e a figura materna protetora já estavam presentes nos mitos e narrativas ancestrais muito antes de receberem nomes ou classificações acadêmicas. Esses modelos simbólicos sobreviveram porque expressam experiências universais da condição humana.
Com o desenvolvimento da escrita, por volta de 3.500 a.C., na Mesopotâmia, as histórias deixaram de depender exclusivamente da memória dos narradores. Os registros em tábuas de argila permitiram que narrativas fossem preservadas com maior fidelidade. Obras como a epopeia de Gilgamesh atravessaram os séculos graças a essa inovação. Posteriormente, papiros, pergaminhos e códices ampliaram as possibilidades de armazenamento e circulação do conhecimento, estabelecendo as bases para o surgimento dos livros.
A invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, em meados do século XV, representou uma transformação sem precedentes. Os livros deixaram de ser objetos raros produzidos manualmente para se tornarem instrumentos de disseminação do conhecimento em larga escala. A literatura floresceu, novos gêneros surgiram e as histórias passaram a alcançar públicos cada vez maiores.
A partir do século XIX, o desenvolvimento de técnicas capazes de registrar imagens por meio da luz inaugurou uma nova forma de contar histórias. A fotografia permitiu documentar acontecimentos, eternizar rostos e registrar momentos históricos com um grau de realismo até então impossível. A fotografia não eliminou os arquétipos narrativos; ao contrário, ofereceu novas maneiras de representá-los. O herói passou a ser retratado em imagens históricas, o líder ganhou rosto, a figura da mãe protetora tornou-se símbolo visual de afeto e resistência, enquanto personagens anônimos passaram a representar valores universais em reportagens, retratos e registros documentais.
No final do século XIX, outra inovação ampliaria ainda mais o alcance das narrativas humanas. Em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste Lumière e Louis Lumière realizaram, em Paris, aquela que é considerada a primeira exibição pública de cinema para espectadores pagantes. Pela primeira vez, imagens em movimento permitiam contar histórias de maneira dinâmica e envolvente. O cinema uniu elementos presentes desde os primórdios da humanidade: a imagem das pinturas rupestres, a narrativa da tradição oral e a estrutura dramática desenvolvida pela literatura.
A linguagem cinematográfica rapidamente se tornou uma das formas mais poderosas de comunicação do mundo moderno. Os arquétipos ancestrais encontraram nas telas um espaço privilegiado para sua perpetuação. O herói da caverna transformou-se no protagonista dos filmes épicos; o mentor dos mitos passou a orientar personagens em jornadas cinematográficas; o vilão assumiu novos rostos, mas continuou representando os mesmos conflitos fundamentais da experiência humana. A força dessas narrativas reside justamente na sua familiaridade. Embora mudem os cenários, as tecnologias e os formatos, as estruturas simbólicas permanecem reconhecíveis.
De acordo com os professores Marcelo Fardo, coordenador dos cursos de Criação Digital e de Jogos Digitais da UCS, e Lucas Fürstenau de Oliveira, professor dos cursos de Psicologia e de Jogos Digitais da UCS, o conteúdo teórico dos arquétipos possui ligação direta com os mecanismos de percepção humana. “É trabalhado dentro da disciplina de Neurociência Cognitiva Aplicada a Jogos Digitais, pois tem relação com como a cognição humana representa os papéis comumente presentes nas histórias”, explicam. A abordagem foca na síntese realizada por Christopher Vogler, que adaptou os conceitos junguianos para a literatura, servindo de base para que novos criadores planejem obras focadas em narrativas.

Personagens que são ícones culturais duradouros, como Miranda Prestley, exigem consistência e coerência nas ações

A conexão com o espectador
A definição e a escolha precisa de um arquétipo, como o Herói, o Mentor ou o Rebelde, que atuam diretamente na conexão emocional do público com o protagonista. Essas figuras funcionam como representações de papéis comuns, o que facilita o entendimento do espectador sobre a função que o personagem desempenha na trama. “Escolher um arquétipo para ser representado por um personagem facilita a compreensão, por parte do público, sobre o papel desempenhado por aquele personagem. Encaixa melhor na compreensão do espectador”, apontam os pesquisadores.
Quando a base conceitual é bem delimitada, o público consegue absorver com maior clareza as nuances da produção. “E quando algo se encaixa no que já conhecemos, fica mais fácil para entendermos os detalhes que fazem cada personagem único”, afirmam. Por outro lado, a ausência desse rigor técnico compromete a linearidade e a clareza da história, tornando-a confusa. Como exemplo prático de oscilação prejudicial, os professores citam a série de ficção científica Battlestar Galactica, de 2004. “Em vários dos episódios, alguns personagens mudam de papel: alternam entre herói, bobo, mentor, transmorfo. Cria a sensação, para o espectador, de que cada episódio está desconectado dos outros”, avaliam.

