Cooperativas e vinícolas projetam aumento de produção e mantêm foco rigoroso na qualidade para atender ao mercado nacional

A vindima de 2026 na região se desenha como uma das mais promissoras da última década, tanto em volume quanto em qualidade, consolidando uma tendência que vem se confirmando nos últimos ciclos: a crescente especialização da região na produção de uvas destinadas à elaboração de espumantes e vinhos de maior valor agregado. Em Bento Gonçalves e municípios do entorno, o clima favorável ao longo dos diferentes estágios de desenvolvimento da videira, aliado a investimentos consistentes em tecnologia, manejo e planejamento estratégico, sustenta projeções otimistas entre cooperativas e vinícolas.

Expectativas expandidas
Com a colheita em andamento, o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) revisou suas estimativas e passou a projetar uma produção que pode alcançar aproximadamente 900 milhões de quilos de uva em todo o estado.
Segundo o presidente do Consevitis-RS, Luciano Rebellatto, a previsão divulgada em novembro de 2025, que apontava um aumento entre 5% e 10% e uma produção em torno de 800 milhões de quilos de uva destinada à indústria, tende a ser superada a partir dos dados já observados no campo. A avaliação atual indica crescimento próximo de 15%, com cerca de 850 milhões de quilos. Ao se somarem os volumes destinados ao consumo in natura e à elaboração de vinhos artesanais, o total pode chegar a 900 milhões de quilos, podendo ser ainda maior se consideradas produções que não integram as estatísticas oficiais.
O ciclo 2025/26 também registra atraso no início da colheita em relação ao ano passado, estimado entre 15 e 20 dias. De acordo com o presidente do Consevitis-RS, essa diferença não representa motivo de preocupação, já que cada safra apresenta características próprias, fortemente influenciadas pelas condições climáticas de cada ano. Historicamente, o maior volume da colheita concentra-se entre os meses de fevereiro e março. Com os trabalhos ainda em andamento, o instituto ressalta que os números podem sofrer novos ajustes.

Cooperativa Vinícola Aurora projeta crescimento expressivo

Crédito Anderson Pagani


Com uma estimativa de colheita que atinge a marca de 85 milhões de quilos de uvas, a expectativa é de recuperação e crescimento para o ciclo 2026. Segundo o gerente agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora, Maurício Bonafé, o volume representa uma elevação de 18,7% em comparação ao total processado no ano anterior, com incremento produtivo é fundamentado em uma combinação de fatores técnicos e climáticos. O principal motor desse avanço é a excelente condição sanitária verificada nos vinhedos, aliada a um comportamento meteorológico que favorece o ciclo da videira. Somado a isso, a cooperativa colhe os resultados de um planejamento estratégico de expansão de área, especialmente no segmento de espumantes. Nos últimos anos, houve um aumento de aproximadamente 12% na área plantada com variedades destinadas à elaboração de bases para espumantes, com foco em uvas como a Malvasia Aromática e variedades da família Moscato. Essa ampliação de área reflete diretamente na expectativa de volume, que deve ser 15% superior para estas variedades específicas em relação à safra passada.

Maturação e sanidade
Bonafé explica que em termos de desenvolvimento vegetativo, as variedades viníferas, americanas e híbridas demonstram um padrão de sanidade considerado ótimo pela equipe técnica. Atualmente, os parreirais que abrigam as cultivares mais precoces encontram-se em fase avançada de maturação, com os trabalhos de colheita já iniciados em pontos isolados. As plantas de ciclo mediano atravessam a fase de troca de cor (veraison), enquanto as variedades tardias cumprem as etapas de enchimento de bagas. Embora o cronograma apresente um leve atraso quando comparado aos últimos anos, em função de um período de frio mais prolongado na primavera, o desenvolvimento é classificado como dentro da normalidade para um ciclo regular. A colheita da Chardonnay, fundamental para a elaboração de espumantes, tem início previsto para a primeira quinzena deste mês.
Para as variedades americanas e híbridas, que constituem a base para a produção de sucos de uva e vinhos de mesa, o panorama mantém o otimismo. O progresso de cultivares como Isabel, Concord e BRS Magna é descrito pela Cooperativa como consistente, apresentando volumes adequados e maturação dentro dos padrões exigidos pela indústria. A manutenção da sanidade nestas plantas é um ponto destacado, reduzindo a necessidade de intervenções e garantindo uma matéria-prima de maior integridade para o processamento.

