Os exames ginecológicos desempenham um papel fundamental na prevenção, no diagnóstico precoce e no acompanhamento da saúde da mulher em todas as fases da vida. Mais do que identificar doenças, eles permitem detectar alterações antes mesmo do surgimento de sintomas, aumentando as chances de tratamento e contribuindo para uma melhor qualidade de vida.
De acordo com a médica ginecologista Rita de Cássia de Almeida, os exames ginecológicos variam conforme a fase da vida da mulher, seu histórico de saúde e a presença de sintomas. “Quanto mais velhos estivermos, maiores são as chances de termos doenças ou complicações decorrentes delas. Além disso, a nossa genética pode ser favorável ou desfavorável. Então, se tivermos recorrência de alguma doença na família, temos que prestar atenção nisso e contar para o nosso médico. Nossos hábitos alimentares, nossos vícios e o fato de fazermos atividade física ou não também influenciam na nossa saúde. Tudo conta”, afirma.

Segundo ela, na adolescência e no início da vida adulta, antes dos 25 anos, a avaliação costuma incluir exames de sangue para verificar níveis de vitaminas, sais minerais, glicemia, colesterol, triglicerídeos e ferro, além da confirmação da imunização contra doenças como hepatites e rubéola. “Se houver indicação, também será realizado o exame citopatológico ou o teste de DNA para Papilomavírus Humano (HPV)”, explica.
A especialista ressalta que, após o início da vida sexual, também passam a fazer parte da rotina exames para infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis e HIV. A partir dos 25 anos, além desses exames, a mulher deve realizar o exame citopatológico do colo do útero, conhecido como preventivo, ou o teste de DNA para HPV, conforme a indicação médica.
Para as mulheres que planejam engravidar, a investigação é ampliada. “Além dos exames de rotina, acrescentamos testes para citomegalovirose, toxoplasmose, avaliação da tireoide, tipagem sanguínea e fator Rh. Também solicitamos uma ecografia transvaginal para verificar se o útero está anatomicamente adequado para uma gestação”, afirma Rita.
Com o avanço da idade, novos exames passam a integrar o acompanhamento. A partir dos 40 anos, por exemplo, são indicadas a mamografia e a ecografia mamária, além de avaliações hormonais durante a perimenopausa e a menopausa. “Entre os 45 e 50 anos, sugerimos que a paciente procure um coloproctologista para realizar a primeira colonoscopia. Já por volta dos 65 anos, ou antes, quando houver indicação clínica, solicitamos a densitometria óssea”, afirma.
A ginecologista explica que o acompanhamento feminino é contínuo e vai sendo adaptado conforme as necessidades de cada paciente. “Existe um roteiro de exames, mas ele pode ser modificado de acordo com a realidade clínica de cada mulher”, observa.
Ela também reforça que os cuidados ginecológicos devem ser mantidos na terceira idade, independentemente da vida sexual. “Muitas pacientes perguntam se ainda precisam consultar o ginecologista porque já estão idosas ou não têm mais relações sexuais. Minha resposta é sempre a mesma: vocês devem continuar indo ao médico, independentemente da idade ou de terem ou não atividade sexual”, menciona.
Exames
Segundo Rita, o exame Papanicolau ainda é o mais utilizado para detectar câncer de colo uterino. “Precisamos dizer que existe o DNA para HPV que pode ser feito. Além disso, não devemos nos prender somente a uma regra padrão. Temos que lembrar que a clínica é soberana, que cada paciente tem a sua história e que deve discutir isso com o seu médico”, orienta.
De acordo com Caroline Peixoto Bandeira, ginecologista e obstetra do Hospital Tacchini, um resultado alterado no exame preventivo não significa, necessariamente, que a paciente tenha câncer. Segundo ela, a alteração indica a necessidade de uma investigação mais detalhada para identificar a causa e definir o acompanhamento adequado. “Como tivemos recentemente uma grande alteração na forma de rastreamento, é difícil falar de condutas baseando-se somente no exame citopatológico. O primeiro passo é consultar o ginecologista. Dependendo dos resultados, complementamos a investigação com a colposcopia”, explica.

A médica esclarece que a colposcopia é um exame que permite avaliar detalhadamente o colo do útero por meio de um equipamento chamado colposcópio. Durante o procedimento, são aplicadas soluções específicas que provocam alterações na coloração do tecido, facilitando a identificação de lesões e a definição dos locais mais adequados para a realização de biópsias. “Ela é indicada, obrigatoriamente, nos casos de exames citopatológicos com suspeita de lesão de alto grau, alterações nas células do colo do útero e também quando o teste molecular para HPV identificar os subtipos 16 e 18, que apresentam maior risco de evolução para o câncer do colo do útero”, ressalta.
