Psicóloga alerta para o impacto de discursos de ódio em adolescentes

Apesar da percepção difundida de que as novas gerações caminham em direção a uma maior igualdade de gênero, dados recentes indicam um cenário mais complexo e até contraditório. Uma pesquisa global realizada com 23 mil pessoas aponta que jovens homens da chamada Geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, apresentam níveis mais elevados de concordância com visões tradicionais sobre os papéis de homens e mulheres na sociedade.

O levantamento, conduzido pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, revela que 31% desses jovens acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, percentual que mais do que dobra em relação ao registrado entre homens da geração Baby Boomer, nascidos entre 1946 e 1964. O dado acende um alerta e levanta questionamentos sobre os rumos das discussões de gênero entre as novas linhagens.

De acordo com a psicóloga clínica Raquel Conte, professora do mestrado profissional em Psicologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS), os dados revelam que a Geração Z não pode ser definida de forma simplista como mais conservadora, mas sim como um grupo marcado por tensões e contradições. Para a especialista, os jovens transitam entre avanços e permanências, refletindo um período de mudanças ainda em curso. “Ao mesmo tempo em que valoriza a autonomia feminina, ainda reproduz expectativas tradicionais sobre o que é ser homem. Isso revela um momento de transição: quando referências antigas se enfraquecem e novas ainda não se consolidaram, emergem respostas ambivalentes, que oscilam entre abertura e rigidez. Nesse cenário, o recurso a modelos mais tradicionais pode funcionar como tentativa de estabilização subjetiva diante da incerteza. O desafio contemporâneo não é apenas criticar esses movimentos, mas construir formas de masculinidade que não se organizem a partir da hierarquia ou do medo de perder lugar, e sim da possibilidade de vínculo, reconhecimento e transformação”, explica.

Como os algoritmos influenciam

Segundo a psicóloga, eles não foram criados para radicalizar as pessoas, mas sim para manter sua atenção. “E é justamente aí que está o problema. Conteúdos que provocam emoções fortes, como raiva, frustração ou ressentimento, tendem a engajar mais. Então, quando um jovem começa assistindo a vídeos sobre dificuldades em relacionamentos, por exemplo, rapidamente passa a receber conteúdos cada vez mais extremos, inclusive misóginos. Esse processo pode acontecer sem que ele perceba, criando uma espécie de ‘bolha’ onde essas ideias parecem normais e compartilhadas por todos”, observa.

Raquel frisa que, do ponto de vista psicológico, não existe um único perfil, mas alguns indivíduos podem estar mais vulneráveis, principalmente aqueles que se sentem mais rejeitados, isolados ou com dificuldade de pertencimento. “A adolescência já é um momento de busca por identidade, e essas comunidades oferecem respostas rápidas, pertencimento e até uma explicação simples para o sofrimento”, cita a professora.

Raquel Conte, professora e psicóloga (Foto: Arquivo pessoal)

Para ela, o ponto central é compreender que não se trata apenas de ‘ideologia’, mas também de sofrimento psíquico. Quando a resposta se limita à crítica ou ao julgamento, a tendência é que esses jovens se fechem ainda mais nesses ambientes. O desafio, portanto, é construir outras formas de pertencimento e de elaboração da identidade que não estejam ancoradas no ódio ou na exclusão.

Validação

Em meio a inseguranças sociais, frustrações pessoais e à dificuldade de se reconhecer em modelos contemporâneos de masculinidade, parte dos jovens encontra no discurso de ódio contra mulheres uma forma distorcida de afirmação identitária. Ao reproduzir narrativas misóginas, esses indivíduos passam a integrar grupos que oferecem senso de pertencimento e validação, ainda que sustentados pela exclusão e pela hostilidade. “Em muitos desses espaços, o discurso contra o sexo feminino funciona como uma forma de ‘reparar’ uma masculinidade que o jovem sente como fragilizada. Quando ele vive frustrações, rejeição afetiva, dificuldades sociais ou sensação de não pertencimento, esses grupos oferecem uma explicação simples: o problema não está nele, mas nas mulheres ou nas mudanças sociais”, esclarece a psicóloga.

Nesse contexto, a rejeição ao feminino e à igualdade de gênero funciona como mecanismo de compensação simbólica, no qual a agressividade é interpretada como força e a dominação como sinal de valor, reforçando padrões que dificultam o desenvolvimento de relações mais equilibradas e saudáveis. “Ao desvalorizar as mulheres, o jovem pode se sentir momentaneamente superior, no controle, ‘mais homem’. Ou seja, o ódio passa a funcionar como um mecanismo de validação identitária, uma maneira rápida de sair de uma posição de impotência para uma posição de suposto poder”, esclarece Raquel.

Senso de pertencimento

A psicóloga chama atenção para a forma como esses espaços digitais estruturam um senso de união entre rapazes que se sentem deslocados. Segundo ela, há uma dinâmica de validação interna em que a adesão ao discurso misógino passa a funcionar como critério de reconhecimento dentro do grupo. “Além disso, essas comunidades criam uma lógica de pertencimento: quanto mais o jovem adere à fala radical, mais ele é reconhecido. A masculinidade deixa de ser construída em experiências reais e passa a ser performada por meio de falas, memes e posicionamentos cada vez mais extremos”, salienta.