Fatores climáticos e fertilidade

Crédito Anderson Pagani


A base para esse desempenho produtivo reside na fertilidade das gemas, fator técnico que determina o potencial de produtividade de cada planta. Segundo o gerente agrícola, a performance das videiras nesta temporada é um reflexo direto das condições climáticas registradas durante o inverno. “A fertilidade de gemas é uma delas, um dos principais indicadores de potencial produtivo. O frio acumulado no inverno foi suficiente para brotação uniforme e vigorosa, essencial para formação correta dos cachos”, destaca.
A análise técnica da Aurora indica que a uniformidade observada desde o início do ciclo é um presságio de qualidade superior para o produto final. Bonafé reforça que o clima atua como um aliado estratégico, permitindo que os sinais de campo apontem para uvas de alta excelência. “O clima tem sido um aliado importante, especialmente no inverno, que garantiu boa fertilidade de gemas e brotações muito homogêneas. Todos os sinais apontam para uvas de excelente qualidade. Fatores como o grau Babo, que determinam maturação e intensidade de açúcares, são confirmados no decorrer da colheita, mas com boas perspectivas para esses indicadores de qualidade”, avalia Bonafé.
O acompanhamento técnico permanente junto aos cooperados assegura que a entrega da produção ocorra no momento ideal de maturação, preservando as características intrínsecas de cada variedade.

Famiglia Valduga aposta em rigor técnico e inovação
O recebimento das uvas Chardonnay e Pinot Noir, destinadas à base de espumantes, marca o ritmo atual das atividades, embora o ciclo apresente um atraso médio de 15 a 20 dias em comparação ao ano anterior. De acordo com o enólogo Michel Zignani, a vinícola projeta receber entre 10% e 15% a mais de frutas nesta safra, o que demanda uma logística precisa e critérios técnicos rígidos para garantir o padrão dos produtos finais.


A organização do fluxo de entrada é o primeiro gargalo enfrentado para evitar a oxidação dos frutos, processo que pode comprometer o frescor e a longevidade dos espumantes. Zignani explica que a operação exige que as uvas sejam processadas no menor intervalo de tempo possível entre a colheita e a prensagem. Além da agilidade, a integridade física do cacho é prioritária. O enólogo relata que as caixas não podem ser preenchidas excessivamente para evitar o esmagamento precoce e o consequente escorrimento do suco durante o transporte, que deve ocorrer sob proteção direta do sol.
A sanidade do vinhedo é outro ponto de atenção imediata. Zignani ressalta a importância da seleção criteriosa, que ocorre tanto no campo quanto na recepção da vinícola, para a remoção de qualquer fruta que não esteja perfeitamente sadia. A preocupação principal recai sobre o fungo Botrytis cinerea, responsável pela produção de enzimas. “Para evitar a oxidação é fundamental organizar uma boa logística de recebimento de uva. Elas devem ser processadas em um período mais curto possível entre a colheita e a prensagem”, afirma.

Novos indicadores de maturação
No que tange aos parâmetros de qualidade para as linhas ícones, a vinícola observa uma mudança de paradigma técnico. Embora o açúcar, a acidez e o pH continuem sendo monitorados, outros fatores ganham maior relevância nas decisões de colheita. “É importante ressaltar que hoje, cada vez mais, estamos olhando para a maturação fenólico e aromática e também a sanidade das uvas, além dos parâmetros analíticos. A análise de açúcar perdeu um pouco do protagonismo, visto que o vinho ou espumante ter álcool alto já não é mais interpretado como sinônimo de qualidade para o consumidor”, destaca o enólogo. Para os espumantes, o equilíbrio buscado situa-se normalmente em 15 a 16° Babo, com pH abaixo de 3,3. Já para os vinhos tintos, a maturação de polifenóis costuma alinhar-se a um índice de 20° Babo, com pH ideal entre 3,5 e 3,8 nas condições da Serra Gaúcha.

Expectativas para as variedades tintas
Quanto à produção de tintos, o cenário ainda é de expectativa. As uvas estão em período de mudança de cor e o clima das próximas semanas será o fator determinante para o resultado final. Zignani demonstra otimismo diante da previsão de tempo mais seco para o período. Em contrapartida, a variedade Chardonnay consolida sua posição como o pilar da produção de espumantes da casa. Conforme o enólogo, a uva apresenta regularidade e alta qualidade técnica, superando desafios climáticos recorrentes e entregando vinhos base com boa.

Biotecnologia e inovação no campo

Casa Valduga Encruzilhada


A inovação na safra de 2026 também passa pelo campo da biotecnologia. A Famiglia Valduga utiliza nesta temporada espécies de leveduras “não-saccharomyces”, selecionadas na natureza para atuar em conjunto com as leveduras tradicionais. “Muitas espécies novas de leveduras que não são da tradicional espécie Saccharomyces cereviseae estão sendo selecionadas na natureza e trazidas para as vinícolas. Espécies chamadas de ‘não-saccharomyces’ podem ajudar na gestão de fermentações mais precisas, para melhoramento dos aromas, preservação do vinho e redução do grau alcoólico. Elas têm se mostrado uma ferramenta muito interessante”, explica o enólogo. Tais tecnologias complementam a estrutura física da vinícola, que conta com uma capacidade de estocagem de 2,6 milhões de litros em tanques de aço inoxidável e 100 mil litros em barricas de carvalho destinadas aos vinhos de guarda.
O rendimento industrial estimado para esta safra deve girar entre 73% e 75%, o que sinaliza uma boa eficiência no processamento da matéria-prima. Diante do volume adicional de frutas, a vinícola aplicou um trabalho rigoroso de raleio de cachos para manter a concentração de qualidade exigida em seus rótulos superiores. “A qualidade das uvas que chegam à vinícola abre espaço para o desenvolvimento de projetos especiais e edições limitadas. Certamente haverá novidades nesse sentido”, antecipa Zignani.

