A indústria da moda organiza as diretrizes para o inverno deste ano sob a premissa de unir o rigor técnico das peças estruturadas à fluidez de elementos delicados e românticos. O cenário para a próxima estação fria indica uma valorização acentuada do styling e da composição em camadas, distanciando-se da ideia de um vestuário focado apenas em peças pesadas e volumosas. De acordo com o coordenador do curso de Moda da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Renan Isoton, o período marca um retorno de referências clássicas, como o xadrez e o couro, porém reinterpretados sob uma ótica urbana e conectada ao comportamento contemporâneo.
O coordenador observa que a moda traz uma alfaiataria mais forte, com casacos e peças estruturadas, mas ao mesmo tempo aparece um contraste com elementos mais fluidos. “O inverno deixou de ser apenas uma estação de peças pesadas e passou a ser um espaço de construção visual, em que o styling tem um papel central”, explica. Essa mudança de paradigma reflete uma busca por versatilidade, onde a roupa não apenas protege das baixas temperaturas, mas comunica uma identidade visual complexa, unindo a necessidade de proteção térmica com o desejo de expressão individual em diferentes ambientes.


A estação abre espaço para tecidos vibrantes, como o vermelho profundo, e diferentes texturas, como a dos tweeds em vários formatos (Fotos: Reprodução)

Paleta cromática e a quebra do tradicionalismo
O inverno 2026 rompe com a exclusividade dos tons escuros tradicionais que historicamente dominam as vitrines da Serra Gaúcha durante os meses mais frios. Embora cores neutras como marrom, cinza e vinho mantenham sua relevância comercial e estética, a estação abre espaço para roxos, vermelhos profundos e acentos vibrantes aplicados em pontos estratégicos do visual. Isoton destaca que essa escolha reflete um amadurecimento do mercado criativo nacional, que busca oferecer alternativas ao conservadorismo cromático da estação. “Isso abre um campo muito interessante para criação, porque permite trabalhar tanto uma estética mais clássica quanto propostas mais autorais”, afirma. Essa abertura permite que os designers desenvolvam coleções que fujam da monotonia típica, proporcionando ao consumidor a possibilidade de construir visuais com maior carga de personalidade e contraste.

O protagonismo das texturas e a materialidade
As texturas e os materiais ganham contornos de protagonismo no design das coleções, deixando de ser apenas o suporte para a modelagem. Tecidos encorpados, tricôs, tweeds e couros dividem espaço com contrastes em rendas e transparências, criando uma superfície tátil rica. O coordenador detalha que o design de superfície e a escolha dos materiais comunicam tanto quanto o corte da peça, aproveitando a profundidade visual que as sobreposições de inverno naturalmente oferecem ao vestuário regional.
Os tecidos e as texturas deixam de ser apenas suporte e passam a ser protagonistas da linguagem estética nesta temporada. “A gente vê um movimento muito forte de valorização do toque, da superfície, do volume e da construção material da peça”, observa Isoton.

Comportamento do comprador local
O consumidor da Serra Gaúcha demonstra maturidade ao filtrar tendências globais de forma inteligente e adaptada à sua realidade geográfica. A absorção das novidades do mercado ocorre de forma funcional, priorizando o clima local e a rotina de trabalho e lazer característica das cidades serranas. Isoton destaca que o estilo na região é uma resposta direta às necessidades reais de conforto térmico e durabilidade, o que exige das marcas um design mais técnico e atento ao cotidiano. “Ou seja, ele não consome a tendência de forma literal, mas filtra aquilo que realmente faz sentido para o clima, para a rotina e para o contexto regional”, analisa. Essa postura gera uma leitura local das tendências globais, resultando em peças versáteis e materiais resistentes ao uso contínuo sob condições climáticas severas, típicas de Bento Gonçalves e arredores.

Tecnologia e desempenho térmico no vestuário
A inovação tecnológica se faz presente através de têxteis termorreguladores e do avanço da biotecnologia em fibras, que buscam otimizar o peso das roupas. Esses materiais buscam equilibrar a temperatura corporal sem elevar o volume excessivo do vestuário, atendendo a uma demanda crescente por mobilidade. O coordenador observa que a sustentabilidade e o desempenho caminham juntos, com a evolução das tecnologias de reciclagem têxtil permitindo pensar em circularidade com viabilidade industrial.
Essa avanço ganha espaço nas discussões internacionais e sinaliza uma transformação importante no setor. “Os têxteis termorreguladores ajudam a equilibrar a temperatura corporal e podem melhorar bastante o conforto no inverno sem necessariamente aumentar o peso da peça”, explica Isoton. Embora existam desafios de escala e custo para a democratização dessas tecnologias, o movimento já influencia o desenvolvimento de novos produtos no mercado brasileiro.

Formação acadêmica e o mercado de trabalho
A capacitação dos novos profissionais de moda na UCS acompanha as transformações sistêmicas exigidas pelo mercado global. Isoton ressalta que o ensino atual ultrapassa a criação puramente estética, focando na materialidade, na cadeia produtiva e na viabilidade comercial do produto. O objetivo é formar profissionais capazes de entender o impacto de suas escolhas desde o desenho até o descarte final da peça, unindo a visão artística à gestão técnica.
A formação em moda hoje precisa ir além da criação estética. “O aluno que sai preparado hoje é aquele que consegue pensar moda de forma sistêmica, articulando repertório criativo com conhecimento técnico e visão estratégica”, define Isoton. Segundo ele, o trabalho de projeto envolve decisões sobre o desempenho da peça e a adequação ao uso, perfil que o mercado exige em um cenário de mudanças aceleradas e alta competitividade.

