Do Ballet Clássico às danças de Salão, passando pelo Jazz, Flamenco e Folclore Árabe, esta expressão artística segue conquistando espaço em Bento Gonçalves e transformando a vida de crianças, jovens, adultos e idosos. Além dos benefícios físicos, escolas e profissionais destacam o papel da arte na formação humana, no desenvolvimento emocional e na construção da identidade cultural do município.
A diversidade de modalidades disponíveis na cidade demonstra a força da dança como expressão artística e ferramenta de desenvolvimento pessoal. Todas as idades encontram nos estúdios e escolas espaços para aprender, socializar e descobrir novas formas de se expressar.
Na Bailarte Escola de Ballet, o Ballet Clássico é a modalidade exclusiva da instituição e atrai públicos de diferentes faixas etárias. A diretora Ana Paula Zuccolotto explica que o interesse muda conforme a idade. “Geralmente na fase da infância ela surge porque a criança é movida pela ludicidade e ela busca este encantamento que somos capazes de proporcionar e também porque os pais procuram atividades físicas para seus filhos se manterem saudáveis em época de muitas tecnologias. Já na adolescência, vejo que existe uma vontade de se desafiar, protagonizar, e conseguir encantar através das movimentações complexas que o ballet possibilita a partir do treinamento. E o público adulto geralmente busca reconhecimento do próprio corpo, autocontrole e exercício físico através da dança e musicalidade”, afirma.

Na Essenci Dança e Movimento, que completa 15 anos de atuação em Bento Gonçalves, a proposta é acolher diferentes perfis. Segundo a professora e proprietária Aline Todeschini, a dança atende objetivos variados. “Alguns procuram para fazer amigos, outros porque não gostam de academia, ou porque se sentem bem dançando. Há também os que têm alma de artista e acreditam que precisam preencher a vida com presença e significado”, destaca. O outro diretor é Rafael Borges.
As danças de Salão são muito procuradas, como Tango, Zouk e Samba de Gafieira que trazem muito autoconhecimento, momento para encontrar pessoas, se conectar. “O Tango por exemplo traz uma atenção especial a pisada, ao caminhar, a postura, o equilíbrio, além de todos aspectos culturais. Entre as mulheres a grande procura pela Dança Oriental (Dança do Ventre) pelos benefícios, sua beleza, autocuidado, por acolher elas de todas as idades e biotipos. O Ballet adulto também esta em destaque”, enfatiza. Há ainda os gêneros Folclore Árabe e Tribal Fusion.

Já o Studio Nina Aver, que surgiu a partir de um projeto desenvolvido em escolas públicas do município, ampliou suas atividades ao longo dos anos e hoje oferece modalidades como ballet clássico, jazz, flamenco, ginástica rítmica, fitdance e choreoclass. Para a sócia-proprietária Natália Aver, independentemente da modalidade escolhida, existe um elemento comum entre os alunos. “No final, o que une todos é o gosto pela dança, pelo movimento e pela saúde física e mental”, resume.
Por último, o Grupo de Artes Nativas Rastros do Tempo, que foca no tradicionalismo gaúcho, Rafael Fronza Pires percebe que atualmente, de forma geral, o gênero está cada vez mais distante dos jovens. “Acredito que num contexto familiar, que é o meu caso, fica mais fácil a introdução da cultura e tradições gaúchas. Fui criado dentro deste conceito onde o respeito e o amor por nossa pátria eram muito mais reconhecidos, aprendi desde muito jovem que a escolha é nossa. Trabalho com o Tradicionalismo a mais de 26 anos e vejo o quanto é importante estar dentro de escolas e áreas mais vulneráveis”, pondera.

