No coração da Serra Gaúcha, onde a cultura do vinho é parte da identidade local, um ofício centenário segue resistindo ao tempo e agora também se reinventa. Em Monte Belo do Sul, a tradição dos tanoeiros, responsáveis pela produção dos barris que armazenam e dão vida ao vinho, encontra na chamada Villa Montebello e Pousada Tanoeiro uma forma de preservação, valorização e conexão com o turismo.
A proposta surgiu a partir da criação da pousada, com pouco mais de um ano, que transformou antigas pipas de vinho em cabanas temáticas. “A ideia nasceu do desejo de dar um novo significado a estruturas que estavam sendo substituídas nas vinícolas. São peças carregadas de história, de trabalho, agora fazendo parte da trajetória de muitas pessoas”, explicam os idealizadores Vanessa Magnan Stasczak e Genei Marcos Stasczak, que são um casal. O principal objetivo, segundo eles, é claro: não deixar a história se perder, mantendo a tradição viva, fazendo com que o maior número de pessoas possa conhecer esse universo.
Um ofício essencial à identidade do vinho
Muito além de um trabalho artesanal, a tanoaria é considerada peça-chave na consolidação da reputação dos vinhos e espumantes da Serra Gaúcha. Sem barris de qualidade, não há excelência no produto final. “Podemos dizer com certeza que a tanoaria foi fundamental para a identidade que temos hoje no mundo dos vinhos premiados. Sem o tanoeiro, isso não seria possível. Em Monte Belo, a tanoaria proporciona a produção desses barris para o Brasil inteiro e com a questão do turismo de experiência há rentabilidade e fluxo de pessoas na cidade”, destaca Vanessa.

O tanoeiro é o profissional responsável por transformar madeira bruta em barris, conhecidos como pipas, capazes de armazenar líquidos sem o uso de pregos ou qualquer outro material metálico. A técnica exige precisão, experiência e conhecimento transmitido ao longo de gerações. Cada peça é única, com características próprias, resultado de um processo totalmente artesanal.
Preservação na prática
No município, a tradição segue viva. A Tanoaria Monte Belo, ligada à família de Vanessa, mantém a produção de barris de forma artesanal, sem o uso de maquinário moderno. “Cada barril produzido é diferente do outro, com marcas e características próprias”, afirma.
Além da produção, a preservação acontece também por meio da experiência. Na pousada, os visitantes têm a oportunidade de se hospedar dentro de pipas originais, que mantêm suas características externas, mas foram adaptadas para proporcionar conforto e uma vivência sensorial. “Elas não amadurecem mais vinho, mas proporcionam uma experiência rica em história, cores e aromas”, resume.


Herança italiana e continuidade
A história da tanoaria na região está diretamente ligada à imigração italiana, que trouxe para o Rio Grande do Sul a tradição do cultivo da uva e da produção de vinho. Com isso, surgiu também a necessidade de fabricar recipientes adequados para armazenamento, dando origem aos primeiros tanoeiros no Brasil.
Hoje, a continuidade desse saber passa de geração em geração. Um exemplo está dentro da própria família: Genei Stasczak segue no ofício, agora acompanhado pelo filho, que já demonstra interesse em dar sequência à tradição. “Hoje estou feliz em saber que meu filho quer dar continuidade ao trabalho. Está comigo há um ano já”, comenta.

Turismo, cultura e educação
O espaço também cumpre um papel cultural e educativo, ao valorizar o trabalho manual e incentivar a transmissão do conhecimento. O contato direto com o processo de fabricação e com a história do vinho na região aproxima visitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida. Por isso, a receptividade do público tem sido positiva. Segundo Vanessa, muitos visitantes se surpreendem ao encontrar pipas originais transformadas em cabanas. “Ninguém imagina que viverá essa experiência até chegar aqui”, conclui.