Complexidade contra o clichê
Para evitar que o uso dessas ferramentas resulte em estereótipos previsíveis, a orientação técnica para novos roteiristas é refinar a construção das figuras por meio de arcos de desenvolvimento complexos. “O uso dos arquétipos para o desenvolvimento de personagens é como qualquer ferramenta: pode ser usado de maneira muito básica, levando a personagens previsíveis, ou de maneira refinada, criando personagens complexos”, ponderam.
A consolidação de um ícone cultural duradouro exige consistência e coerência nas ações, provando que a estética visual isolada não sustenta uma narrativa a longo prazo. Os docentes mencionam Darth Vader e Severus Snape como construções bem-sucedidas em suas respectivas mídias. “Darth Vader é um ‘sombra’ icônico porque tem, em seu arco, um dos mais marcantes plot twists da história (‘Eu sou seu pai’) e por terminar com uma redenção que faz jus a este papel de pai”, pontuam. No caso de Snape, o mistério sobre sua real lealdade se estende por sete livros de forma coerente, permitindo que o leitor compreenda suas atitudes em retrospectiva. Em contrapartida, o personagem Darth Maul, no Episódio I de Star Wars, falhou inicialmente em profundidade por possuir apenas três linhas de diálogo, conquistando espaço definitivo apenas anos mais tarde ao ser trabalhado nas séries animadas The Clone Wars e Rebels.

Identidade regional e mercado
No âmbito do estudo acadêmico, o papel das instituições se concentra na análise das produções culturais já existentes, e não na criação direta de propriedade intelectual para o mercado. “Não me parece ser papel da academia criar personagens. A academia estuda o que é criado pela cultura”, esclarecem. Contudo, os professores reconhecem a forte presença desses elementos universais na literatura e na produção cultural do Rio Grande do Sul.
Na obra O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, os papéis de herói, sombra, aliado e transmorfo são identificáveis, embora apareçam caracterizados com símbolos e valores históricos ligados à tradição gaúcha. Recentemente, essa transposição alcançou o mercado global de jogos eletrônicos com o título Gaúcho and The Grassland. “Para que o público externo entendesse quem é o gaúcho, no trailer do jogo ele é chamado de ‘cowboy latino’. Esse tipo de transposição é um caso interessante de como podemos exportar nossa cultura para o resto do mundo”, destacam.

Personagens que são ícones culturais duradouros, como Darth Vader , exigem consistência e coerência nas ações

O magnetismo dos antagonistas
O fascínio exercido por certos antagonistas, que frequentemente eclipsam os próprios heróis da jornada, baseia-se em fatores técnicos de composição e na atuação do elenco. Conforme as teorias de Christopher Vogler, o “sombra” costuma se ver como o verdadeiro herói da história, encarando o protagonista como um elemento perturbador. Somado a isso, a competência e a presença de cena do profissional que interpreta o papel são determinantes. Ao analisar a personagem Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep no longa-metragem O Diabo Veste Prada, os professores ressaltam que o impacto se deve majoritariamente à performance da atriz. “Neste caso, não é a composição do personagem que faz o trabalho pesado, mas sim a pessoa por trás do personagem”, analisam.
Miranda encarna o arquétipo do “Governante” com traços de “Sombra”, uma figura de autoridade extrema que se fixa com facilidade no imaginário popular devido a fatores sociológicos e evolutivos da espécie humana. “Humanos são espécie social, organizando-se em grupos, e costumam precisar de líderes em momentos de crise. Boa parte das histórias ocidentais são movidas por conflitos (crises), então os líderes são figuras importantes”, explicam.

O desafio da era dos memes
Os elementos de micro-design de personagens, tais como gestos específicos, expressões marcantes e frases curtas, também atuam como signos para facilitar a memorização imediata por parte do espectador. No cenário contemporâneo, marcado pela velocidade das redes sociais, projetar um personagem com o objetivo prévio de torná-lo um viral ou um meme é considerado um processo complexo e incerto devido à aleatoriedade das interações digitais. “As redes são muito dinâmicas e, até certo ponto, aleatórias. Pensar um personagem com uma característica ‘memética’ é difícil, pois não se sabe exatamente o que pode ou não pode viralizar, uma vez que cada geração interpreta e ressignifica esses personagens a partir do seu próprio contexto, dentro do seu próprio tempo”, afirmam. A recomendação técnica reforça que o foco dos novos criadores deve permanecer na construção sólida e coerente do personagem em sua mídia de origem, garantindo sua longevidade orgânica. Os professores advertem ainda sobre os riscos da cultura do remix no ambiente virtual. “É possível lembrar que isso pode não ser bom também, pois a cultura do remix pode colocar esse personagem em situações e contextos aos quais ele não desempenhe bons papéis, o que pode até ‘deturpar’ o personagem”, finalizam.