Muito mais do que um esporte, o skate representa uma forma de expressão, liberdade e pertencimento para milhares de pessoas ao redor do mundo. No município, a modalidade segue conquistando novos adeptos e fortalecendo uma cultura construída ao longo de décadas por skatistas que encontraram nas ruas, praças e pistas um espaço para evoluir, criar amizades e enfrentar desafios. No Dia Mundial do Skate, celebrado no último domingo, 21 de junho, praticantes de diferentes idades compartilharam suas histórias e refletiram sobre o momento atual do esporte na cidade.

Os espaços disponíveis

Nos últimos anos, a cena do skate em Bento passou por mudanças significativas. A reconstrução da pista da Praça Centenário, entregue parcialmente em julho de 2025, trouxe novo fôlego para o esporte e incentivou o surgimento de uma nova geração de praticantes. Apesar das críticas relacionadas à execução da obra e à falta de alguns obstáculos, o espaço voltou a reunir jovens que antes tinham poucas opções para praticar o esporte.

Eduardo do Nascimento. Foto: Bruno Marconi.

Para o skatista Fagner de Oliveira Mezzomo, de 33 anos, que acompanha há anos a realidade do skate no município, a presença constante de crianças e adolescentes na pista mostra a importância de investir em locais adequados para a prática. “Desde então, uns 30 já estão andando. Tem sábado que tu chega lá e tem uma criançada. Então era bem isso que precisava, mais espaço pra andar”, relata. Segundo ele, os skatistas de Bento sempre enfrentaram dificuldades por conta da escassez de áreas apropriadas. A pista da Praça CEU, por exemplo, não atrai muitos praticantes devido a problemas estruturais desde sua inauguração. Já a pista da Praça Centenário, embora tenha apresentado falhas na construção, possui um piso considerado bom pelos skatistas e acabou se tornando o principal ponto de encontro da comunidade local.

A relação de Mezzomo com o skate começou ainda na infância. Aos 10 anos, influenciado por amigos do condomínio onde morava, ele deu as primeiras remadas e logo descobriu uma paixão que o acompanha até hoje. Mais do que um passatempo, o esporte se tornou uma ferramenta de aprendizado e desenvolvimento pessoal. “O skate representa diversão, superação também. Não é fácil dar as manobras. Tem que ser persistente, dá para aprender com o erro”, afirma. Para ele, a persistência necessária para evoluir nas manobras acaba sendo uma lição que pode ser levada para outras áreas da vida.

Alefer Odegar de Oliveira. Foto: Cassiano Battisti

Essa mesma paixão também está presente na nova geração. Com apenas 11 anos, Alefer Odegar de Oliveira já soma dois anos de prática e faz parte do grupo de jovens que frequentam a pista da Praça Centenário. O que mais o atrai no skate é a possibilidade de se desafiar constantemente, brincar e compartilhar momentos com os mais próximos. “Eu gosto de inventar manobras, descer rampas e andar com os amigos”, conta. Embora esteja satisfeito com o espaço disponível, ele acredita que a estrutura poderia oferecer mais opções para iniciantes. “Acho que deveria ter umas rampinhas um pouco mais pequenas para quem está iniciando”, sugere.

Além das manobras

Para Eduardo do Nascimento, de 26 anos, o skate faz parte de sua história desde muito cedo. A inspiração surgiu através de desenhos animados que marcaram sua infância, especialmente personagens que utilizavam o skate como símbolo de aventura e liberdade, como o Bart, de Os Simpsons.

Ele ganhou seu primeiro skate aos seis anos de idade, mas foi apenas durante a adolescência que a paixão se consolidou definitivamente. Desde então, nunca mais deixou de praticar. “Para mim é essencial. É a minha válvula de escape. Ele é o que me mantém vivo ou boa parte da minha alma”, define. Segundo Nascimento, o esporte foi fundamental durante momentos difíceis da juventude, servindo como uma atividade capaz de proporcionar foco, equilíbrio e bem-estar.

Ao lembrar dos anos em que começou a frequentar pistas, Nascimento destaca que o skate em Bento já viveu uma fase bastante movimentada. Na época, os encontros reuniam dezenas de praticantes que passavam horas treinando, conversando e fortalecendo amizades. “Quando eu cheguei na pista sempre tinha muita gente socializando e fazendo amizade. Era muito bacana. Uma época sem celulares modernos”, recorda. Para ele, a falta de investimentos em lazer e esporte acabou contribuindo para o enfraquecimento dessa cena ao longo dos anos, fazendo com que muitos skatistas buscassem oportunidades em outras cidades.

Luan Victor Ribeiro. Foto: Arquivo pessoal

Do aprendizado à inspiração

Outro nome que representa a nova geração do esporte local é Luan Victor Ribeiro, de 19 anos. Sua paixão nasceu ao assistir vídeos do canal 3SSkaters, que despertaram a curiosidade e a vontade de aprender. Aos 15 anos, ganhou seu primeiro skate e descobriu uma atividade que se transformaria em parte importante de sua rotina. “Representa paixão e dedicação, pois requer esforço e tempo para a evolução”, afirma.

Segundo ele, os primeiros passos foram marcados por dificuldades, já que não tinha alguém para orientá-lo nos erros e nas técnicas. “Levei um ano até começar minha evolução. Junto disso vêm as quedas e torções que acontecem até gerar um conforto para andar e mandar as manobras desejadas”, conta.

Superação dos estigmas

Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, os entrevistados acreditam que a visão da sociedade em relação ao skate mudou. O preconceito, que já foi muito presente, vem diminuindo à medida que mais crianças e adolescentes passam a praticar a modalidade. Mezzomo observa que muitos pais hoje acompanham os filhos nas pistas e acabam criando uma percepção mais positiva sobre o esporte. Já Ribeiro destaca que frequentemente encontra pessoas interessadas em conhecer melhor a cultura do skate. “Para mim é sempre um privilégio ensinar sobre essa cultura, até porque não vejo como esporte e sim como um lazer e um estilo de viver aquele momento”, afirma.

Ribeiro revela sua admiração por Mezzomo. “Por ter um rolê (prática) muito leve e ter as manobras no pé. Já quando era criança assistia vídeos sobre skate onde conheci Marcelo Formiga, Luan de Oliveira, entre outros”, pontua.

Agora que o filho de Ribeiro nasceu, a prioridade e planos mudaram, mas ele segue na esperança de um dia ainda poder partilhar do seu conhecimento.

Olhar para o futuro

Mesmo com os avanços, a principal reivindicação da comunidade continua sendo a ampliação da estrutura destinada ao skate. Os praticantes defendem a criação de novas pistas em diferentes regiões da cidade, além da manutenção adequada dos espaços já existentes. Para quem deseja começar, o conselho é praticamente unânime: persistir. “Só vai e não acha que vai virar profissional. Tem que se divertir”, resume Mezzomo.