A economia da Serra Gaúcha vive dias de intensa apreensão. Com a entrada em vigor simultânea de duas severas barreiras comerciais aplicadas pelo governo dos Estados Unidos (uma de 25% sob a Seção 301 e outra de 12,5% sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado), o Brasil assumiu o incômodo posto de segundo país mais tarifado pelos norte-americanos no mundo, atrás apenas da China. O impacto atinge diretamente um montante de US$ 12,5 bilhões em exportações anuais do país, gerando uma perda acumulada que soma alíquotas asfixiantes de até 37,5% para setores estratégicos. No Rio Grande do Sul, o cenário é de emergência: quase metade (48,2%) das exportações destinadas aos EUA estão sob a linha de fogo.
Debate Complexo
Ante iminente quebra nas cadeias produtivas nacionais, o governo federal acionou a terceira etapa do Plano Brasil Soberano III, liberando R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito subsidiadas voltadas ao capital de giro, aquisição de bens e inovação tecnológica.
Contudo, a contrapartida exigida pelo Planalto, a estrita manutenção de postos de trabalho, acendeu um debate complexo entre as lideranças industriais de Bento Gonçalves, que avaliam se o fôlego financeiro será suficiente para estancar cortes em um cenário de margens estranguladas e volumes em queda.
Exportação de Móveis
De acordo com a presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), Cíntia Weirich, o mercado norte-americano é historicamente um dos principais destinos do móvel de Bento Gonçalves, mas o avanço do protecionismo tem redesenhado o mapa de comércio da região.”O mercado norte-americano vem perdendo participação nas exportações do polo desde agosto de 2025, quando foi anunciada a taxação de 50%”, explica.
A presidente afirma que o impacto varia de empresa para empresa, considerando o quanto as indústrias conseguem negociar com parceiros comerciais e flexibilizar suas margens, mas o resultado final provavelmente vai ser de menor volume de vendas e lucro. Questionada sobre a eficácia do crédito de R$ 18,5 bilhões atrelado à manutenção de empregos, a presidente descarta pânico, mas cobra reformas estruturais. “Mesmo com a taxação de 50% em 2025, não tivemos relatos de demissões em massa no polo. Houve alguns desligamentos, mas as indústrias locais seguraram seus quadros. Desde então, muitas empresas passaram a se reposicionar, buscando novos parceiros ou adequando o mix de produtos. As linhas de crédito dão fôlego, minimizando impactos, mas o melhor cenário seria o fim da taxação para reconquistarmos competitividade. É importante que o governo adote medidas que apoiem mais o empresariado, como diminuição da tributação e qualidade das vias, tornando as operações menos onerosas”, disse.
Freio na Expansão
Para o setor metalmecânico da Serra, a sobretaxa congelou uma das avenidas de crescimento mais promissoras dos últimos anos, anulando o espaço que vinha sendo tomado da própria China.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Bento Gonçalves (SIMMME), Bruno Dal Fré, o mercado norte-americano representa um dos maiores potenciais de crescimento para as indústrias da região, porém o país possui elevada competitividade em máquinas, equipamentos e componentes industriais de maior valor agregado. “As restrições americanas a produtos chineses vinham abrindo uma oportunidade importante para nós. No entanto, a nova tarifa praticamente inviabiliza esse movimento. Embora o volume atual de exportações das empresas da nossa região para os EUA ainda seja relativamente baixo, tratava-se de um mercado em expansão. Com esse aumento de custos, muitos negócios deixam de ser competitivos e as oportunidades tendem a ser perdidas ou postergadas”, justifica Dal Fré.

Bruno Dal Fré lembra que o maior sinal de alerta do SIMMME reside nas engrenagens internas da economia regional. “A preocupação maior está nos efeitos indiretos sobre a cadeia produtiva”, adverte o dirigente. “Mesmo empresas que não exportam diretamente podem ser impactadas por fornecer máquinas e componentes para indústrias exportadoras. Caso os exportadores reduzam a produção ou adiem investimentos, isso gerará um efeito cascata sobre fornecedores locais, resultando em menor demanda, redução de investimentos e desaceleração industrial em diversos segmentos do setor metalmecânico da região”, explica.
Blindagem Econômica
Frente ao cenário estatístico alarmante que coloca o Rio Grande do Sul no epicentro das perdas, a principal liderança multissetorial do município aposta na pluralidade econômica como o principal escudo de Bento Gonçalves. Na visão do presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), Daniel Panizzi, Bento Gonçalves tem uma economia altamente diversificada, apoiada com solidez na indústria moveleira, na vitivinicultura, no metalmecânico, no comércio e no turismo. “É justamente essa diversificação que atua como um amortecedor e evita um efeito generalizado de crise em nosso ecossistema empresarial. Ainda assim, o polo têxtil, moveleiro e de componentes automotivos precisa de atenção. “O CIC-BG tem liderado o diálogo regional para que as indústrias aproveitem momentos de fricção internacional como o atual para acelerar processos de modernização e buscar independência de mercados voláteis. A orientação da entidade é de que as empresas utilizem as linhas de crédito federais disponíveis não apenas como mero suporte de caixa, mas como alavanca estratégica para readequação tecnológica e prospecção em blocos comerciais alternativos, blindando a receita local contra as decisões unilaterais das grandes potências econômicas.
