Não é novidade que fomos desclassificados nas oitavas de final. Confesso que, mesmo sendo apaixonada por futebol e torcedora da Seleção, eu tinha poucas esperanças. Quase tropeçamos contra Marrocos e Japão. Não éramos, de fato, favoritos.
Mas o problema nunca foi perder.
O problema é como se perde.
Estamos falando, em tese, dos 11 melhores jogadores entre mais de 200 milhões de brasileiros. Atletas milionários, com a melhor estrutura, os melhores treinadores e centros de treinamento. Do outro lado, uma seleção de um país que conheceu o futebol muito depois de o Brasil já colecionar títulos mundiais. Sabíamos do perigo chamado Haaland e, ainda assim, repetimos os mesmos erros. Bastaram três minutos para levarmos um susto. O gol foi anulado, mas parecia um aviso do que estava por vir. Depois, um pênalti desperdiçado. Mais um capítulo de uma atuação sem alma.
Perder faz parte do esporte. O que não pode fazer parte é faltar vontade de vencer.
Enquanto o Brasil deixava a desejar em entrega, Cabo Verde conquistava o respeito do mundo.
Os Tubarões Azuis disputavam sua primeira Copa do Mundo. Até pouco tempo, sequer tinham tradição no cenário internacional. Um de seus jogadores conciliava o futebol com outra profissão. Seu goleiro, aos 40 anos, mostrava que experiência e dedicação também vencem batalhas. Não havia estrelismo. Havia comprometimento.
Contra a favorita Argentina, ninguém esperava resistência. Esperava-se uma goleada. Mas Cabo Verde fez Messi e companhia sofrerem. Perdeu o jogo, é verdade. Mas saiu maior do que entrou. Saiu com dignidade, coragem e aplausos.
Até Vozinha, apelido que nasceu como provocação na infância, transformou o que era motivo de deboche em símbolo de orgulho. Mostrou que respeito não se compra com fama, mas se conquista com atitude.
Já o Brasil parecia jogar apenas pelo talento, como se ele bastasse. Neymar entrou, mas pouco mudou. A Noruega fez o simples. Marcou quando precisou, defendeu quando foi necessário e venceu sem espetáculo. Fez o básico muito bem feito.
Não adianta ter a melhor chuteira, o maior salário ou o técnico mais renomado se falta aquilo que dinheiro nenhum compra: raça, entrega e compromisso.
Cabo Verde terminou sua participação de cabeça erguida. Empatou com campeões mundiais na fase de grupos, enfrentou gigantes sem medo e mostrou que caráter também se mede em campo.
Porque nem sempre a história pertence aos campeões. Às vezes, ela pertence a quem se recusa a desistir.
Talvez Deus nem sempre nos coloque no palco para levantar a taça. Às vezes, Ele apenas quer revelar quem somos diante dos gigantes.
E, nessa Copa, quem deu uma verdadeira aula de coragem não foi quem venceu.
Foi Cabo Verde. Porque há derrotas que inspiram mais do que muitas vitórias.





