Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

ÚLTIMA HORA

Falta de horários de ônibus dificulta rotina de trabalhadores

A oferta de horários e os intervalos entre os ônibus estão entre as principais reclamações de usuários do transporte coletivo de Bento Gonçalves. Os relatos apontam dificuldades para conciliar os horários das linhas com as rotinas de trabalho, estudo e compromissos familiares. Diante das manifestações, a reportagem ouviu representantes de entidades do município sobre os impactos do atual serviço e as mudanças consideradas necessárias para melhorar o transporte público.

Opinião das entidades

Segundo Plínio Mejolaro, presidente do Sindilojas, a demanda do transporte público não é uma realidade exclusiva de Bento Gonçalves, mas um desafio enfrentado por municípios de todo o país. Ele atribui parte das dificuldades ao aumento dos custos operacionais, especialmente do combustível. “São de todas as cidades brasileiras. Por causa de quê? Com o preço do óleo dos ônibus, as empresas têm que encurtar horários porque não podem aumentar a passagem. Porque são licitações que têm validade. E nesse período de validade aumenta diversas vezes o combustível. E quem sofre é o consumidor”, explica.

De acordo com Orildes Lottici, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento Gonçalves e Região (SEC-BG), parte da população que vive nos bairros e depende do transporte coletivo para trabalhar enfrenta dificuldades para utilizar o serviço, principalmente em razão da falta de itinerários e da oferta limitada de horários. “As principais reclamações são referente ao alto custo e o transporte é precário porque o itinerário e horários não atendem a categoria. Tem bairros que sequer são atendidos. Os mais distantes sofrem mais”, relata.

Orildes Lottici

Por meio da presidente Helenir Bedin, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves (CDL-BG) defende que a discussão sobre tarifas e horários do transporte coletivo considere tanto a sustentabilidade do sistema, diante dos custos com combustível, mão de obra e manutenção da frota, quanto o impacto financeiro para os usuários que dependem diariamente do serviço. Segundo a entidade, essa avaliação deve considerar os diferentes fatores que influenciam a operação do transporte coletivo.

Helenir Bedin

Segundo ela, os lojistas relatam dificuldade para contratar e manter colaboradores que dependem do ônibus para chegar e voltar em segurança. “A oferta de horários no fim da tarde, aos sábados e em datas de horário estendido, precisa acompanhar a sazonalidade das demandas da população. A carência de alternativas encurta a janela de compra do consumidor e também afeta diretamente quem trabalha no comércio. Esse fator é um dificultador para o funcionamento do comércio em horários estendidos”, observa.

De acordo com Helenir, a entidade não trata o assunto como cobrança, mas sim como desenvolvimento. “Colocamo-nos à disposição para contribuir com o poder público, as empresas concessionárias e as demais entidades em um grupo de trabalho permanente, aportando dados sobre fluxo de consumidores e jornada dos trabalhadores, de modo a construir alternativas para a questão”, afirma.

Mejolaro menciona que muitos funcionários procuram transporte próprio para o deslocamento até o trabalho e também para facilitar o dia a dia. “Muitos têm motos, principalmente. Outros buscam almoçar no trabalho para não precisarem voltar para casa, às vezes o tempo é curto ou não dá tempo. Nós, por exemplo, temos cinco funcionários que almoçam na empresa, temos cozinha aqui”, observa.

Orildes afirma que já recebeu relatos de pessoas que precisaram deixar de realizar algumas atividades por conta dos horários. “Temos inúmeros registros, particularmente de mães que precisam deixar seus filhos em creches e escolas e que têm endereços distintos do trabalho”, conta.

A presidente do SEC-BG também relata que existe uma parcela significativa de trabalhadores que precisa recorrer a caronas ou adquirir seu próprio veículo. “Existem uma grande parcela que inclusive que tem necessidade de investimentos em veículos de duas rodas, que nem sempre são regularizados e por vezes inseguros. Até porque tem empresas que não oferecem vale transporte”, afirma.

Questionada sobre o encaminhamento das reclamações aos responsáveis pelo transporte coletivo, ela afirma: “Não há sensibilidade dos agentes envolvidos para ouvir as demandas da sociedade de uma forma geral”, menciona.

O que é preciso mudar

Orildes defende a revisão das políticas de transporte urbano e coletivo, com a ampliação da discussão sobre o transporte público e a realização de novas licitações para o serviço.

Já Mejolaro defende a adoção de um modelo de transporte público gratuito ou parcialmente subsidiado, com a participação financeira dos usuários, do poder público e das empresas. Segundo ele, a medida poderia ampliar o número de passageiros, reduzir o fluxo de veículos particulares e, consequentemente, contribuir para a diminuição da poluição. “Canoas, São Leopoldo, já adotaram. Caxias está estudando. Isso faz com que cada vez mais as pessoas usem o transporte público. O que melhora o fluxo de veículos, e consequentemente a poluição”, observa.

Além disso, ele avalia que é necessário ampliar a oferta de horários intermediários, especialmente fora dos períodos de pico. Na avaliação dele, embora as empresas mantenham os horários de maior movimento por concentrarem maior demanda, a oferta reduzida nos demais períodos dificulta o deslocamento de trabalhadores e consumidores. Para ele, um modelo de financiamento compartilhado poderia permitir que as empresas ampliassem a operação conforme as necessidades da população. “Eu acho que o transporte público não podia ser inteiramente gratuito, tinha que ter uma participação do usuário, um pouco do poder público e das empresas. Pagam a passagem para as empresas e elas começam a operar em horários que precisam. Não vão botar horário porque não tem ninguém dentro do ônibus. Não compensa, é só gasto”, finaliza

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