Segundo ele, o principal desafio é que muitos não estão no meio por falta de incentivo. “Existe uma resistência e até uma forma de preconceito para participantes, como também existem muitos que gostam e se dedicam as atividades propostas.
Nos apresentamos bastante, tanto com o Grupo Rastros do Tempo como com o Grupo Soniidos, numa base de mais de 35 apresentações no ano de 2025”, evidencia.
Muito além da atividade física
Os profissionais são unânimes ao afirmar que os benefícios da dança vão muito além do condicionamento físico. “Dançar é mover-se com prazer e sentimento. É saudável porque além de ser um exercício, é uma forma de expressão e libertação de emoções”, explica Ana Paula. Para ela, a dança também tem a capacidade de transmitir mensagens e despertar reflexões sem a necessidade de palavras.
Na visão de Cristiane Bristot, Diretora e professora da Cristiane Bristot Escola de Dança, a prática contribui para a formação integral dos alunos. “Aqui na escola, acreditamos que isso é muito maior que a sala, ela contribui para o desenvolvimento físico, emocional e também para a formação de valores que as pessoas levam para a vida. A dança promove a socialização e o prazer de estar em movimento valores que hoje em dia são tão importantes, visto que as crianças e as pessoas estão cada vez mais presas às telas, sem movimento e sem interagir verdadeiramente umas com as outras. É o momento delas se conectarem com elas mesmas, sentirem e se permitirem viver novas experiências a cada aula”, afirma.

Cristiane ressalta que para o público adulto, o ballet clássico tem sido o queridinho do momento. “Geralmente mulheres 30+ que quando crianças não puderam praticar por diversos motivos. E também, quem praticou mais jovem e hoje encontra a possibilidade de retomar essa atividade com o objetivo de bem-estar. Enquanto que para o público infantil, cada vez mais cedo às famílias nos procuram, crianças com menos de dois anos”, frisa.
Aline reforça que a dança é uma ferramenta importante para a saúde física, mental, social e cognitiva. “É essencial para o desenvolvimento humano. Traz benefícios que vão além da saúde física, coordenação, condicionamento, equilíbrio, postura. Ela nos coloca no presente, o que é um grande desafio da atualidade”, ressalta.
Para Natália, os benefícios acompanham o indivíduo durante toda a vida. “No fim, dança é sempre sobre a mesma coisa: estar presente no próprio corpo e se sentir vivo. Só muda o motivo pelo qual a gente precisa disso em cada fase”, observa.
Crescimento e desafios
Apesar da evolução técnica observada nos últimos anos, o setor ainda enfrenta obstáculos.
Natália afirma que os profissionais estão mais preparados e os trabalhos se tornaram mais elaborados. Porém, ela sente falta de iniciativas que impulsionem o cenário cultural local. “Sentimos falta do Bento em Dança, um festival que por anos trouxe muita visibilidade ao município e, com mais fomento cultural, poderíamos resgatar esse destaque”, afirma.

Entre os desafios mais citados está a necessidade de desenvolver a paciência diante dos processos de aprendizagem. Ana Paula observa que a tecnologia influencia a forma como as pessoas lidam com resultados e expectativas. “Hoje é necessário explicar que para progressos que o corpo desempenha é preciso tempo, persistência e dedicação. Em época de telas e num contexto onde conseguimos resultados muito rápidos e temos todas as respostas em um click, fica mais difícil de as pessoas, em especial crianças e adolescentes, compreenderem que é normal errar, e que é preciso errar, cair, desequilibrar e tentar de novo e muitas vezes até consegui estruturar o que se quer e criar uma boa base.
Depois que se compreende isso, tudo fica mais fácil. Inclusive também é preciso explicar aos pais de crianças pequenas que tudo tem seu tempo. Por vezes, cobram rendimentos que fogem de um processo natural. Mas é preciso respeitar o tempo de cada um, inclusive a necessidade do lúdico para os pequenos”, diz.
Aline também aponta a dedicação exigida pela arte. “A dança é incrivelmente grandiosa e como tudo que é grandioso exige tempo e dedicação, que se apresentam como os maiores desafios frente à volatilidade da contemporaneidade. Esperar anos para desenvolver no corpo a dança para que ela possa ser posteriormente apreciada, requer disciplina e persistência, horas de ensaio técnico e artístico, sendo que o processo de aulas e ensaios são partes fundamentais do processo de composição artística”, comenta.
Palco como espaço de crescimento
Festivais, mostras e apresentações são considerados fundamentais para o desenvolvimento artístico dos bailarinos.