Cautela nos Vinhos
Embora o foco inicial das tarifas americanas afeta os setores moveleiro e metalmecânico, produtores locais temem os reflexos indiretos da medida e, principalmente, o fechamento do mercado norte-americano para os rótulos brasileiros.
O presidente do Sindicato da Indústria do Vinho, do Mosto de Uva, do Vinagre e Derivados do Rio Grande do Sul (Sindivinhos), José Virgílio Venturini, projeta um cenário de forte retração nas exportações para os Estados Unidos. “O maior temor é que a taxação inviabilize a competitividade do vinho nacional na América do Norte, dificultando a manutenção comercial dos produtos naquele país. Por outro lado, o impacto direto no parque fabril da Serra deve ser mitigado pela origem da tecnologia utilizada no campo e nas cantinas. Como os principais fornecedores de maquinários, equipamentos agrícolas e insumos enológicos da indústria gaúcha são países europeus, como Itália, França e Alemanha, o abastecimento produtivo não deve sofrer grandes sobressaltos”, disse.
O Sindivinhos adverte que a imposição de barreiras alfandegárias pelo Brasil pode se transformar em um tiro no pé, encarecendo a importação de insumos essenciais e prejudicando a própria economia nacional. A entidade defende que as decisões econômicas sejam blindadas de interferências políticas para evitar a perda de competitividade global, o que poderia desencadear redução da atividade industrial e desemprego na região. “A questão da retaliação e da reciprocidade deve ser analisada com muita cautela. O Brasil precisa buscar alternativas que não inviabilizem determinados setores da economia. É fundamental evitar que questões políticas interfiram diretamente nas decisões econômicas, pois isso pode comprometer a competitividade do país e, consequentemente, gerar impactos negativos, como a redução da atividade econômica e o aumento do desemprego”, conclui.

Líderes empresariais avaliam o fato
“O principal motor de vendas das indústrias do polo moveleiro de Bento é o mercado brasileiro, que naturalmente apresenta desafios como carga tributária, custos logísticos, preço das matérias-primas e poder de compra das famílias. As exportações são importantes porque ajudam as fábricas a diversificarem mercados, diminuindo a dependência apenas do consumo nacional. O que percebemos neste momento é que as vendas para países da América Latina crescem, especialmente para países como Uruguai, Chile, Argentina e Peru. A 25ª Movelsul Brasil, que ocorrerá de 17 a 20 de agosto em Bento, já tem visitantes de 39 países confirmados”.
Cíntia Weirich, presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis).
“Embora criticado, Donald Trump protege a economia e a indústria americana. O Brasil carece de habilidade governamental para valorizar o produto nacional. O Rio Grande do Sul e outros estados alimentam o mundo com proteína animal e vegetal. Precisamos de protecionismo e pressão bilateral nas negociações. O agronegócio tem potencial sustentável, mas necessita de políticas para processar commodities localmente, agregando valor à cadeia e alavancando a economia”.
César Anderle, vice-Presidente Regional da Serra da Federação de Entidades Empresariais do RS (Federasul).
“A preocupação maior está nos efeitos indiretos sobre a cadeia produtiva. Mesmo empresas que não exportam diretamente podem ser impactadas por fornecer máquinas, equipamentos, componentes e serviços para indústrias exportadoras. Caso os exportadores reduzam sua produção ou adiem investimentos em função da perda de competitividade no mercado americano, isso tende a gerar um efeito cascata sobre toda a cadeia de suprimentos. Esse cenário pode resultar em menor demanda para fornecedores e redução de investimentos”.
Bruno Dal Fré, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (SIMMME).
“Recebemos essa medida com muita preocupação. Os Estados Unidos são um mercado estratégico para a indústria gaúcha e um dos principais destinos das nossas exportações. A nova taxação reduz a competitividade dos produtos brasileiros justamente em um mercado que muitas empresas levaram anos para conquistar. O impacto é ainda maior para pequenas e médias indústrias, que têm menor capacidade de absorver custos adicionais ou redirecionar rapidamente suas vendas para outros países”.
Maristela Cusin Longhi, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).
“O governo federal ampliou recentemente o Plano Brasil Soberano, com uma nova etapa de R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento para capital de giro, aquisição de bens de capital, inovação e abertura de novos mercados. É um reforço importante e bem-vindo, que soma-se às etapas anteriores do programa. Mas o setor produtivo entende que crédito, isoladamente, não resolve o problema. O acesso a essas linhas precisa ser rápido, principalmente para as empresas de menor porte. O CIC-BG vai continuar acompanhando esse processo junto às entidades que representam o setor moveleiro e o comércio exterior”.
Daniel Panizzi, presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG).
“O aumento de taxas e impostos sempre gera impactos negativos para o setor. Em relação ao fornecimento de máquinas e equipamentos para a indústria vinícola, não vejo grandes problemas, uma vez que os principais fornecedores são países europeus, como Itália, França, Alemanha, entre outros. Por outro lado, o mercado americano tende a ser fortemente prejudicado, podendo inclusive enfrentar dificuldades para manter a comercialização de nossos produtos”.
José Virgilio Venturini, presidente do Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do RS (Sindivinho).





