Entre as regiões mais tradicionais de Bento Gonçalves, o bairro Santa Marta reúne características que os moradores apontam como diferenciais para quem vive na comunidade: proximidade dos serviços, presença de escola, creche, unidade de saúde, espaços para atividades esportivas e uma rede de convivência construída ao longo de décadas. Ao mesmo tempo, demandas relacionadas à infraestrutura viária, saneamento, transporte público e segurança seguem entre as principais reivindicações da população.
Com moradores que acompanham o desenvolvimento do bairro há mais de quatro décadas, o Santa Marta é descrito como uma localidade que passou por profundas transformações ao longo dos anos. O crescimento da infraestrutura pública e comunitária é lembrado por quem testemunhou as mudanças desde os primeiros anos de ocupação.
Presidente da Associação de Moradores do bairro Santa Marta e morador da comunidade há mais de 40 anos, Maurilio Pereira Pinto afirma que a realidade atual é bastante diferente daquela encontrada quando chegou ao local. “Passamos por muitas dificuldades. Não tínhamos ginásio, não tínhamos igreja e faltavam diversas estruturas que hoje fazem parte da rotina da comunidade. Com o passar dos anos, o bairro evoluiu e hoje conta com escola, ginásio, igreja, catequese, posto de saúde e outros serviços importantes para os moradores”, destaca.
A percepção é compartilhada por Ivani Marchioro, moradora do bairro há 44 anos. Ela recorda que, quando estabeleceu-se na comunidade, a infraestrutura era bastante limitada. “Na época não havia calçamento e os serviços eram muito mais restritos. Com o passar dos anos vieram melhorias importantes, como o posto de saúde e outras estruturas que hoje atendem a população”, relata.
Moradora do Santa Marta há cerca de 35 anos, Clarinda Dalmolin também acompanhou o processo de crescimento da localidade e observa que a expansão trouxe avanços, mas também novos desafios relacionados à manutenção da infraestrutura urbana.

Estrutura que facilita o dia a dia
Um dos aspectos mais valorizados pelos moradores é a concentração de serviços essenciais dentro do próprio bairro. Escola, creche, unidade de saúde, mercado, farmácia, espaços esportivos e estruturas comunitárias reduzem a necessidade de deslocamentos frequentes para outras regiões da cidade.
Para Pinto, essa oferta contribui diretamente para a qualidade de vida da população. “Hoje nós temos praticamente tudo o que as pessoas precisam no bairro”, afirma.
A presença de empreendimentos consolidados também demonstra a estabilidade da comunidade. Administradora de um mercado tradicional instalado no Santa Marta desde 1997, Maristela Nichetti ressalta a relação próxima com os moradores. Segundo ela, a preferência é contratar pessoas da própria comunidade sempre que possível. “Procuramos dar oportunidade para quem mora aqui perto. Isso facilita para os funcionários e fortalece o próprio bairro”, comenta.
Há 13 anos com um empreendimento instalado no Santa Marta, Márcio Borges afirma que o comércio atende consumidores de diversas regiões do município. “Nós atendemos clientes da cidade em geral. Muitas vendas acontecem pela internet, então recebemos pedidos de Bento Gonçalves e também de fora do município”, explica.
Já o empresário e morador do bairro desde a infância, Douglas Lucietto observa que a região continua sendo bastante procurada para moradia. “O que percebemos é que muitos moradores antigos acabaram se mudando para casas novas e passaram a alugar os imóveis que possuem aqui. Mesmo assim, existe uma procura muito grande por moradia no bairro. Muitas pessoas procuram casas para alugar e é difícil encontrar disponibilidade”, relata.

Segundo ele, a procura está ligada principalmente à qualidade de vida oferecida pela comunidade. “A convivência é boa e o bairro oferece muitos serviços próximos. Isso faz com que as pessoas queiram permanecer aqui”, afirma.
Limitações estruturais
A área da saúde aparece entre os temas mais citados pelos entrevistados. De forma geral, os moradores elogiam o trabalho desenvolvido pelos profissionais da unidade de saúde, mas apontam dificuldades relacionadas à estrutura e ao acesso a alguns serviços.
Pinto destaca que o atendimento prestado pelos servidores é bem avaliado pela população. “O pessoal do posto está de parabéns pelo atendimento que oferece aos moradores. A nossa cobrança não é em relação aos profissionais, mas a algumas questões que poderiam ser melhoradas”, afirma.
