Escultor e pintor artístico Dalcir Marcon prepara nova restauração da obra religiosa soterrada durante a tragédia climática de 2024 e relembra a relação da comunidade com o patrimônio cultural da região

A pedra, localizada próxima à Capela Nossa Senhora das Dores, na cidade de Muçum, possui uma origem peculiar. Segundo Marcon, ela desprendeu-se de um morro há muitos anos e acabou partindo-se ao meio. A superfície lisa formada após a ruptura chamou a atenção do artista, que enxergou ali uma possibilidade de expressão artística e religiosa. “Na saída da festa da padroeira, avistei a pedra e senti como se ela me dissesse: quem irá me pintar?”, recorda. Na ocasião, ele contou à esposa, Izolda Giovanella Marcon, que um dia retornaria ao local para realizar a pintura. “Apontei o dedo para ela e disse: me aguarde. Minha esposa me chamou de louco. O louco realizou um sonho de artista”, relembra.

Uma obra ligada à comunidade
A pintura nasceu de forma voluntária e acabou se tornando um símbolo para os moradores da localidade. Além da ligação artística, havia também um vínculo afetivo e familiar. O artista explica que a região possui importância especial em sua trajetória pessoal, já que seus sogros, Carolina Cipriani e Elíseo Giovanella, nasceram naquela comunidade. “A pintura representa gratidão”, resume.
Para a população local, segundo ele, a imagem passou a representar religiosidade, união e identidade cultural entre os descendentes de imigrantes que ajudaram a construir a história da região. Com o passar dos anos, a pedra transformou-se em ponto de referência para moradores e visitantes, integrando o patrimônio afetivo da comunidade.
Quando as enchentes atingiram o Vale do Taquari, a pedra acabou soterrada. Mesmo afastado fisicamente do local por estar em recuperação de uma cirurgia, Marcon acompanhou com preocupação os impactos causados pela tragédia. O artista relata que, naquele período, sua maior angústia era justamente a destruição de patrimônios históricos e religiosos espalhados pelas comunidades do interior. “Meu telefone não parava de tocar para que eu pudesse fazer inúmeras restaurações. Fiquei triste porque não podia ajudar como gostaria. Naturalmente, meu lado artístico pensou muito nas perdas de igrejas, imagens e pinturas. Fica uma marca eternizada”, afirma.
Sem conseguir acompanhar presencialmente o deslocamento da pedra durante o processo de resgate realizado pelos moradores, Marcon colocou-se imediatamente à disposição para restaurar novamente a obra. “A comunidade é muito receptiva, católica e preza pelos valores materiais e imateriais”, ressalta.

Reconstrução e preservação
A nova pintura deverá manter as características originais da obra. Para o artista, restaurar patrimônios exige respeito à essência histórica e emocional carregada em cada detalhe. “Patrimônios, mesmo destruídos por intempéries, devem, quando restaurados, manter suas características. Irei fazer algo muito próximo de sua origem”, explica.
A restauração também carrega um significado mais amplo sobre o papel da arte em momentos de superação coletiva. Marcon acredita que artistas possuem a capacidade de recriar sentidos mesmo diante da destruição. “Reconstruir, recriar e reinventar faz parte do ofício de todos nós, artistas. Superação é a palavra mais adequada aos casos de reconstrução”, avalia.
Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à arte, Dalcir Marcon construiu uma trajetória marcada pela participação em projetos culturais, religiosos e comunitários de Bento Gonçalves e região. Assinante do Jornal há muitos anos, ele relembra o vínculo histórico com a comunidade local e a participação em diversos eventos artísticos e publicitários. “O Semanário sempre me deu apoio em todas as atividades que realizei”, afirma. Entre os trabalhos mais conhecidos estão pinturas de escadarias, casas temáticas, lojas e produções publicitárias em eventos tradicionais do município.

Histórias que marcaram a trajetória
Entre as lembranças mais marcantes da carreira, Marcon realiza o sonho de pintar igrejas. “O Pintei quatro”, conta. Uma das experiências mais simbólicas ocorreu quando produziu a imagem de um anjo negro em uma das obras religiosas. A iniciativa, porém, acabou rejeitada pela comunidade na época. “Fui renegado e obrigado a apagar a pintura”, recorda.
Outra lembrança permanece viva em sua memória: a história de uma santa lançada no Rio das Antas e posteriormente encontrada por pescadores. A imagem acabou sendo levada para uma comunidade da região e, anos depois, foi novamente perdida durante a enchente de 2024.
Agora, diante da possibilidade de restaurar pela terceira vez a pintura da pedra, o artista afirma sentir-se tomado por um sentimento de gratidão. Segundo ele, a repercussão da restauração anterior já havia provocado forte comoção comunitária. “A resposta foi amor à religiosidade, devoção e muita fé”, destaca.
Para Marcon, o resgate da obra ultrapassa a dimensão artística e transforma-se em gesto de preservação da memória coletiva das comunidades do interior. “Ser lembrado por ter iniciado este projeto e poder pintar novamente uma obra considerada perdida é um sentimento de amor e paz pelas pessoas e também por todo patrimônio material e imaterial que representa cada comunidade”, conclui.