A Bailarte participa regularmente de competições e eventos culturais. Segundo Ana Paula, essas experiências permitem que os alunos conheçam novos profissionais, ampliem seus horizontes e percebam seu potencial artístico. “Todos os anos a Bailarte realiza espetáculos de ballet e convida o público para prestigiar. Inclusive neste ano já lançamos o nosso espetáculo que será o ballet de repertório Coppélia e acontecerá dias 21 e 22 de novembro na Casa das Artes. Também incentivamos nossos bailarinos a vivenciarem diversos palcos e ganharem novas experiências. Nossa escola costuma participar de competições de dança, o que possibilita uma aproximação maior dos alunos com o meio da dança, com professores estrangeiros, com bailarinos de outros lugares e isso faz com que eles percebam seu potencial e se inspirem para continuar levando esta arte consigo. Também apoiamos e participamos dos eventos promovidos pela cidade, levando a nossa dança ao maior número de pessoas possível”, destaca.
Na Essenci, os festivais são vistos como oportunidades de aprendizado e integração. “Motivam os alunos a seguir estudando e dançando, são também mais um espaço para podermos mostrar nossa arte”, afirma Aline.
Para Cristiane, o foco deve estar no crescimento individual de cada bailarino. “Incentivamos sempre a participação em festivais, pois uma das partes mais prazerosas de dançar é estar em cena, a parte artística.
Mas sempre com o intuito e entendimento de que o mais importante é participar e apresentar a nossa melhor dança, sermos melhores do que o último ensaio. Os resultados? Esses são consequência da nossa dedicação e empenho.
Claro, como é bom ganhar um destaque, uma medalha, mas também quero ensinar para as alunas que não premiar, faz parte do nosso crescimento e amadurecimento”, ressalta.
No Studio Nina Aver, a participação em eventos como Fenavinho e Expobento aproxima os bailarinos da comunidade. Para Natália, essas experiências ajudam os alunos a compreenderem a importância da profissão artística. “Palco é profissão: dá propósito ao treino e conecta com a comunidade”, afirma.
Cultura e futuro
Os entrevistados concordam que a dança tem papel fundamental no fortalecimento cultural de Bento Gonçalves e defendem mais investimentos no setor.
Cristiane salienta que uma das grandes dificuldades tem sido a retenção de alunos. “Vejo que as famílias nem sempre têm a possibilidade financeira de manter seus filhos frequentando a escola.
Ou até mesmo, a falta de entendimento de que a dança é, sim, um braço super importante na educação dos indivíduos, contribuindo para a formação de pessoas e valores. Bem como os valores que demandam realizar um espetáculo de dança. Tudo muito custoso: aluguel do espaço, som e luz, além dos figurinos”, diz.
Ana Paula acredita que ampliar o acesso da população às apresentações é essencial para aproximar mais pessoas da arte. “As pessoas precisam ter acesso a essa arte, conhecer mais sobre e entender que é possível se envolver e se beneficiar também”, afirma.
Já Natália define a dança como um importante indicador cultural. “A dança como arte é termômetro cultural. Não importa qual estilo seja”, destaca.
Apesar dos desafios, o sentimento entre os profissionais é de otimismo. Escolas e estúdios seguem formando novos bailarinos e ampliando o acesso à arte, mantendo viva uma atividade que transforma vidas e fortalece a identidade cultural da cidade.
E para aqueles que ainda têm receio de começar, a mensagem deixada por Natália é um convite simples e inspirador: “Dança não exige corpo perfeito, idade certa ou talento de nascença. Exige só vontade de tentar”, finaliza.