Entre os pontos mencionados está o sistema de agendamento de consultas. “Antigamente era possível marcar consulta por telefone. Hoje as pessoas precisam sair cedo de casa e ficar esperando para conseguir uma ficha. É uma situação que poderia ser revista”, sugere.
Morador do bairro desde 1989, Joarez Batisti também diferencia a atuação dos profissionais das limitações estruturais enfrentadas pela unidade. “Não é uma questão dos funcionários. O atendimento é uma coisa, mas o poder público precisa investir mais na estrutura”, avalia.
Um dos assuntos que gerou maior repercussão entre os entrevistados foi a indisponibilidade da câmara utilizada para armazenamento de vacinas.

Ivani relata que moradores encontraram dificuldades para realizar a imunização durante o período em que o equipamento apresentou problemas. “O posto ficou sem condições de armazenar vacinas. Quando elas chegavam, era necessário avisar rapidamente quem precisava se vacinar”, afirma.
Clarinda conta que chegou a ser orientada a procurar atendimento em outros bairros. “Me encaminharam para outra unidade de saúde. Para muitas pessoas, principalmente idosos, isso acaba se tornando mais difícil”, relata.
Lucietto também menciona a situação. “Durante a campanha da gripe houve um período em que a unidade ficou sem condições de armazenar. Isso impactou o atendimento de quem procurava a imunização”, lamenta.
Questionada sobre o assunto, a secretária municipal de Saúde, Daiane Piuco, informou que a câmara de vacinas apresentou problemas técnicos e que a empresa responsável pela manutenção foi acionada. Segundo ela, como o custo do conserto era superior ao valor de aquisição de um novo equipamento, uma câmara pertencente ao setor de imunizações da Secretaria Municipal de Saúde foi transferida para a unidade na semana passada, permitindo a retomada da aplicação das vacinas.
A secretária informou ainda que o equipamento voltou a apresentar falhas nesta segunda-feira, 1° de junho, motivo pelo qual uma nova manutenção foi solicitada. Conforme a previsão da pasta, a câmara deverá estar novamente em funcionamento nesta semana.
Falta de profissionais na educação
A oferta de ensino também é considerada um dos pontos fortes do bairro. Entretanto, moradores relatam dificuldades relacionadas principalmente ao quadro de profissionais que atuam na educação infantil.
Lucietto, que estudou na região e atualmente tem um filho matriculado em uma creche municipal, avalia positivamente a qualidade do ensino. “Sempre tive uma boa experiência com a educação aqui do bairro. Meu filho também gosta muito da creche e nós não temos reclamações em relação ao atendimento”, afirma.
Segundo ele, o principal problema está na escassez de profissionais de apoio. “O que percebemos é uma falta de cuidadores nas salas. Em alguns momentos, outros servidores acabam auxiliando porque não há profissionais suficientes para atender a demanda”, relata.
Para os moradores, a ampliação das equipes contribuiria para melhorar ainda mais o atendimento oferecido às crianças.
Ruas concentram as principais reivindicações da comunidade
Um tema que reúne praticamente consenso entre moradores e empreendedores, é a situação das vias do bairro.
A necessidade de pavimentação e de melhorias na malha viária foi apontada por entrevistados de diferentes perfis como a principal demanda atual do Santa Marta.
Pinto afirma que as condições das ruas geram constantes reclamações da população. “O bairro enfrenta muitos problemas relacionados às vias. Existem ruas com muitos buracos e isso acaba afetando a mobilidade dos moradores”, diz.
Segundo ele, as intervenções relacionadas ao sistema de esgotamento sanitário agravaram o cenário. “Depois das obras do esgoto, as condições de várias ruas pioraram bastante”, afirma.
A avaliação é semelhante à de Lucietto. “As ruas do bairro e de regiões próximas estão em condições difíceis. Depois das intervenções realizadas, muitos trechos ficaram bastante comprometidos”, observa.
Maristela também aponta a baixa quantidade de vias pavimentadas como uma das limitações enfrentadas pela comunidade. “Nós ainda temos pouco asfalto no bairro”, resume.
Para Batisti, as melhorias precisam contemplar principalmente os acessos de maior circulação. “O asfaltamento das ruas principais é uma necessidade antiga da comunidade”, destaca.