Parcerias industriais e o legado da lã
A conexão entre a academia e a indústria local é reforçada por iniciativas como a parceria com o lanifício Cootegal, o único ainda em funcionamento na América Latina. Os estudantes desenvolvem coleções inteiras a partir da lã natural, culminando em um concurso que já atinge sua 24ª edição. Essa aproximação permite que o acadêmico lide com demandas concretas, como limitações de material, prazos e custos reais de produção, consolidando o aprendizado prático.
O diálogo com empresas locais é vital para a qualificação dos futuros designers de moda. “Sempre que o curso estabelece parcerias com fornecedores, confecções, indústrias ou marcas da região, o aluno passa a trabalhar com demandas concretas, com limitações reais de material, prazo, custo e perfil de consumidor”, destaca Isoton. Essa experiência é fundamental para compreender as especificidades do inverno da Serra Gaúcha, que possui exigências térmicas e de durabilidade muito superiores a outras regiões do país.

A mistura de tecidos estruturados com peças fluidas também será tendência, bem como a busca por um estilo próprio (Fotos: Reprodução)

Identidade cultural e herança europeia reelaborada
A identidade cultural de Bento Gonçalves e da região serrana atua como base para as criações atuais, unindo tradição e modernidade. A herança europeia, trazida pela imigração, permanece viva na valorização da alfaiataria estruturada e no rigor dos acabamentos têxteis. No entanto, as novas coleções buscam integrar esse legado a influências contemporâneas, como a busca por conforto e a utilização de processos produtivos mais éticos. “A moda de inverno pode se conectar com a identidade cultural da Serra Gaúcha por meio da memória, da paisagem, dos modos de vida, das referências de imigração e também dos fazeres locais”, afirma Isoton.
O coordenador pondera que o mais importante é evitar uma leitura folclorizada, traduzindo elementos históricos em uma linguagem de design que seja sofisticada, autoral e relevante para o mercado atual. “A herança europeia pode ser percebida no gosto pela alfaiataria, na valorização do acabamento, em certas escolhas de silhueta e também em uma estética de inverno mais estruturada. No entanto, as criações atuais não se limitam a reproduzir esse repertório. O que vemos é uma mistura muito interessante entre essa base histórica e outras influências contemporâneas, brasileiras e globais, incluindo questões de conforto, sustentabilidade e comportamento”, esclarece.

Sustentabilidade e o futuro das fibras naturais
O uso de fibras naturais como o algodão agroecológico e o cânhamo é visto como um caminho estratégico para o futuro sustentável do setor têxtil. Grandes marcas nacionais já incorporam matérias-primas de baixo impacto, refletindo uma mudança que deixou de ser um nicho para ocupar o centro das discussões estratégicas. Isoton avalia que o algodão agroecológico não é apenas uma matéria-prima, mas um modelo de produção que fortalece a agricultura familiar e gera renda.
O potencial do cânhamo para o futuro da moda de inverno é expressivo, especialmente em misturas que aproveitam sua resistência e versatilidade. “Para uma moda de inverno mais sustentável, pensar em fibras naturais e em cadeias rastreáveis é um passo essencial”, enfatiza Isoton.
Para o especialista, a transparência na origem dos materiais e a redução do impacto ambiental são requisitos que deixam de ser diferenciais e passam a ser obrigações para a sobrevivência das marcas no longo prazo. “Hoje, no Brasil, eu destacaria um grupo de marcas e empresas que vêm avançando de formas diferentes. No varejo, Renner e C&A aparecem com iniciativas relevantes em algodão de menor impacto, incluindo frentes de algodão regenerativo e programas de algodão mais sustentável. Já o Grupo Malwee é uma referência importante pela trajetória com materiais como poliéster reciclado e algodão orgânico. No segmento autoral e de posicionamento, a Osklen segue muito forte ao comunicar o uso de matérias-primas como algodão reciclado, algodão orgânico, PET reciclado e cânhamo, e a Flavia Aranha se destaca por uma pesquisa consistente em tingimento natural e processos de menor impacto. Eu também mencionaria a Veste S.A., que vem reforçando rastreabilidade do algodão e ampliação do uso de matérias-primas de menor impacto”, cita Isoton.

Consciência jovem e a transição industrial
O público jovem e os estudantes de moda demonstram uma postura crítica e sensível às questões ambientais e sociais inerentes à produção têxtil. Eles já ingressam no ambiente acadêmico com questionamentos sobre o descarte, a durabilidade das peças e a ética das marcas. O papel das instituições de ensino é transformar essa consciência em capacidade técnica de projeto, unindo a vontade política ao rigor científico do design de moda voltado para a sustentabilidade.
Esta, ultrapassou a condição de nicho em termos de influência estética, conceitual e estratégica no cenário atual. “Ela impacta decisões de matéria-prima, narrativa de marca, comportamento de consumo e até o desenvolvimento de novas tecnologias têxteis”, conclui Isoton. O coordenador percebe que os estudantes estão abertos ao aprendizado de uma moda que distribui melhor o valor e cria relações mais equilibradas, sinalizando um futuro mais consciente para a indústria na Serra Gaúcha.