Celebrado em 21 de fevereiro, o Dia Nacional do Imigrante Italiano no Brasil marca a chegada dos primeiros grupos organizados de italianos ao país, em 1874, dando início a um dos fluxos migratórios mais significativos da história brasileira. Oficializada pela Lei nº 11.687/2008, a data reconhece a contribuição decisiva desses imigrantes para a formação econômica, social e cultural do Brasil.
Ao longo de décadas, famílias oriundas principalmente das regiões do Vêneto, Lombardia e Trentino estabeleceram-se em diferentes estados, com forte presença no Sul e Sudeste. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a colonização italiana moldou municípios, impulsionou a agricultura familiar e consolidou tradições que permanecem vivas na gastronomia, na religiosidade e nas festas comunitárias.
De acordo com o doutor em História e docente do curso de Graduação e do PPG em História da UCS, Rodrigo Luis dos Santos, a data foi escolhida porque, no porto da cidade de Vitória, na então Província do Espírito Santo, ocorreu o desembarque de 380 imigrantes italianos, que atravessaram o oceano no navio “La Sofia”. “Estes imigrantes vieram para o Brasil para trabalhar nas lavouras de café da região Sudeste, especialmente na área de plantio que avançava no Espírito Santo. Assim, essa data acabou sendo fixada como o Dia Nacional do Imigrante Italiano, pois marca a chegada oficial da primeira leva vinda da Itália recém unificada”, explica.
Segundo ele, o período de maior fluxo de imigrantes aconteceu entre 1880 e 1900, especialmente para a região Sudeste. “Quando a mão de obra negra escravizada, com a abolição, passou a ser substituída nos cafezais pelos imigrantes”, menciona Dos Santos.
De acordo com dados apresentados pelo professor, além do fluxo inicial, um novo contingente expressivo de italianos chegou ao Brasil durante o período da Primeira Guerra Mundial e no imediato pós-guerra, entre 1919 e 1920. No total, estima-se que, entre 1874 e 1920, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas tenham imigrado e se estabelecido em território brasileiro, consolidando uma das mais significativas correntes migratórias da história do país e impactando de forma duradoura a formação social, econômica e cultural brasileira.
Papel da mulher
Segundo o pesquisador, a mulher exerceu papel estruturante no processo de consolidação das comunidades imigrantes. Foram elas as principais responsáveis pela preservação da língua, especialmente dos dialetos vênetos e lombardos, pela manutenção das práticas religiosas, em sua maioria vinculadas ao catolicismo, e pela transmissão intergeracional das festas, da culinária e dos costumes. No âmbito doméstico e comunitário, atuaram como guardiãs da memória cultural, assegurando que tradições trazidas da Itália fossem incorporadas ao cotidiano das novas gerações no Brasil.
Ele destaca que, mesmo em uma sociedade marcada pela valorização da figura masculina como chefe da família e liderança na comunidade, eram elas que organizavam redes de ajuda mútua. “Especialmente em situações de doença, parto ou luto. Essas práticas fortaleceram laços comunitários e criaram formas de cooperação que sustentaram o desenvolvimento das colônias, posteriormente cidades. Também surgiram associações femininas ligadas à Igreja Católica, como os grupos de Apostolado da Oração e confrarias, que ampliaram a presença feminina no espaço público, ainda que embasada na religiosidade”, frisa.
Conforme destaca o professor, nas áreas coloniais da Serra Gaúcha, como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi e Farroupilha, a mulher ocupava posição central na dinâmica da economia de subsistência. Para além das atribuições domésticas, atuava diretamente nas frentes produtivas: participava do plantio e da colheita, do manejo dos animais, da elaboração de pães, massas, conservas e vinho, além de exercer papel estratégico na administração cotidiana dos recursos familiares, contribuindo decisivamente para a sustentabilidade das propriedades. “A casa rural não era apenas espaço privado, mas núcleo produtivo. Nesse sentido, a mulher era agente econômica, garantindo a estabilidade material da família e, por extensão, da comunidade”, aponta o professor.