Para a especialista, esse processo resulta na formação de identidades frágeis, sustentadas pela negação do outro e não por uma construção individual consistente. “O problema é que isso produz uma identidade muito frágil, porque depende da exclusão e da inferiorização alheia para se sustentar. Em vez de elaborar a frustração, ela é deslocada para o ódio, o que pode intensificar o isolamento e a dificuldade de estabelecer vínculos”, frisa.

Insegurança

Na avaliação da profissional, falas que defendem a submissão feminina não devem ser interpretadas como sinal de força, mas como expressão de insegurança. “Psicologicamente, essa crença revela uma necessidade intensa de controle diante de um medo de perda: de lugar, de reconhecimento, de valor”, explica.

Ela esclarece que, ao tentar evitar a complexidade das relações, marcadas pela autonomia do outro e pela possibilidade de discordância ou ruptura, esse discurso recorre a uma lógica simplificadora. “Em vez de lidar com a incerteza que faz parte das interações, onde o outro é autônomo, pode discordar, pode ir embora, esse discurso tenta eliminar essa complexidade. A ideia de obediência funciona como uma fantasia de garantia: se o outro obedece, não há risco, não há rejeição”, enfatiza.

Segundo Raquel, essa postura também pode refletir dificuldades emocionais mais profundas, especialmente na capacidade de lidar com frustrações e com relações mais equilibradas. “O jovem pode sentir que não tem recursos para sustentar relações mais simétricas, então recorre a uma lógica hierárquica, na qual ele se coloca como superior para se proteger de um sentimento interno de insuficiência”, acentua. Ela ressalta que esse tipo de insegurança não resolve o medo, mas apenas o encobre. Como consequência, acaba comprometendo a construção de vínculos reais, que exigem negociação, reconhecimento mútuo e tolerância às diferenças.

Exposição a longo prazo

Raquel menciona que a exposição contínua a conteúdos de ódio nas redes e em outros ambientes digitais provoca efeitos que vão além de episódios isolados, configurando um impacto psicológico progressivo. “A exposição constante tem um impacto psicológico cumulativo. Mesmo quando não é direcionado individualmente, esse tipo de discurso produz um estado de alerta contínuo, como se o ambiente nunca fosse totalmente seguro”, explica.

Segundo ela, esse cenário pode desencadear uma série de reações emocionais e comportamentais ao longo do tempo, afetando diretamente a forma como mulheres se posicionam nesses espaços. “Pode gerar ansiedade, hipervigilância, desgaste emocional e até um processo de autocensura. Muitas passam a evitar certos temas, reduzir sua presença ou medir constantemente o que dizem para não se tornarem alvo”, frisa.

A especialista também chama atenção para um efeito mais silencioso, porém profundo, relacionado à internalização dessas mensagens. “Existe também um efeito mais sutil, mas muito importante: a internalização. Quando um discurso se repete com frequência, ele pode começar a afetar a forma como a própria mulher se percebe, impactando a autoestima, o senso de legitimidade e o pertencimento”, observa.

Nesse contexto, pode ocorrer um afastamento gradual dos espaços digitais, ainda que nem sempre explícito. “Não necessariamente uma saída completa, mas um recuo: menos exposição, menos participação, menos voz. E isso tem um efeito coletivo, porque empobrece o debate público e reforça a desigualdade de presença entre homens e mulheres nesses locais”, expressa. Com isso, o impacto deixa de ser individual e passa a ser social. “Quando o ódio silencia, ele reorganiza quem pode falar e quem é empurrado para fora”, menciona.

Consumo diário

A psicóloga alerta que a exposição cotidiana de conteúdos marcados por discursos agressivos pode interferir diretamente na forma como jovens compreendem e constroem suas relações afetivas. Segundo ela, a repetição dessas narrativas tende a distorcer referências básicas sobre o que caracteriza um relacionamento saudável, normalizando ideias de controle, ciúme excessivo e submissão, enquanto atitudes de respeito e autonomia passam a ser vistas como ameaça.

Para a mestre, esse processo compromete a capacidade de reconhecer limites e identificar comportamentos problemáticos dentro das relações. “O que é abuso pode ser interpretado como cuidado, e o que é saudável pode parecer inadequado. O risco é que os jovens passem a aceitar relações desiguais ou até violentas sem reconhecer isso como problema”, expressa.

Pais e educadores

Raquel aponta que alguns sinais podem indicar o consumo recorrente desse tipo de conteúdo, tanto no comportamento quanto no discurso. Mudanças bruscas de opinião, posicionamentos mais rígidos sobre gênero, comentários depreciativos em relação às mulheres, maior isolamento social e uma visão polarizada da realidade, marcada pela lógica de “nós contra eles”, estão entre os principais indícios observados. “Mas o ponto mais importante não é só identificar, é como intervir. Confrontos diretos ou críticas duras tendem a aumentar o fechamento e o afastamento. Esses jovens muitas vezes já se sentem incompreendidos, então o ataque pode reforçar ainda mais o vínculo com esses grupos”, explica.