Rita ressalta que a menopausa e o período pós-menopausa exigem atenção especial, pois representam uma fase marcada por diversas mudanças no organismo feminino, que podem afetar a qualidade de vida. Entre os sintomas mais comuns estão ondas de calor, alterações no sono, irritabilidade, dores articulares, secura vaginal, infecções urinárias, perda de urina e mudanças corporais. “Então, a mulher deve estar com sua consulta ginecológica e exames em dia, para poder tratar e ter uma vida melhor, com menos aspectos desagradáveis. Além disso, as mulheres precisam dar-se o direito de se tratarem, de procurarem o melhor para si e nós, na ginecologia, conseguimos dar qualidade de vida para estas mulheres, através da hormonioterapia, das tecnologias como laser, ultrassom microfocado, eletroporação, bioestimuladores, preenchedores e outros”, afirma.
HPV, vacinação e acompanhamento podem ajudar a reduzir os riscos de doenças
Caroline Peixoto Bandeira, ginecologista e obstetra do Hospital Tacchini, explica que o HPV é um vírus extremamente prevalente na população. Estima-se que cerca de 80% das pessoas terão contato com o vírus em algum momento da vida. Embora, na maioria dos casos, a infecção seja eliminada naturalmente pelo organismo, alguns subtipos apresentam maior potencial de causar lesões que podem evoluir para o câncer do colo do útero. “Infelizmente, o HPV está associado a mais de 90% dos casos de câncer do colo do útero como agente causador. É importante entender que, apesar de ser um vírus sexualmente transmissível, a presença do HPV não significa promiscuidade, infidelidade ou falta de higiene. O vírus pode permanecer incubado por anos, o que impede identificar quando ocorreu a transmissão ou por quem ela aconteceu”, explica a ginecologista.
Lesões
Ela explica que as alterações no colo do útero são classificadas em dois segmentos, como: baixo grau e alto grau. “As lesões de Baixo Grau são com baixa probabilidade de evolução para algo mais grave, como câncer de colo. São lesões que resolvem espontaneamente em até dois anos na maioria das pacientes, e devido a isso, o tratamento conservador é preferencial. Já as de Alto Grau apresentam uma probabilidade maior de evolução para câncer de colo do útero, devendo ser tratadas cirurgicamente para a sua resolução”, afirma Caroline.
Além disso, ela explica que, entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de uma lesão que possa evoluir para o câncer do colo do útero, o tempo médio estimado é de sete a dez anos. Segundo ela, esse intervalo reforça a importância da realização periódica dos exames preventivos. “O acompanhamento regular permite justamente a identificação precoce dessas alterações e o tratamento adequado em tempo hábil, aumentando as chances de resolução e reduzindo os impactos na saúde reprodutiva e na qualidade de vida sexual da mulher”, esclarece.
Consultas
Rita de Cássia de Almeida, médica ginecologista, ressalta que a consulta com o ginecologista não deve ocorrer apenas de forma preventiva, mas também sempre que a mulher apresentar sinais ou sintomas que possam indicar alguma alteração na saúde. Segundo a especialista, é importante procurar atendimento antecipadamente em casos de dor pélvica, sangramento fora do período menstrual, corrimento acompanhado de dor, odor ou coceira, sintomas de infecção urinária, percepção de nódulos nas mamas, sinais da menopausa, perda involuntária de urina, além de dor ou sangramento durante as relações sexuais.
A ginecologista reforça que adiar as consultas de rotina pode comprometer o diagnóstico precoce de doenças e dificultar o tratamento de problemas que, inicialmente, poderiam ser resolvidos de forma simples. “Toda vez que você deixa de fazer a sua consulta de rotina, corre o risco de não identificar ou tratar uma condição que, com o passar do tempo, pode se tornar mais grave. A ciência, a medicina e os estudos já estabeleceram qual deve ser a rotina de consultas e exames. Sempre que você adia esse acompanhamento, pode estar se expondo a riscos desnecessários”, enfatiza.
Vacinação
Caroline reforça a importância da vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2014. “Estudos populacionais mostram que a vacinação antes dos 17 anos está associada a uma redução de 88% no risco de câncer cervical invasivo, em comparação com mulheres não vacinadas”, afirma.
Mensagem
Ao final da entrevista, Rita reforça a importância de confiar na medicina preventiva e de manter o acompanhamento ginecológico ao longo da vida. “Acredite na medicina. Muitas pessoas estudaram durante séculos para chegarmos ao conhecimento que temos hoje. Os protocolos de exames existem e cada um deles tem um motivo para ser realizado daquela forma. Principalmente, escolha um médico em quem você confia para cuidar da sua saúde, pois ela é o seu bem mais precioso. Não adianta ter um carro bonito, uma casa maravilhosa, roupas da moda ou fazer viagens incríveis se você não tiver saúde. Pense nisso e tenha a certeza de que cuidar da sua saúde continua sendo o melhor investimento”, conclui.





