O distrito de São Pedro, em Bento Gonçalves, consolidou-se nos últimos anos como um dos principais polos turísticos da Serra Gaúcha. Sede do roteiro Caminhos de Pedra, o local preserva e dinamiza a cultura dos imigrantes italianos e tornou-se referência em turismo de experiência, gastronomia e produção artesanal.

Mas, junto ao crescimento do fluxo de visitantes e à expansão dos empreendimentos, surgem desafios que atravessam o cotidiano de quem vive e trabalha na região: mobilidade limitada, dificuldades de transporte público, escassez de mão de obra e debates sobre infraestrutura e preservação cultural.

A reportagem ouviu empreendedores, moradores e lideranças locais para compreender como o distrito se desenvolve hoje e quais são as expectativas para os próximos anos.

Um turismo em transformação

O perfil dos visitantes do Caminhos de Pedra passou por mudanças importantes ao longo dos últimos anos. O que antes era marcado por grande presença de turistas de longa distância, hoje se configura como um fluxo mais regionalizado, com forte presença de visitantes do próprio Rio Grande do Sul.

Tamires Rocha Miranda, uma das gerentes de um empreendimento voltado ao turismo de experiência, onde atua há oito anos, observa essa mudança de forma clara. “Nos últimos tempos está vindo mais pessoas da região. Já não vem tantos turistas de longe como antigamente”, explica. Apesar dessa alteração no perfil do público, ela avalia que o distrito não perdeu força. “Vem crescendo e os empreendimentos vêm aumentando”, afirma.

A percepção de que o turismo segue em evolução também aparece no relato de Victor Kullmann, gerente de um estabelecimento no distrito há quatro anos e meio. Ele destaca o impacto dos eventos climáticos de 2024 no fluxo. “Noto que no pós-enchente houve uma boa mudança. O turista que antes vinha de longe, não vem tanto para o Sul quanto uma vez”, aponta. Hoje, segundo ele, o turismo local tem forte presença regional. “Recebemos mais visitantes do Estado mesmo”, destaca.

Ainda assim, Kullmann avalia que o movimento está em reconstrução e expansão. “A gente percebe que depois das enchentes, teve aquele ‘boom’ e baixou o movimento. E ele vem se reconstruindo, mais empreendimentos estão chegando. Mais ações estão sendo feitas e cada vez mais recebemos viajantes”, conta.

Diversidade como diferencial

Um dos fatores que sustentam o crescimento do distrito é a diversidade de experiências oferecidas ao visitante. Diferente de roteiros mais homogêneos, o Caminhos de Pedra reúne diversas experiências. Essa variedade é vista como um dos principais diferenciais do local.

Larissa De Toni, é empreendedora e moradora do distrito. À frente de um empreendimento familiar que reúne vinícola, agroindústria e restaurante, ela explica que o trabalho da família envolve desde o cultivo das uvas até a produção de geleias, vinhos e o atendimento aos visitantes. Segundo ela, o turismo deixou de depender exclusivamente de agências: “Hoje a gente vê e atende muitos particulares. Então sim, mudou, não há mais a necessidade de contratar um guia para passear”, revela.

Ela observa também o crescimento do turismo independente, com visitantes que permanecem mais tempo na região: “Ele paga um Airbnb aqui mesmo nos Caminhos de Pedra, que tem vários, fica aqui direto, conhece de a pé.”

Para Larissa, o crescimento do turismo é evidente, mas precisa ser acompanhado de preservação: “Não acho que vem diminuindo. Na minha opinião deveríamos focar para crescer mais, só que sempre preservando a cultura.”

Larissa De Toni é empreendedora e moradora do distrito (Foto: Jornal Semanário)

O presidente da Associação Caminhos de Pedra, Jeverson Carelli, afirma que a principal base do roteiro é a preservação da cultura e do patrimônio histórico, alicerce da proposta turística do distrito. “Todo esse pilar é preservado. E é de uma forma que a gente consiga levar isso de forma íntegra para o nosso turista. Então, os empreendimentos que tem por aqui, eles carregam, todos, de alguma forma, a nossa cultura como produto”, afirma.

Ele destaca que o roteiro se adaptou às mudanças do setor, sem perder a essência. “Fomos entendendo um pouco do mercado, das demandas que as pessoas têm. Hoje são mais exigentes”, observa.

Carelli ressalta ainda a diversidade de atividades e o patrimônio de casas históricas como diferenciais do local. “É o grande acervo de pedra que a gente tem por aqui”, diz, ao definir o espaço como um ‘museu vivo’.