Nesse contexto, o diálogo aparece como estratégia mais eficaz. “Perguntar, escutar, tentar entender o que aquele conteúdo está oferecendo para ele, muitas vezes é o pertencimento, explicação para frustrações, sensação de valor. A partir daí, é possível problematizar, não impor”, orienta. A especialista destaca a importância de oferecer alternativas concretas. “Espaços de pertencimento reais, modelos de masculinidade mais saudáveis, vínculos significativos fora do ambiente digital. Não basta retirar o conteúdo, é preciso substituir a função que ele estava cumprindo”, sugere.

Como identificar

A professora explica que essas crenças nem sempre se manifestam de forma explícita no início das relações. “O jovem pode se apresentar como ‘moderno’, mas alguns sinais surgem no cotidiano: incômodo com a autonomia da parceira, necessidade de controle disfarçada de cuidado, ciúme excessivo, desvalorização de opiniões ou tentativas sutis de limitar escolhas”, aponta.

Segundo ela, a forma como o homem reage diante de limites e discordâncias é um indicativo importante. Em relações saudáveis, há espaço para negociação e diálogo. Já em contextos marcados por uma lógica de submissão, a discordância tende a ser interpretada como ameaça ou desrespeito, o que pode gerar conflitos e tentativas de imposição. Para lidar com esse tipo de situação, Raquel orienta que o primeiro passo é confiar na própria percepção. “Muitas vezes há um desconforto que é minimizado. Nomear esse incômodo já é um movimento importante. Depois, é fundamental estabelecer limites claros e observar se há abertura real para mudança. Relações saudáveis exigem reconhecimento mútuo, não adaptação unilateral. E, se esses sinais persistem, é importante buscar apoio de amigas, família ou profissionais. Porque o risco dessas crenças é que elas tendem a se intensificar com o tempo, não a desaparecer”, determina.

Impactos futuros

De acordo com a delegada Deise Salton Brancher, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Bento Gonçalves, esses conteúdos não são benéficos. “Aquele indivíduo que já tem uma tendência à prática de violência contra a mulher, que já tem o machismo enraizado, vai se sentir validado. Ele sentirá que possui argumentos para continuar praticando violência”, menciona.

Por outro lado, a autoridade destaca que também observa uma reação crescente de mulheres, e de outros homens, que passam a repudiar esse tipo de conteúdo e a se posicionar publicamente contra essas narrativas. “Isso me deixa feliz porque a gente também está utilizando esse espaço para confrontar esse tipo de colocação. Mas é preocupante, porque isso dissemina hostilidade entre todas as camadas, inclusive em adolescentes e crianças”, aponta.

Deise Salton Brancher, delegada (Foto: Cassiano Battisti)

Ela ressalta que, na DEAM, já há casos em investigação relacionados à disseminação de ódio contra mulheres na internet. Segundo a delegada Deise, esse tipo de discurso tem alcançado inclusive adolescentes. “Eles estão também com esses sentimentos de posse e com essa fala de que a mulher é submissa ao homem, de que deve servi-lo, inclusive com abordagens na questão sexual”, salienta.
A delegada explica que um dos principais desafios enfrentados pela Polícia Civil na apuração desses casos está relacionado à própria natureza das investigações no ambiente digital. Segundo ela, a função da instituição é identificar a autoria e a materialidade dos crimes, ou seja, apurar quem praticou, como agiu e reunir os elementos de prova necessários para encaminhamento ao Judiciário. “Nosso papel é fazer a investigação policial e oferecer proteção a essas mulheres com base na legislação vigente”, menciona.

Ela destaca ainda que não existe o crime específico de misoginia. “Normalmente, quando o sujeito faz esse discurso de ódio, ele acaba por dirigi-lo a alguma mulher específica. Nas investigações que tenho, há grupos de pessoas direcionando essas ofensas a coletivos de mulheres”, frisa.

O que fazer quando isso acontecer

Deise esclarece que, ao passar por esse caso, é necessário ir até uma delegacia para fazer o registro e fornecer todos os dados de que a polícia vai necessitar para iniciar a investigação. “São dados das contas dela, das contas do agressor, enfim. A polícia trabalha com informações; é a nossa matéria-prima”, orienta.

Na avaliação da delegada, o papel das instituições públicas e da sociedade é central no enfrentamento à normalização de discursos que reforçam a submissão feminina. “As instituições integram o Estado e o poder público representa o povo. E quando a população, de uma maneira geral, está vivendo uma situação desequilibrada, que é a situação de violência contra a mulher, o Estado tem a obrigação de proporcionar o equilíbrio dessas relações. Portanto, as instituições têm esse papel de combater, de enfrentar essa violência e oferecer respostas para a sociedade”, finaliza.
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