De acordo com Lisete Furlan Canabarro, presidente e fundadora do Circulo Friulano da Serra Gaúcha, da Comissão Sesquicentenário da Imigração Italiana no RS e também do Comitê dos 150 Anos da Imigração Italiana em Bento Gonçalves, a história da imigração sempre esteve intrinsecamente presente em sua trajetória familiar, nas narrativas transmitidas entre gerações, nos gestos cotidianos e na própria forma de compreender o trabalho, a fé e a vida em comunidade. “Minha aproximação com o Circolo nasceu do sentimento de pertencimento. Não foi apenas uma escolha institucional, mas um chamado da memória e do coração. Tornou-se o espaço natural para transformar essa herança em ação concreta de preservação cultural. ”, destaca.
Segundo ela, sua percepção enquanto mulher inserida na história da imigração consolidou-se a partir do trabalho de organização de documentos, relatos e eventos, quando passou a identificar que, por trás de cada conquista coletiva, havia mulheres sustentando, muitas vezes de forma silenciosa, as bases da família e da fé. “Ao dar visibilidade às tradições, à religiosidade, à culinária e às práticas comunitárias, compreendi que estava também resgatando a memória feminina que, em muitos momentos, permaneceu nos bastidores”, frisa Lisete.

Para ela, ser mulher descendente significa carregar força e sensibilidade de forma igualitária. “É herdar a coragem das que atravessaram o oceano e a delicadeza das que mantiveram a família unida. É compreender que identidade não é passado imobilizado, mas continuidade consciente”, menciona a presidente.
Ao assumir a presidência de um espaço historicamente conduzido por homens, impõem-se desafios. “Procuro conduzir a gestão com competência técnica, sensibilidade cultural e firmeza institucional. O reconhecimento vem quando o trabalho é consistente e comprometido com a missão maior da entidade”, ressalta.
Presença feminina nas entidades culturais
Assim como Lisete, Daniela Sandrin Copat também participa ativamente de projetos na comunidade de Bento Gonçalves, como produtora cultural e presidente do Conselho Muncipal de Política Cultural, além de integrar os dois Comitês dos 150 anos da Imigração Italiana no RS. Segundo ela, sua família é de origem friulana, onde aprendeu muito sobre seus antepassados. “Com as histórias que contavam, a arte de trabalhar com a madeira tanto na marcenaria como na tanoaria, o dialeto italiano que tentavam me ensinar e a gastronomia típica. Minha vó paterna era o perfil das matronas da antiga Itália, casada, mãe de família, que cuidava da casa e dos filhos. Minha herança italiana influencia minha atuação principalmente na forma como eu entendo cultura: como pertencimento, trabalho coletivo e continuidade”, menciona.

Para Daniela, a culinária serve para a preservação identitária nas comunidades de imigração italiana. Segundo ela, as mulheres mantiveram técnicas tradicionais, adaptaram ingredientes à realidade brasileira e “recriaram” receitas como forma de reafirmar o pertencimento cultural. Nesse processo, a comida deixou de ser apenas sustento e passou a representar uma memória afetiva e coletiva, uma maneira simbólica de afirmar que, embora enraizados no Brasil, mantinham vínculos com a terra de origem. O resultado, conforme destaca, foi uma continuidade cultural silenciosa, mas profundamente determinante para a manutenção das tradições ao longo das gerações.
Ela destaca que, em seus projetos como produtora cultural, gosta de trazer a identidade feminina. “ Tirando as mulheres do ‘rodapé’ da história, onde muitos livros ainda as situam, e colocando-as no centro como agentes de decisão, trabalho e transmissão cultural, não apenas como ‘apoio’”, destaca.
Ela ressalta seu reconhecimento ao trabalho braçal das mulheres e à força do “lavoro” feminino, estando à frente de muitos segmentos. “Não falo só do trabalho braçal do dia a dia, mas também daquele invisível para muita gente: o cuidado, a organização da vida comunitária, a sustentação da fé, a preservação da língua, o ensino dos costumes, a construção de redes de solidariedade. É esse conjunto, muitas vezes silencioso, que constrói, fortalece, une e faz uma comunidade avançar”, ressalta.
Nos projetos que desenvolve, entre livros, documentários, exposições, ações educativas, inventários de memória e iniciativas de restauro, Daniela afirma que tem como diretriz central valorizar a presença feminina. “Para que elas não sejam apenas temas, mas também narradoras e construtoras da memória e traduzindo memória em legado, criando registros, acervos e narrativas que permaneçam e inspirem as próximas gerações”, menciona.
Matéria em atualização.