Mobilidade e transporte

Apesar do crescimento turístico, a locomoção segue como um dos principais gargalos do distrito. O deslocamento entre empreendimentos, a falta de transporte público regular e a dependência de veículos particulares são problemas recorrentes.

Tamires chama atenção para a dificuldade enfrentada pelos visitantes. “É preciso mais ônibus na região, porque vem muitos turistas de Uber, só que eles não conhecem. Deixam ele lá na entrada e o pessoal tem que vir a pé”, explica.

Ela também aponta a dificuldade de deslocamento entre os próprios empreendimentos do roteiro, já que muitos ficam distantes uns dos outros: “Se chamar Uber para ir até outro lugar eles não vêm.”

Kullmann reforça a mesma preocupação e destaca que o turismo da região está muito ligado ao vinho e às degustações, o que faz com que muitos visitantes optem por não dirigir durante os passeios. “O turista acaba ficando refém char Uber ou chamar um táxi. Só que aqui, cada estabelecimento fica distante do outro”, explica. Segundo ele, a dificuldade está justamente na falta de uma estrutura de deslocamento que consiga atender essa demanda entre os empreendimentos do roteiro.

A questão também impacta diretamente os trabalhadores do distrito: “Sempre fica um responsável da loja por vir trazer todos para cá”, relata.

Larissa também relata a redução significativa das linhas de ônibus disponíveis no distrito, especialmente nos finais de semana, quando o transporte público praticamente deixa de circular pela região.

Mão de obra

A dificuldade para encontrar trabalhadores para atuar nos períodos de maior movimento também é um ponto recorrente entre os empreendimentos do distrito, especialmente em dias de maior fluxo turístico.
Tamires é objetiva ao descrever a situação. “Tu fala ‘final de semana’ e as pessoas não querem”, aponta.

Kullmann confirma o cenário: “Contratação de extras é sempre um pouquinho mais complicada”, explica.

Leticia Giacomini, que trabalha em um empreendimento familiar voltado à educação sobre abelhas sem ferrão, destaca ainda o impacto da rotina do turismo na vida dos trabalhadores. “Isso acaba atrapalhando algumas pessoas que gostam de ficar com a família no final de semana”, explica.

Leticia Giacomini é Empreendedora de espaço educativo sobre abelhas sem ferrão (Foto: Jornal Semanário)

O enólogo e empreendedor Silvério Salvati destaca que a mão de obra é uma das principais demandas da região, especialmente nos períodos de colheita e maior atividade no campo. Segundo ele, há uma necessidade constante de trabalhadores, o que faz com que muitos venham da cidade para atuar nos empreendimentos locais. “Aqui o grande problema é a mão de obra. Outra demanda muito grande é a colheita”, afirma.

Ele acrescenta que essa realidade tem levado à busca por trabalhadores de outras regiões, especialmente durante a safra da uva: “Então está vindo muita gente de fora colher uva conosco. Bons trabalhadores, que admiramos o trabalho que eles fazem”, afirma.

Carelli, também aponta a mão de obra como um dos desafios enfrentados pelos empreendimentos do distrito, especialmente pela dificuldade de encontrar profissionais, inclusive qualificados. Ele destaca que o principal critério na seleção está ligado ao perfil de atendimento, com foco na hospitalidade e na relação com o turista. “Tentamos buscar pessoas que tenham boa vontade e que gostem de atender pessoas, que tenham a hospitalidade intrínseca nelas”, afirma.

Ele acrescenta ainda que, após essa escolha, os profissionais são capacitados dentro dos próprios empreendimentos, e que é necessário oferecer remuneração acima da média para garantir a qualidade do serviço prestado. “A gente precisa pagar bem porque senão a gente não vai ter profissionais capacitados fazendo uma boa entrega”, completa.

O tema da mão de obra também é analisado sob outra perspectiva pelo morador da região Gilmar Cantelli. Para ele, a dificuldade de contratação em determinados períodos não é necessariamente um ponto negativo, mas pode indicar um cenário de atividade econômica aquecida no distrito.

Gilmar Cantelli é Morador do distrito (Foto: Jornal Semanário)

Segundo essa leitura, a necessidade constante de trabalhadores mostra que os empreendimentos estão em funcionamento e que há demanda por mão de obra, inclusive de pessoas vindas de fora da região em alguns períodos.

Infraestrutura e sinalização ainda em debate

Outro ponto levantado pelos entrevistados é a necessidade de melhorias em infraestrutura, especialmente sinalização e organização do fluxo turístico. Larissa aponta diretamente essas demandas. “A identificação de onde começam os Caminhos de Pedra e onde termina é importante”, explica.

