O mês de março não é apenas um período de celebração das conquistas femininas, mas também de um alerta vital para a saúde das mulheres. A campanha Março Lilás ganha as ruas e as unidades de saúde em todo o país com um objetivo claro: conscientizar a população sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de colo do útero. No Brasil, a doença é o terceiro tipo de câncer com maior incidência entre as mulheres. Para cada ano do triênio 2023-2025, estima-se 17.010 novos casos, o que representa uma taxa bruta de incidência de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres, segundo informações do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
De acordo com a médica ginecologista Rita de Cássia de Almeida, este câncer é um tumor maligno que se desenvolve na região cervical do útero, geralmente causado pelos vírus oncogênicos, como o Papilomavírus Humano (HPV).
Segundo ela, embora o HPV possua centenas de variantes, o sinal de alerta do Março Lilás se volta especificamente para os chamados oncovírus, com destaque para os tipos 16 e 18. Diferente das versões que causam lesões benignas, esses subtipos de alto risco têm a capacidade de invadir o DNA das células do colo do útero, ‘desligando’ os mecanismos naturais de defesa que impedem a reprodução celular desordenada.

Sintomas
Rita menciona que, na maioria dos casos, os indícios são silenciosos. “Mas, com o tempo, podem ocorrer sangramentos, inclusive após a relação, e odor fétido quando o quadro está mais adiantado”, explica a médica.

Exames
O teste de Papanicolau, também conhecido como preventivo, é a principal estratégia para detectar precocemente e, mais importante, identificar lesões que podem se tornar cancerígenas no futuro. “Conseguimos detectar precocemente as lesões precursoras do câncer de colo uterino, o que nos leva a tomar as medidas precocemente, antes que se desenvolva uma lesão de alto grau”, destaca a ginecologista.

Rita de Cássia de Almeida, médica ginecologista


De acordo com ela, o INCA destaca que o exame deve ser realizado anualmente em pessoas de 25 a 64 anos. “Após dois exames consecutivos negativos, fazer a cada três anos. Isso é uma recomendação governamental para a saúde pública, porém, nos consultórios ginecológicos, não seguimos esta regra. Preferimos ser mais ativos e fazemos os exames anualmente, é nisso que acreditamos”, salienta. Rita explica que muitas vezes as mulheres deixam de fazer o exame por vários anos, o que não é o recomendado. “Perdemos a chance de detectar alterações precocemente. Quando descobrimos as doenças inicialmente, de uma maneira geral, conseguimos curar ou tratar de maneira menos agressiva, com menos sequelas para a paciente”, destaca.
Quando isso acontece, a chance de cura é de 100%. “Além disso, muitas vezes se faz um procedimento muito simples, que se chama conização, que é a retirada de, somente, uma parte do colo, sem necessidade de outros tratamentos complementares”, frisa.
A especialista ressalta, ainda, a disponibilidade do teste molecular de HPV, que amplia o arsenal diagnóstico ao detectar diretamente os tipos virais de alto risco oncogênico antes mesmo do surgimento de lesões.

Região
Rita menciona que, no Brasil, o câncer apresenta maior projeção na região Norte, com base nas taxas de mortalidade. “Atinge 20,48 a cada 100.000 mulheres, a maior taxa do país”, explica. Em seguida, vêm as regiões Nordeste e Centro-Oeste, enquanto as regiões Sul e Sudeste registram as menores taxas de mortalidade, com 12,93 óbitos a cada 100.000 mulheres.

Prevenção
Além do exame de Papanicolau, a vacinação contra o HPV é uma importante medida de prevenção. Esta é recomendada principalmente para meninas e meninos a partir dos nove anos, antes do início da vida sexual, mas também pode ser administrada em adultos jovens que não tenham sido vacinados anteriormente. “Recentemente isso foi estendido para até os 19 anos. Mas sabemos que a indicação vai dos nove aos 45 anos. Além disso, as pessoas pertencentes a grupos especiais, como imunocomprometidos, imunosuprimidos e soropositivos, devem fazer a qualquer momento”, explica.
Além disso, Rita salienta que a vacina não protege contra todos os tipos de HPV. “Ela atua contra os piores, os mais oncogênicos, aumentando a chance de não desenvolver câncer nas pessoas vacinadas”, frisa.

Vulnerabilidade
Ela menciona que qualquer mulher pode desenvolver a doença, mas existem grupos mais propensos, como:

  • Múltiplos parceiros ao longo da vida;
  • Não usar camisinha;
  • Ter a imunidade comprometida.
    Além destes, o estilo de vida desempenha um papel crucial na defesa do organismo contra o câncer. A especialista alerta que o tabagismo é um dos principais fatores de risco associados, uma vez que as substâncias tóxicas do cigarro reduzem a imunidade local no colo do útero, dificultando a eliminação natural do vírus pelo corpo.

Orientação
A especialista cita que todas as mulheres, desde cedo, devem ser alertadas sobre a doença. “A importância dos cuidados, dos exames, da consulta ginecológica rotineira, pois só assim conseguimos detectar doenças precocemente e tratá-las de forma mais adequada e sem grandes sacrifícios. Se posso dar um conselho: pensem um pouco mais em si mesmas, pratiquem o autocuidado”, finaliza.

Bento Gonçalves
De acordo com Licinéia Domeneghini, coordenadora de Unidades e da Enfermagem do município e Bruna Ebert, coordenadora Médica da Atenção Básica, a vacina do HPV é disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, as Unidades Básicas de Saúde oferecem os exames necessários para detectar a doença.
Elas destacam que durante o mês estão sendo realizadas ações educativas em relação a campanha. “Orientações coletivas, palestras com profissionais da área e divulgação de informações sobre prevenção. O objetivo dessas atividades é aproximar a comunidade dos serviços de saúde e reforçar a importância do cuidado preventivo”, frisam.
No cenário local, os dados evidenciam a urgência de atenção, com cerca de 126 casos de infecção por HPV registrados entre as mulheres do município. A doença, principal fator precursor do câncer de colo do útero, resulta, em média, em duas mortes por ano na cidade, conforme apontam as coordenadoras.