Saneamento e abastecimento
Além da pavimentação, moradores relatam preocupações relacionadas ao sistema de saneamento básico e ao abastecimento de água.
Pinto considera que a implantação da rede de esgotamento sanitário já está encaminhada, mas afirma que os impactos das obras sobre as ruas continuam sendo motivo de insatisfação.
Já Batisti demonstra preocupação com a capacidade da estrutura instalada. “A percepção que tenho é que algumas tubulações são pequenas para atender o crescimento da região. Isso pode gerar problemas futuramente”, avalia.
Uma situação é observada na rua Cristóvão Ambrosi, onde moradores relatam o retorno de esgoto a céu aberto em um ponto da via. Segundo os relatos, o problema começou após as ligações de imóveis à rede de esgotamento sanitário e tem provocado mau cheiro nas proximidades. Os moradores afirmam que resíduos característicos de esgoto doméstico podem ser vistos no local e demonstram preocupação com a possibilidade de o problema se agravar à medida que mais residências forem conectadas ao sistema.
Clarinda, que mora na rua, afirma que a situação tem gerado desconforto para quem vive nas proximidades. “Tem um cheiro muito forte e a gente gostaria que fosse encontrada uma solução definitiva para isso”, diz.

Em relação ao abastecimento de água, os entrevistados relatam cenários distintos. Enquanto alguns moradores percebem melhora em comparação aos anos anteriores, outros afirmam que ainda ocorrem interrupções ocasionais. “Faltava mais água antigamente. Parece que a situação melhorou”, comenta Batisti.
Lucietto observa que as interrupções costumam ocorrer principalmente em dias de chuva. “Não é algo que dure dias, mas quando chove frequentemente acontece alguma interrupção temporária no abastecimento”, relata.
Maristela também afirma ouvir relatos de moradores sobre episódios de falta de água, embora considere que a situação já foi mais crítica em outros períodos.
Transporte público e segurança
O transporte coletivo e a segurança pública também figuram entre as demandas apresentadas pela comunidade.
Embora alguns entrevistados não utilizem regularmente o transporte público, moradores relatam que os horários dos ônibus ficaram mais espaçados ao longo dos anos.
Clarinda afirma que a frequência dos veículos é motivo de reclamações recorrentes. “Muitas vezes as pessoas permanecem bastante tempo aguardando o ônibus nas paradas”, comenta.
Lucietto relata ouvir observações semelhantes por parte dos moradores. “O que escutamos é que existem menos horários disponíveis do que havia anteriormente”, afirma.
Na área da segurança, as opiniões variam. Enquanto alguns entrevistados classificam o bairro como tranquilo, outros defendem maior presença das forças de segurança.
Batisti considera a comunidade relativamente segura, mas acredita que o policiamento ostensivo poderia ser ampliado. “É um bairro tranquilo, mas seria importante termos mais circulação da Brigada Militar para prevenir problemas futuros”, afirma.
Lucietto compartilha avaliação semelhante. “Gostaríamos de ver mais policiamento circulando diariamente. Isso aumenta a sensação de segurança e ajuda a inibir ações criminosas”, diz.
Maristela relata que o mercado administrado por sua família foi alvo de um assalto neste ano e que a residência localizada ao lado também sofreu uma invasão em período próximo.
Apesar disso, ela avalia que a situação permanece relativamente estável quando comparada a outros momentos.
Esporte, lazer e convivência
Mesmo diante das demandas apontadas, os moradores destacam a forte participação comunitária existente no Santa Marta.
O ginásio da Associação de Moradores é um dos principais pontos de encontro da população e abriga diversas atividades ao longo do ano.
Entre elas está um tradicional grupo da terceira idade que realiza práticas esportivas e atividades físicas regulares.
Segundo participantes do projeto, o grupo existe há aproximadamente quatro décadas e promove encontros frequentes para jogos e atividades recreativas. Além disso, também são oferecidas aulas de ginástica em parceria com profissionais vinculados ao município.
Para os moradores, a mobilização da comunidade continua sendo uma das principais características do Santa Marta. Ao longo das últimas décadas, a união entre lideranças, entidades e moradores contribuiu para consolidar a infraestrutura atualmente disponível. Agora, a expectativa é de que investimentos em áreas como pavimentação, saneamento, mobilidade e segurança acompanhem o crescimento da região e atendam reivindicações consideradas históricas pela população.