Salvati também chama atenção para a necessidade de melhorias no roteiro, especialmente em trechos de grande circulação de visitantes. Segundo ele, intervenções simples poderiam qualificar ainda mais a experiência turística e a segurança no deslocamento entre os empreendimentos. “Nós temos que fazer uma calçadinha paralela desde lá da ponte até aqui em cima na divisa com Pinto Bandeira”, afirma.

Para ele, o trecho mais movimentado do roteiro também poderia receber intervenções de organização viária. “Quem sabe fazer uma duplicação com canteiro central, com uma bela iluminação. E duas calçadinhas lado a lado com bons estacionamentos. Isso aí é uma coisa que não demanda muito dinheiro”, sugere.

Cantelli também aponta a necessidade em relação à convivência entre diferentes modais de circulação. “Uma das necessidade rápidas aqui do nosso distrito é uma ciclovia, porque é um drama andar com ciclistas, turistas e pedestres, carros, caminhões, ônibus, principalmente nos finais de semana”, afirma. Ele também destaca o fluxo de romeiros que utilizam a região a pé em direção a Caravaggio, em Farroupilha, reforçando a importância da rodovia que passa por São Pedro como principal trajeto desse deslocamento.

O vínculo que sustenta a vida local

Além do turismo, a vida comunitária e a religiosidade também têm papel central na organização social do distrito. Cantelli destaca a importância da fé como elemento de união, ao afirmar que a fé é uma tradição que vem com a família. Ela vai incutindo no bebê, na criança, no jovem.

As festas religiosas são, segundo ele, momentos de fortalecimento coletivo, ao destacar que “essas festas servem para unir a comunidade e manter viva essa tradição.

Ele também ressalta a solidariedade entre os moradores, ao afirmar que “quando nós temos necessidade de alguma coisa, a comunidade vem junto para fazer funcionar aquilo”, completa.

Jovens no interior e perspectivas futuras

A permanência das novas gerações no distrito aparece como um tema presente entre moradores e empreendedores de São Pedro, mas com diferentes leituras sobre o futuro da comunidade e o papel dos jovens na continuidade das atividades locais.

Para Larissa, existem questões estruturais que podem dificultar a permanência dos jovens no interior, especialmente no que diz respeito às regras e processos burocráticos para quem deseja construir e se estabelecer no distrito. Ela afirma que as leis dificultam as pessoas de fazerem o seu próprio espaço.
Apesar disso, Larissa avalia que não há, necessariamente, um movimento forte de saída dos jovens, mas sim uma tendência de continuidade da vida no interior, com jovens que seguem vinculados à comunidade e aos empreendimentos familiares e locais, reforçando que muitos acabam optando por permanecer e construir sua vida na própria região.

Já Cantelli observa a presença e a participação dos jovens na dinâmica comunitária, especialmente nas festas e atividades coletivas do distrito. Ele destaca que a juventude segue integrada à vida social local, participando das tradições e mantendo vínculos com a comunidade, o que, segundo ele, contribui para a continuidade da identidade do distrito ao longo das gerações.

Cantelli também avalia que a saída de parte dos jovens do interior não deve ser vista necessariamente como um problema. “Quem sai é porque quer buscar outro campo de trabalho”, explica.

Ele também destaca que as condições de trabalho no meio rural e no turismo evoluíram ao longo do tempo, o que amplia as possibilidades de permanência no interior. “Hoje o trabalho na roça não é mais tão maçante. Tem máquinas, tecnologias”, observa, reforçando que o interior passou a oferecer novas formas de atuação e desenvolvimento profissional.

Futuro do roteiro

Carelli também reforça que o Caminhos de Pedra foi concebido a partir de um modelo baseado em negócios familiares, onde cada empreendimento nasce a partir das habilidades e tradições das famílias da região.

Ele cita como exemplo estabelecimentos que surgiram a partir de atividades como produção de alimentos, vinhos e experiências ligadas ao meio rural. “O conceito Caminhos de Pedra é baseado em cima disso”, afirma.

Para ele, o futuro do roteiro está diretamente ligado à continuidade desse modelo, mas também à abertura para novas iniciativas que sigam a mesma lógica de valorização das habilidades locais. “Quando elas entendem a habilidade que elas têm, elas podem, porque não, criar o seu próprio negócio”, explica.

Carelli finaliza destacando que ainda existe um grande potencial inexplorado dentro da própria comunidade, especialmente entre famílias descendentes de italianos. “Inúmeras habilidades que estes tinham ainda não foram exploradas”, observa.