Cooperativa Vinícola Garibaldi amplia capacidade

Crédito Augusto Tomasi


A expectativa é de um aumento de cerca de 15% no volume de uvas recebidas em relação ao ano anterior, superando a marca de 30 milhões de quilos. O enólogo chefe da cooperativa, Ricardo Morari, aponta que o foco central da produção permanece na matéria-prima destinada à elaboração de espumantes, segmento que sustenta a identidade comercial da marca no mercado nacional. Entre as variedades processadas, as uvas brancas como Moscato, Chardonnay, Prosecco e Trebbiano concentram o maior volume, sendo a Moscato a principal protagonista em termos quantitativos para a produção dos moscatéis da casa. Além das variedades finas, a cooperativa projeta o recebimento de grandes volumes de uvas destinadas à elaboração de sucos, como a Bordô e a Isabel. De acordo com o enólogo, as condições climáticas recentes favorecem esse incremento quantitativo. “Teremos, em todas as variedades brancas, uma projeção de crescimento de volume, em função das condições que tivemos de floração e de um bom desenvolvimento do fruto, consequentemente com uma produção maior”, pontua Morari.

Planejamento estratégico e infraestrutura
Morari explica que as decisões de plantio e renovação de vinhedos ocorrem em ciclos que variam de três a cinco anos, sempre pautadas pelas sinalizações de demanda do mercado consumidor. Esse acompanhamento rigoroso permite que a cooperativa mantenha a autossuficiência produtiva, eliminando a necessidade de aquisição de matéria-prima de produtores não associados. “Buscamos trabalhar dentro de um planejamento estratégico. Dentro disso, vamos implantando os vinhedos conforme o mercado nos indica. Graças a esse planejamento de alguns anos, conseguimos ter autossuficiência de produção, não precisando comprar de terceiros”, relata o enólogo.
Para suportar o volume de moagem previsto, que ultrapassa as 30 mil toneladas, a Garibaldi realiza investimentos significativos em sua infraestrutura de estocagem e processamento. Recentemente, a capacidade de armazenamento recebeu um incremento de 5,5 milhões de litros, viabilizado pela aquisição de 20 novos tanques de grande porte. Morari ressalta que o investimento visa eliminar qualquer possibilidade de capacidade ociosa, mantendo o equilíbrio entre a entrada da uva e o espaço disponível para fermentação e maturação

Critérios técnicos e valorização do produtor

Crédito Augusto Tomasi.


No ato do descarregamento, cada carga é submetida a uma avaliação detalhada que considera critérios de sanidade, incidência de doenças e a maturação medida pelo grau de açúcar. “Avaliamos a sanidade das uvas, a incidência de podridão ou de doenças, maturação através do grau de açúcar, e também a presença de folhas, o aspecto visual da carga. Esses são os principais aspectos que vão gerar uma pontuação, a partir da qual definimos o preço a ser pago para o cooperado”, descreve Morari.
A modernização tecnológica é uma constante no parque fabril, buscando a eficiência dos processos e a manutenção do padrão de qualidade exigido pelo mercado. Segundo o enólogo, a cooperativa não possui capacidade ociosa, mas sim uma estrutura precisamente ajustada para a demanda atual. “O que temos é capacidade total de armazenamento e de processamento bem ajustada. Temos investido muito em tecnologia para melhorar a eficiência de nossos processos, visando um crescimento sustentável”, reforça Morari.

Processamento e segurança de mercado
A logística de operação durante o pico da colheita exige um regime de trabalho intensivo, com as linhas de recebimento operando até 18 horas por dia. A cooperativa dispõe de três linhas de descarregamento distintas para otimizar o fluxo, sendo uma delas exclusiva para as uvas comuns. Nas outras duas frentes, o trabalho inicia nas primeiras horas da manhã com o processamento das uvas finas. “Nosso descarregamento funciona 18 horas por dia nos períodos de pico na colheita, sendo que chegamos receber mais de 1 milhão de kg em alguns dias”, detalha o profissional. Essa separação física e cronológica garante a integridade dos diferentes tipos de produtos elaborados pela vinícola.
Além do processamento imediato, a gestão dos estoques é tratada com cautela estratégica para garantir a continuidade do fornecimento nacional. “No nosso planejamento também há um volume pré-definido de estoque de passagem, que é utilizado em momentos de necessidade, quando se tem uma quebra de safra, por exemplo, para não termos problemas de desabastecimento de mercado”, finaliza Morari.